Os desafios do biodiesel de algas

Décio Luiz Gazzoni 

A garantia de oferta de matéria prima de alta qualidade, barata e abundante, é um dos desafios que necessitam ser superados para capturar as oportunidades de crescimento do mercado de biodiesel, no médio prazo. Por esta razão, a cadeia de biodiesel permanentemente discute as alternativas de novas matérias primas, que permitam superar, com vantagens, a dependência que hoje possui em relação à soja e ao sebo bovino, no Brasil; à soja nos EUA; e à canola na Europa.

  Sempre que esta discussão se apresenta, as microalgas são consideradas como uma das mais promissoras matérias-primas para produção de biocombustíveis, particularmente de biodiesel, pelo seu grande potencial de produzir matéria graxa em alta quantidade, em pequenas áreas. Além do mais, as microalgas não necessitam de solo fértil, ao contrário podem utilizar terras marginais ou semiáridas, desde que se disponha de uma fonte de água (subterrânea, por exemplo), que esteja próxima. A Figura 1 mostra um projeto conceitual, utilizando uma área de deserto, imprópria para a agricultura, para instalação de uma fazenda de microalgas.

         

Figura 1. Projeto conceitual de uma fazenda de microalgas para produção de biodiesel.

 

A produtividade destes microorganismos fotossintéticos para converter dióxido de carbono em lipídios – matéria prima do biodiesel - excede em muito o de oleaginosas agrícolas, sem competir por terra arável. Em cálculos teóricos, as projeções indicam a possibilidade de substituir milhares de hectares de soja por um único hectare de microalgas, com a mesma produção de óleo anual.   Com base neste potencial e nesta perspectiva, diversos programas de pesquisa estão em andamento, em diferentes países, com objetivos similares. Busca-se identificar as espécies mais produtivas e de mais fácil cultivo; desenvolver a tecnologia de produção para larga escala; e identificar e desenvolver um processo eficiente e barato para colheita e extração óleo das microalgas, e efetuar o aproveitamento integral da biomassa das algas. O horizonte de tempo para que se possa pensar em produção efetiva, de larga escala (da ordem de bilhões de litros) de biodiesel de microalgas é estimada em, no mínimo, 10 anos, sendo impulsionada por ferramentas modernas de biotecnologia, em especial biologia sintética e nanotecnologia.

 

Antecedentes 

Usar algas para produzir biocombustíveis é uma ideia que antecede o primeiro choque do petróleo, pois em 1960 o assunto já era abordado no artigo Biological transformation of solar energy (Oswald & Golueke, 1960). Porém, é na década de 1970, sob o efeito dos impactos dos dois choques de petróleo, que a busca por fontes alternativas de combustíveis líquidos deu impulso à pesquisa na área, e quando surgem os primeiros esforços concentrados para produção de microalgas com finalidades energéticas.   Um marco deste período é o trabalho desenvolvido no National Renewable Energy Laboratory (NREL), vinculado ao Departamento de Energia dos EUA, localizado em Boulder, Colorado. O foco principal do programa, conhecido como Aquatic Species Program (ASP), foi a produção de biodiesel a partir de alto teor de lipídios das algas cultivadas em lagoas, utilizando como insumo o CO2 proveniente de termoelétricas a carvão. Posteriormente, na década de 1990, o governo japonês investiu em um grande projeto de pesquisa intitulado "Biological CO2 Fixation and Utilization.

 

 

Com a bonança dos preços de petróleo, que se mantiveram em patamares baixos ao longo da década de 1990, ambos os programas foram descontinuados. Entretanto, estes programas permitiram identificar espécies e selecionar cepas de microalgas altamente promissoras para a produção de lipídios. A produção em sistemas abertos (lagoas), e o desenvolvimento de conceitos que possibilitaram a construção dos protótipos de fotobioreatores usando fibras ópticas foram, igualmente, tecnologias desenvolvidas por estes programas.   O revival do interesse em microalgas data do início do presente século, motivado pela escalada abrupta dos preços do petróleo (e de outras fontes fósseis de energia), aliada ao crescente interesse em energia renovável. Como o consumo mundial de energia é da ordem de bilhões de toneladas equivalentes de petróleo, qualquer alternativa para ser viável necessita combinar abundância, com baixo custo e sustentabilidade que, em teoria, são características potenciais do cultivo de microalgas.

 

O potencial das microalgas 

Em condições normais, as microalgas são produtoras razoáveis de lipídios. Entretanto, quando submetidas a fortes estresses, como a privação nutricional, as algas formam reservas, estocando grandes quantidades de energia química na forma de óleos. Uma vez extraído, o óleo pode ser transformado em biodiesel utilizando os mesmos processos aplicados a outras matérias primas, como óleos vegetais ou gorduras animais.   Convém salientar que existem algas especializadas, que também podem sintetizar outros produtos com potencial energético ou para outros usos. Benemann (2000) relata a produção de hidrogênio por microalgas; Colemann (1999) refere a produção de etanol por cianobactérias; hidrocarbonetos de cadeia longa, que se assemelham petróleo bruto também podem ser obtidos de algas (Banerjee et al., 2002); e a biomassa restante, ou mesmo de produção dedicada de algas, pode ser convertida em biogás por fermentação anaeróbica, como preconizada há muito tempo por Oswald & Golueke (1960), ou, em último caso, a biomassa residual pode ser utilizada em termoelétricas.

 

Apesar desse potencial, a efetiva capacidade de produção de microalgas está, atualmente, limitada, quando comparada com outras culturas que produzem matéria prima para a agroenergia. A capacidade instalada para produção de algas no mundo é estimada em 5.000 toneladas de algas secas e biomassa residual. Porém as plantas industriais atualmente existentes são quase exclusivamente dedicadas à obtenção de bioprodutos como ácidos graxos w-3 (ômega-3).  

O valor de mercado desta produção gira em torno de €1,25 bilhão (Wijffels & Barbosa, 2010), implicando em um custo médio de €250/kg, o que é um valor impraticável para o mercado energético. Na Figura 2 é possível visualizar a variação do preço de óleos vegetais, cotados no mercado internacional. Em dezembro de 2011, o óleo de soja estava cotado a US$1.100/t, o equivalente, ao câmbio de janeiro de 2012, a €0,85/kg, o que representa uma diferença abissal em relação aos derivados de microalgas.

 

 

Figura 2. Cotação dos principais óleos vegetais no mercado internacional.

 

 

Rentabilidade 

Torna-se evidente que a produção de microalgas para biocombustíveis necessita de uma escala muito maior, e com custos muito mais baixos, pois o mercado de energia demanda volumes gigantescos e não comporta pagar mais que uma fração do que a sociedade se dispõe a desembolsar por especiarias químicas. Para que este fato possa constituir-se em realidade, portentosos investimentos necessitam ser efetuados para o desenvolvimento de sistemas de produção e de aproveitamento da biomassa produzida. Porém, entende-se que, paralelamente, será necessário dispor de planos de negócios que sejam mais amplos que simplesmente a produção de biodiesel, para conferir sustentabilidade econômica ao empreendimento.   Isto significa que a sustentabilidade do processo deverá passar pelo aproveitamento integral de todos os componentes da biomassa (proteínas, lipídios, carboidratos), no bojo do conceito moderno de biorefinaria. Por exemplo, na fração lipídica da biomassa de algas, seriam separados a parcela destinada à biodiesel daquela composta por ácidos graxos de alto valor de mercado, como os w-3 (ômega-3), que seguiriam outra rota de processamento e comercialização. Da mesma forma, a fração carboidrato poderia destinar a parcela nobre ao mercado nutricional, enquanto a parte fibrosa (carboidratos complexos, de alto peso molecular) seriam destinados à produção de energia. Para reduzir o custo de produção, uma indústria de bioalgas poderia estar associada com outra que fornecesse CO2 residual, por exemplo, uma usina de etanol, uma termoelétrica ou outro empreendimento que utilizasse processos de fermentação ou combustão.

 

Inovações tecnológicas

Do ponto de vista tecnológico, é importante o investimento em sistemas de produção inovativos, pois a História mostra que o acoplamento entre escala e inovações é responsável pela redução do custo de produção (curvas de aprendizado). Um exemplo clássico é o que ocorreu na indústria farmacêutica, em que a produtividade na produção de antibióticos como a penicilina aumentou 500.000% em 50 anos, contados a partir do primeiro empreendimento comercial, no final da década de 1930. Foi este fato que permitiu a universalização do uso de antibióticos, com aumento da expectativa e melhoria da qualidade de vida. Esta evolução ocorreu principalmente entre 1940 e 1990, período em que a biotecnologia não existia ou era muito incipiente. Com as novas ferramentas científicas e tecnológicas atualmente disponíveis, estes avanços serão ainda mais dramáticos, em períodos de tempo mais curtos.  

Atualmente, a produção comercial de microalgas é baseada em tecnologias tradicionais, e com pequena diversidade de raças. Por um lado, ainda há muitas espécies desconhecidas para explorar; por outro, a engenharia genética oferece a possibilidade de melhoramento em prazos curtos, especialmente quanto ao teor de lipídios e à sua produtividade por unidade de tempo e de área.

  Algumas microalgas, quando expostas condições de estresse (por exemplo, a privação de nutrientes ou alta intensidade de luz), acumulam lipídios na forma de triacilgliceróis nos chamados corpos de óleo (oil bodies), conforme mostrado na Figura 3. Este acúmulo ocorre em à custa de energia utilizada para o crescimento, levando a uma diminuição na taxa de crescimento e conseqüente redução da produtividade. De outra parte, no cultivo de algas sem aplicação de estresses, os lipídios se encontram na forma de fosfolipídios nas membranas celulares, o que facilita enormemente o processo de extração do óleo.

 

 

Figura 3. Corpos de óleo de Calypogeia peruviana

 

 
O conhecimento do mecanismo de biossíntese de triacilgliceróis e sua acumulação em corpos de óleo é limitado e muitas vezes deriva de analogias com plantas superiores. Se o mecanismo fosse conhecido, poderia descortinar a possibilidade de promover a acumulação de lipídios sem a necessidade de estressar a colônia de microalgas. Tecnologias mais avançadas poderiam ser desenvolvidas, associando a acumulação de lipídios a técnicas de engenharia metabólica ou variação do regime nutricional.   Até o presente momento, são raras as espécies de microalgas com sequenciamento completo de seu genoma. Entre elas podem ser citadas Chlamydomonas spp., Thalassiosira pseudonana, e Phaeodactylum tricornutum. Da mesma forma, pouco se domina da metodologia de transformção de algas, sendo que Walker et al (2005) referem 10 diferentes espécies de algas que já foram transformadas. Apenas em C. reinhardtii foram aplicadas técnicas de engenharia metabólica, em que vários genes foram superexpressados, silenciados ou tiveram reduzida a expressão da característica comandada pelo gene. O uso mais extensivo destas técnicas laboratoriais permitirá desenvolver e aprimorar processos de produção em massa de microalgas, com espécies melhoradas e de mais alta produtividade.

Processos produtivos 

Em teoria, microalgas seriam de produção (cultivo) muito mais fácil e barato que oleaginosas ou outra fonte de biomassa. Os insumos necessários são a luz solar, CO2 e água em larga escala, e nitrogênio e fósforo, em pequena escala. Embora o cultivo de algas possa ocorrer em luz artificial, por razões de sustentabilidade e balanço de energia, o cultivo em larga escala de microalgas para a produção de biocombustíveis deve ter na luz solar sua única fonte de energia luminosa.   Entretanto, na prática, o cultivo de microalgas é muito mais complicado e passa por detalhes ainda não completamente esclarecidos ou devidamente desenvolvidos. Uma descoberta importante foi a elucidação da saturação do processo de fotossíntese, que ocorre em baixas latitudes, em que, a intensidade da luz solar é elevada, limitando o crescimento e ocasionando queda na produtividade. A descoberta obrigou a um esforço de pesquisa aplicada, com o objetivo de aumentar a eficiência das microalgas sob alta saturação de luz (a condição normal em um dia ensolarado).

   

Um resultado destas pesquisas foi o desenvolvimento de novas raças com antenas menores, como relata Mellis (2009). Outro resultado foi a mudança do ângulo de ataque dos fotobioreatores em relação aos raios solares, e o aumento da agitação em culturas de células de alta densidade (Tredici, 2010). Entretanto, a agitação do meio exige grande consumo de energia e, portanto, não é adequado para produção em larga escala, razão pela qual a estratégia que vem recebendo mais atenção é a redução da intensidade da luz que incide na superfície do reator. Isto pode ser feito pelo empilhamento dos reactores verticalmente, com espaçamento estreito entre as estantes perda minimiza de luz para a superfície do solo (Figuras 4 e 5).

  Ainda assim cuidados são necessários para evitar que o desenho do fotobioreator redunde em uma menor produtividade volumétrica e baixa concentração de biomassa. Wijffels & Barbosa (2010) sugerem o uso de polietileno nos fotobioreatores, para reduzir o custo dos painéis verticais, citando exemplos de sistemas de película fina submersos em grande volume de água, que auxilia na regulação térmica, consequentemente com menor consumo de energia para refrigeração. O polietileno atualmente disponível tem vida útil de aproximadamente um ano, o que eleva o custo de produção de microalgas, pela necessidade de sua substituição frequente. Como tal, há necessidade de investir em novos materiais, com as mesmas propriedades, porém de maior durabilidade, preferencialmente obtido de produtos renováveis – por que não de microalgas?

 

Figura 4. Empilhamento vertical de fotobioreatores

Os fotobioreatores necessitam de limpeza frequente, e o método de limpeza necessita ser aprimorado, com redução de tempo e de custo. A necessidade de resfriamento dos fotobioreatores pode ser diminuída se o infravermelho próximo do espectro de luz solar for refletido, reduzindo o aquecimento do sistema.

Figura 5. Aproveitamento integral da luz

 Demanda nutricional 

A água é sempre um parâmetro importante para a produção de biomassa. Como regra geral, DeFraiture el al. (2008) afirmam que, para a produção de um litro de biocombustível de culturas oleaginosas, ocorre uma evapotranspiração de 2.500 litros de água. No caso de microalgas, Kliphuis et al. (2010) referem a necessidade de, aproximadamente, 750 ml de água para produzir um quilo de biomassa. Assumindo um teor de óleo de 50%, são necessários 1,5 litros de água para produzir matéria prima para elaborar um litro de biodiesel.   Entretanto, na prática, o uso da água em sistemas de produção é muito maior do que o cálculo teórico, porque a água também é utilizada para sistemas de refrigeração nos circuitos fechados (fotobioreatores), e água fresca necessita ser adicionada continuamente às lagoas abertas, para compensar a evaporação. Se os sistemas fechados são usados e resfriados com água salgada através de trocadores de calor, o uso de água doce pode ser reduzido consideravelmente. Microalgas também podem ser cultivadas em água do mar, e até mesmo desertos seriam locais adequados para o seu cultivo, se houver acesso à água salgada para poupar água doce.

        

 

A produção de biomassa em larga escala requer uma grande quantidade de CO2. Um total de 1,8 toneladas de CO2 é necessário para produzir 1 tonelada de biomassa de algas, de acordo com Kliphuis et al. (2010). A produção de algas poderia constituir um processo altamente sinérgico com outros empreendimentos que gerem grande quantidade de gás carbônico, como instalações de fermentação ou termoelétricas. No entanto, a distância entre os empreendimentos deve ser mínima, idealmente ambos deveriam estar no mesmo local físico, para evitar custos de transporte.   Os principais nutrientes para a produção de microalgas são o nitrogênio e o fósforo. A biomassa das algas (em base seca) é composta por 7% de nitrogênio e 1% de fósforo. Como ambos são fertilizantes usados na agricultura, e para reduzir o custo e o consumo de energia no ciclo de vida do biodiesel de alga, será importante fazer uso de fontes de nutrientes residuais e reciclagem de nutrientes, tanto quanto possível.

 

Extração do óleo 

Ao final do ciclo de cultivo, a biomassa deve ser colhida, os lipídios extraídos, e os demais componentes celulares recuperados. Atualmente, a colheita de microalgas se constitui em um processo muito caro, devido à alta demanda de energia e os custos com equipamentos que são necessários para o processo.  

Em geral as microalgas são compostas de pequenas células individuais, razão pela qual a centrifugação é o método de colheita mais usado. No entanto, como o concentração de biomassa é baixa (<3 g/L), a centrifugação de uma mistura com este grau de diluição requer um grande capacidade da centrífuga, o que torna o processo caro, demorado e com alta demanda de energia. A floculação, seguida de sedimentação e flotação, antes da centrifugação ou filtração reduzem substancialmente os custos de colheita e as exigências de energia. Idealmente, as algas deveriam flocular espontaneamente em um determinado estágio do processo produtivo, auxiliando na redução de custos.

  Após a colheita, as células precisam ser rompidas para que o óleo possa ser extraído com solventes orgânicos. O processo pode usar metodologia mais branda, porém mais cara, como é o caso do CO2 supercrítico. A maioria das cepas de microalgas apresenta tamanho relativamente pequeno e tem uma parede celular relativamente espessa. Por esta razão, há necessidade de processos vigorosos para romper as células e permitir a extração dos produtos, o que pode afetar a funcionalidade de outros compostos celulares, como proteínas, e prejudicar o aproveitamento integral da biomassa com alto valor de mercado.

 

 

A simples excreção dos óleos para o ambiente de cultivo, como ocorre naturalmente na espécie Botryococcus braunii, representa uma inovação que simplificará o processo industrial e reduzirá fortemente os custos. No entanto, esta ainda é uma solução parcial, porque os demais componentes celulares ainda precisam ser recuperados (proteínas ou carboidratos). Assim, seriam ideais cepas de microalgas com membranas celulares mais finas, porém suficientemente fortes para evitar danos durante a produção, mas que pudessem ser facilmente rompidas na colheita. Por exemplo, uma enzima que rompesse ou fragilizasse a parede celular logo após a colheita, melhoraria o processo industrial e reduziria tremendamente os custos de extração do óleo.  

Figura 6. Recuperação da biomassa de algas, após sua separação por filtração.

 

Existe variabilidade genética para algumas destas características (excreção, paredes finas), porém elas não são encontradas em uma mesma raça, a qual também deveria possuir outras características desejáveis, em especial alto teor de óleo e alta produtividade. Reunir todas as características em uma ou mais raças, deve ser uma linha prioritária de pesquisa para o curto prazo.

 

Outras características de microalgas precisam ser identificadas e incorporadas em cepas com finalidade industrial. Por exemplo, se determinada cepa apresentar a capacidade de converter eficientemente a luz solar de alta intensidade em biomassa, sem a saturação do processo fotossintético, a diluição de luz não vai mais ser necessária e os reatores podem ser simplificados. Igualmente, cepas que tolerem alta concentração de oxigênio, tornam, teoricamente, o comprimento de tubos em fotobiorreatores ilimitado e a desgaseificação poderia ser dispensada.  

Em conclusão, existe uma possibilidade animadora de que, no período médio de 10 anos, possam existir empreendimentos industriais de grande porte, produzindo biodiesel a custos competitivos, a partir de microalgas. Para tanto é necessário um grande esforço de pesquisa no sentido de identificar novas raças de alta produtividade, com boas características industriais; o custo de produção necessita ser reduzido; novos processos de colheita e extração de óleo necessitam ser desenvolvidos; e o enfoque necessita ter uma abordagem que permita o aproveitamento integral da biomassa.

Literatura consultada e recomendada 

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Biocombustíveis para aviação

Décio Luiz Gazzoni

De todos os setores intensivos em energia, o de mais difícil equacionamento quanto ao perfil de combustíveis a serem utilizados, no médio e mesmo no longo prazo, é o transporte aéreo. Alternativas são possíveis para o transporte terrestre ou marítimo, com o uso de biocombustíveis, bioeletricidade ou energia nuclear. Mas, na aviação não há como usar eletricidade em grande escala e é impensável o uso de energia nuclear. Resta examinar a viabilidade de uso de biocombustíveis em larga escala, o que descortinaria uma excelente oportunidade de investimentos para o setor de biocombustíveis – entre eles os atuais produtores de biodiesel – que permitiria ampliar o leque de produtos destinados ao mercado.

  Em 2009, o setor de transportes, em escala global, foi responsável por 22% das emissões de CO2, devido ao uso exclusivo de combustíveis fósseis. No setor aeronáutico, apesar de uma trajetória exemplar de um século de melhorias nos projetos de aeronaves, no uso de materiais mais leves e resistentes, no desenvolvimento de motores mais eficientes, e com melhora acentuada na eficiência de uso de combustível, ainda há um longo caminho a percorrer no que tange às emissões de gases de efeito estufa (GEE).

       

 Com efeito, em 1990, de acordo com o IPPC, o setor da aviação contribuiu com, aproximadamente, 12% das emissões globais de gases de efeito estufa, valor reduzido a 2% em 2009. Entretanto, grande parte dessa redução foi devida ao maior crescimento da emissão de outros modais de transporte, que propriamente da redução no volume nominal de emissões da aviação.   Para o futuro, o quadro tende a se agravar, pois a demanda continuará crescendo a altas taxas, impulsionada pelo aumento da população global, por economias em crescimento (viagens a negócio e transporte de carga), particularmente em países emergentes, e pelo aumento da renda per cápita (viagens de turismo). De acordo com o IPPC, até 2050 o setor de aviação responderia por 3% das emissões de GEE.[2]  

De fato, estima-se que a demanda por viagens aéreas crescerá 5-6% ao ano, podendo triplicar ou até quadriplicar o tráfego atual, em 2035. Sem medidas adicionais extraordinárias, o setor aéreo global vai aumentar significativamente a sua pegada de carbono de 1,5 Gt CO2 (2005) para 2,9 Gt de CO2 até 2035, conforme apontado em 2012, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça[3]. O estudo apresentado no Fórum também demonstra que o setor de viagens e turismo correntemente contribui com emissões de GEE equivalentes a 5% do total de emissões antropogênicas.


 

Emissões futuras

A estimativa é que, excluída a aviação, as emissões do setor de viagens e turismo crescerão, ceteris paribus, 2,5% a.a., até 2035. Para a aviação, especificamente, a estimativa é de um crescimento setorial de 5% a.a., porém as emissões cresceriam menos (2,7% a.a.) até 2035. As razões desse descompasso estão na substituição da frota atual por aeronaves mais eficientes, com melhor relação potencia / peso deslocado, em curso até aquela data.   Entretanto, mesmo esse crescimento (2,7% a.a.) é muito alto e incompatível com as metas de estabilização da concentração de CO2 na atmosfera, em 550 ppm até 2100, referido no Stern Review[4], adotado no World Energy Outlook Report de 2008[5] como cenário referencia, e constando das recomendações para os formuladores de políticas públicas do relatório do IPPC[6]. Assim, outras medidas necessitam ser tomadas, que vão além da racionalização do tráfego aéreo, da redução do peso das aeronaves, do aumento da capacidade de carga e do menor gasto de combustível por unidade de tempo ou de distância voada e por unidade de peso transportada.   A COP15 não conseguiu chegar a um acordo a respeito de limitação das emissões de GEE pelo setor de aviação, com metas temporais. Presentemente, a IATA (International Air Transport Association) e a ICAO (Intenational Civil Aviation Organization) estão preparando o rascunho de uma proposta a ser submetida ao IPPC, para futura deliberação.

 

 

        O relatório do IPPC sobre aviação, elaborado em 1999, era pessimista a respeito das mudanças nos combustíveis utilizados na aviação, referindo textualmente[7]:

 “     Não parece haver alternativas práticas para o uso de querosene nos aviões a jato comerciais, para as próximas décadas. Reduzir o teor de enxofre de querosene irá reduzir as emissões SOx e a formação de partículas de sulfato. Os aviões a jato exigem combustível com uma alta densidade de energia, especialmente para voos de longo curso. Opções de combustível, tais como o hidrogênio, podem ser viáveis no longo prazo, mas exigiriam novas concepções de aeronaves e de infra-estrutura para o fornecimento. O hidrogênio eliminaria as emissões de dióxido de carbono dos aviões, mas aumentaria as de vapor de água[8], que também acirra o efeito estufa.  

      Os impactos ambientais globais e a sustentabilidade ambiental da produção e utilização de hidrogênio ou de quaisquer outros combustíveis alternativos não foram determinados. A formação de partículas de sulfato de emissões de aeronaves, que depende das características do motor, é reduzida à medida que diminui o teor de enxofre do combustível. Embora exista tecnologia para remover enxofre dos combustíveis, uma consequência da remoção é a redução na lubrificação.

 

 

A ação da IATA

 

 

Com base nas projeções de crescimento do tráfego aéreo, em nível global, combinado com a pressão pública para um sistema mais sustentável de transporte aéreo, a IATA (International Air Transport Association) definiu metas ambiciosas para seus associados. Entre outros aspectos, foi estabelecido que:

ü  A melhoria da eficiência média da frota deve ser de 1,5% a.a, até 2020;

ü  O biocombustível a ser utilizado deve ser misturado com o Jet Fuel convencional (drop in fuel), deve usar o mesmo tipo de infraestrutura atual e não deve exigir adaptações das aeronaves ou das turbinas;

ü  O biocombustível de aviação deve atender as mesmas especificações do Jet Fuel e, além disso, deve atender critérios de sustentabilidade, como redução das emissões de carbono no ciclo de vida, não competir por suprimento de água e não competir com a produção de alimentos, além de não ocasionar desmatamento;

ü  As emissões setoriais devem ter uma redução absoluta de 50% até 2050, em comparação com 2005.

 

          

          Mesmo para quem não é especializado em aeronáutica, é fácil perceber que essas metas ambiciosas, embora bem intencionadas, representam um enorme desafio, que só pode ser enfrentado com um "pensamento fora da caixa” e com base em significativos investimentos em novas tecnologias, como:

ü  Nova geração de aeronaves e motores muito mais eficientes, concomitantemente com renovação acelerada da frota;

ü  Melhor gestão do tráfego aéreo (por exemplo, NextGen nos EUA e SESAR na Europa);

ü  Fontes de energia alternativas, tais como os biocombustíveis de aviação, produzidos em larga escala e a baixo custo.

  Considerando que o ciclo de substituição das aeronaves é longo, muitos dos aviões atualmente em operação, ainda estarão em serviço ao longo da próxima década, até 2020. Empresas aéreas de países pobres da América Latina e da África são repositórios de aeronaves antigas de países ricos ou emergentes. Por exemplo, na Bolívia, ainda são utilizadas aeronaves Boeing modelo 727, cuja última unidade saiu da fábrica em 1984. Os casos das empresas aéreas de países pobres deveria ser tratado à parte, pelos problemas de segurança de voo e de excesso de emissões que representam.

 

Uso de combustível

A demanda de combustível de aviação é muito alta. Somente nos EUA e em 2009, foram consumidos 92 bilhões de litros de querosene de aviação, segundo a Energy Information Administration (EIA). Também de acordo com a EIA, o consumo mundial, em 2009, foi de 319 bilhões de litros, o que equivale a cerca de um quarto do consumo mundial de gasolina, no mesmo período. Os combustíveis de aviação são uma mistura de diferentes hidrocarbonetos. Tanto o peso molecular quanto o número de carbonos possuem limitações, devido às rígidas especificações. O querosene Jet A é específico dos EUA e o Jet A-1 é usado no restante do mundo.   As especificações técnicas do querosene de aviação (Tabela 1) são muito exigentes. Por exemplo, o querosene tem que funcionar plenamente em temperaturas abaixo de -30 ° C, o que impõe a necessidade de avançados processos de fabricação, que exigem investimentos mais elevados que a produção de biocombustíveis, como o etanol ou o biodiesel.   Existem outros combustíveis de aviação para usos específicos ou restritos. Por exemplo, existe um terceiro combustível de aviação, chamado de Jet B, classificado entre nafta e querosene (mais leve), desenvolvido para condições climáticas severas, com ponto de congelamento de -60º.C e com um baixo ponto de fulgor.

 

Tabela 1. Algumas especificações do combustível de aviação

 

Característica

Jet A-1

Jet A

Ponto de fulgor

42 °C

51.1 °C

Temperatura de autoignição

210 °C  

Ponto de congelamento

−47 °C

−40 °C

Temperatura de combustão

260-315°C

Densidade a 15 °C

804 kg/L

820 kg/L

Energia específica

43,15 MJ/kg

43,02 MJ/kg

Densidade energética

34,7 MJ/L

353 MJ/L

Fonte: http://www.bp.com/liveassets/bp_internet/aviation/air_bp /STAGING/
local_assets/downloads_pdfs/a/air_bp_products_handbook_04004_1.pdf

 

A análise conjunta das metas e das exigências colaterais aponta para a necessidade de uso crescente de fontes de energia renovável, quase que exclusivamente biocombustíveis, para o cumprimento dessas metas. De imediato, poderia ser enfrentada a necessidade de redução do teor de enxofre da querosene de aviação, o que acarretaria a perda do poder de lubricidade. Aproveitar a capacidade lubrificante dos derivados de óleos vegetais pode ser uma excelente oportunidade para ambas as partes, empresas aéreas e produtores de biocombustíveis, para iniciar uma parceria estratégica que, não obstante os volumes iniciais serem pequenos (1-2% do combustível usado), possui grande potencial de mercado futuro.

Contradições

 

 

Entretanto, ainda há alguns aspectos a negociar, para encontrar um terreno comum. A IATA, influenciada pela forte discussão que se estabeleceu em 2008, tendo como pano de fundo uma suposta competição entre produção de alimentos e de biocombustíveis no mundo, impôs como condição a seus associados o uso de combustíveis alternativos produzidos com matérias primas ditas sustentáveis (ex.: jatrofa, camelina, halófitos e algas, além de óleos usados e lixo), que não competiriam com a produção de alimentos nem apresentariam outros impactos negativos[11].

 

               

No relatório da IATA de 2011, a respeito de biocombustíveis na aviação, refere-se textualmente:

Impressionante progresso tem sido feito, mas é crucial não recriar os erros do etanol e do biodiesel de primeira geração. Enquanto estes combustíveis têm certos méritos, e são frequentemente superiores ao petróleo nas emissões de carbono durante seu ciclo de vida, eles também competem com alimentos e outros produtos pela valiosa terra arável, possivelmente contribuindo direta ou indiretamente para o desmatamento e mudanças no uso da terra”. title style="color: blue; text-underline: single" href="#_ftn2">[12]

 

Esta posição da IATA pode ser creditada à sua escassa vivência no setor de biocombustíveis e à falta de conhecimento mais amplo da agropecuária mundial, particularmente da relação entre produção de alimentos e de outros produtos (fibras, biocombustíveis, produtos madeireiros, plantas ornamentais, etc.), assunto que foi profundamente analisado por Gazzoni (2008) title style="color: blue; text-decoration: underline; text-underline: single" href="#_ftn3">[3]. Por maior que seja o esforço de argumentação, é difícil aceitar que um plantio de pinhão manso (jatrofa) ou camelina (=sésamo) não competiria com a produção de alimentos.

 

Afinal, a área agrícola, os insumos, os agrotóxicos, o maquinário, a mão de obra, os veículos de transporte, etc. são fatores de produção usados por qualquer cultivo agrícola e sempre serão competitivos entre si. Além do que, impactos ambientais constituem um componente intrínseco da produção agrícola, seja ela de alimentos ou qualquer outro produto. A busca da sustentabilidade passa pela minimização destes impactos, na forma de tecnologias agrícolas e de gestão que persigam, permanentemente, o mínimo de impacto com o máximo de produção.

    

Desta forma, os impactos ambientais tendem a ser similares, independentemente do tipo de cultivo, seja no uso direto ou indireto de solo, pois são ônus da agricultura em geral – desde que a tecnologia utilizada seja adequada. O desafio é como minimizar a competição e o impacto ambiental maximizando a produtividade de forma sustentável e otimizando a densidade energética dos cultivos.

  Aprofundando a análise, tanto a camelina (Camelina sativa) quanto o pinhão manso (Jatropha curcas) não possuem sistemas de produção solidamente estabelecidos, há deficiência de informações básicas sobre nutrição, fitossanidade e manejo da cultura. De acordo com a FAO, a produtividade média mundial da camelina, em 2010, foi de 491 kg/ha. Com teor de óleo de 35%, importaria em 170 kg óleo/ha. Esta produtividade é inferior àquela obtida com mamona no Nordeste do Brasil, que foi um dos motivos do seu fracasso como matéria prima do programa brasileiro de biodiesel.

         

         

Ainda de acordo com a FAO, em um hectare onde a camelina produz 170kg de óleo, é possível obter 510 kg de óleo de soja; 528kg de óleo de girassol; ou 720kg de óleo de canola. Na mesma área, também, poderiam ser obtidos entre 3.000 e 7.200 kg de óleo de dendê – além da torta ou farelo produzidos por essas culturas. Em relação ao pinhão manso, não existem estatísticas confiáveis, pois a produção comercial é incipiente e não consta das principais bases de dados internacionais. Confrontando os números, é possível verificar que a decisão da IATA não foi calcada em evidências científicas, menos ainda em estatísticas confiáveis.   Desenvolver sistemas de produção sólidos e avançados, que confiram segurança aos investidores, pode requerer mais de uma década, o que é muito tempo para um problema que precisa ser enfrentado imediatamente. Como tal, usando a linguagem própria dos biocombustíveis, deve-se encarar a atual diretiva da IATA como “de primeira geração” e que, conforme o setor amadureça na decisão de uso de biocombustíveis, espera-se uma postura mais avançada, ampliando o leque de opções de matérias primas, o que conferirá uma real oportunidade de vencer os desafios. A manutenção desta postura por mais tempo, significará comprometer as metas por uma postura “romântica”, sem pragmatismo e descolada da realidade.

           

 

Rotas tecnológicas

         Existem três rotas principais de desenvolvimento de biocombustíveis, de maneira que estes possam atender às severas especificações requeridas:

 ü  Bio-SPK - o óleo vegetal é submetido a um craqueamento e hidroprocessamento auxiliado por catalisadores, sob condições de alta temperatura e pressão. Ao final são obtidos hidrocarbonetos leves, chamados SPK (sigla em inglês para querosene parafínica sintética), de cadeia curta e os contaminantes, como enxofre, nitrogênio ou metais pesados, são eliminados;

ü  FT-SPK – pirólise de biomassa sólida, para produzir óleo de pirólise ou gaseificação, para produzir syngas, do qual se obtém o biocombustível SPK por processo de Fischer-Tropsch;

ü  Alcohol-to-jet – trata-se de uma rota ainda embrionária, em que alcoóis (etanol ou butanol) obtidos de biomassa, são desoxigenados e processados para obter Jef Fuel;

ü  Biologia sintética – microrganismos estão sendo geneticamente modificados para obter, diretamente, bioquerosene a partir de biomassa. Trata-se da rota com perspectiva mais otimista, para atender as demandas de mercado, no médio e longo prazos.

 No Brasil, as pesquisas ainda se encontram em fase inicial. Porém, uma iniciativa da FAPESP, em conjunto com as fabricantes de aviões Embraer e Boeing, pretende conferir forte impulso à pesquisa na área, e envolve a realização de diversos workshops para definir uma agenda de pesquisa, e a futura construção de um centro de pesquisas voltado para o desenvolvimento de biocombustíveis específicos para a aviação comercial.

 

       

Outros desafios 

Além da questão tecnológica, será crucial vencer quatro outros desafios: escala, sustentabilidade, preços e logística. Para conferir uma ordem de magnitude, supondo-se a mistura média de 6% ao Jet Fuel, conforme propõe a IATA para 2020[16], seriam necessários cerca de 25 bilhões de litros de biocombustível, ou seja, a produção mundial de biodiesel estimada para 2012. Assim, a escala de produção terá que abarcar indústrias com capacidade de produção de milhões de litros, próximas às regiões produtoras de matéria prima.   Por oportuno, caso os 25 bilhões de litros fossem produzidos com camelina, mantida a produtividade obtida em 2010, seriam necessários 115 milhões de hectares (Mha) para o seu cultivo. Para efeito de comparação, essa área representa quase o dobro daquela ocupada por toda a agricultura brasileira (60 Mha em 2011); em escala global, o trigo ocupa 216 Mha; o milho 161 Mha; o arroz 153 Mha; e a soja 102 Mha. Logo, o cultivo de camelina ou similares, seria absolutamente insustentável, pelo conflito com a produção de alimentos, pela baixa densidade energética, pelo uso direto e indireto da terra e pela insustentabilidade ambiental pois, seguramente, toda essa área adicional implicaria em um enorme desmatamento.

        

         

A sustentabilidade de um biocombustível de aviação terá que ser comprovada por análises de ciclos de vida, demonstrando balanço de energia elevado; emissões de carbono muito menores que os paradigmas do Jet Fuel; compatibilidade com outros usos da terra; e inserção em um modelo de desenvolvimento equânime e equilibrado, com geração de renda equitativamente distribuída entre os atores da cadeia.   O preço do biocombustível sempre terá como referencial os Jet Fuel derivados de petróleo, apesar da busca de redução de emissões de GEE. Logo, a pressão setorial sobre os institutos de P&D e sobre a cadeia de biocombustíveis será muito forte, porque a indústria aeronáutica também estará pressionada por um sistema competitivo de compressão de custos. Finalmente, a logística para garantir as cadeias de estocagem e suprimento, 365 dias por ano, em todos os principais aeroportos do mundo, é tarefa hercúlea, para ser construída ao longo do tempo, embora aproveitando em grande parte a logística já existente para combustíveis fósseis.

 

Testes de biocombustíveis 

        Diversos voos de demonstração foram realizados a partir de 2008 (Tabela 2). Após a aprovação da norma ASTM para biocombustíveis de aviação[17], também foram realizados diversos voos comerciais (Tabela 3), ambos usando biocombustíveis. 

Tabela 2. Voos de demonstração usando biocombustíveis

Data

Empresa

Aeronave

Matéria prima

Comentário

Fev 2008

Virgin Atlantic

Boeing 747

Coco e Babaçu

Voo entre Londres e Amsterdam, usando mistura de 20% de biocombustível em um dos motores

Dez 2008

Air New Zealand

Boeing 747

Jatrofa

Voo de duas horas usando uma mistura 50-50 de biocombustível e querosene. Após o voo, a turbina foi removida e minuciosamente examinada, não havendo sido verificada qualquer alteração pelo uso do biocombustível. Os pilotos não notaram qualquer diferença no desempenho da aeronave.

Jan 2009

Continental Airlines

Boeing 737

Algas e Jatrofa

Voo partindo de Houston e sobrevoando o Golfo do México, usando uma mistura 50-50 de Jet A e biocombustível. Os pilotos executaram uma série de testes a 12.000m, incluindo o desligamento dos motores. A empresa refere a importância dos baixos valores para o ponto de fulgor e para o ponto de congelamento, demonstrados pelo biocombustível.

Jan 2009

Japan Airlines

Boeing 747

Camelina, Jatrofa e Algas

Voo de uma hora e meia usando uma mistura 50 - 50 de Jet-A e biocombustível.

Abr 2010

US Navy

F/A-18

Camelina

A Marinha americana reportou não ter havido problemas com o desempenho do jato de combate, que voou com uma mistura de 50% de querosene J 8 e um biocombustível desenvolvido pela própria Marinha, por um processo denominado Hydrotreated Renewable Jet.

Mar 2010

US Air Force

A-10

Óleo de fritura usado

A Força Aérea Americana testou a mistura de querosene JP 8 e óleo de camelina, na proporção 50-50, sem quaisquer problemas.

Jun 2010

Dutch Military

Helicóptero Apache Ah-64

Óleo de fritura usado

Voo realizado na Holanda, usando Green Jet Fuel produzido a partir de algas, óleo de cozinha usado e outros ingredientes, produzido pela Honeywell UOP.

Jun 2010

EADS

Diamond D42

Algas

Demonstração durante um show aéreo realizado em Berlim.

Nov 2010

US Navy

MH-60S Seahawk

Camelina

Voo realizado com uma mistura 50⁄50 de querosene e biocombustível, na base aérea Rio Patuxent em Maryland.

Nov 2010

TAM

Airbus 320

Jatrofa

Voo realizado no litoral do Rio de Janeiro, com uma mistura 50⁄50 de querosene e óleo de Jatrofa.

Jun 2011

Boeing

Boeing 747-8F

Camelina

Voo sob responsabilidade da fabricante Boeing durante o Paris Air Show com os quatro motores usando uma mistura de 15% de biocombustível e querosene

Ago 2011

US Navy

T-45

Camelina

Voo realizado na base do Rio Patuxent, Maryland, usando uma mistura de querosene JP-5 e biocombustível.

Set 2011

US Navy

AV-8B

Camelina

Voo com um AV-8B no Deserto de Mojave, completando todos os testes em uma hora, usando uma mistura 50-50 de biocombustível e querosene JP8

Out 2011

Air China

Boeing 747-400

Jatrofa

O vôo teve duração de duas horas, sobrevoando Beijing, usando 50% de biocombustível em um dos motores.

 

 

Tabela 3. Voos comerciais usando biocombustíveis

Data

Empresa

Aeronave

Matéria prima

Comentário

 

Jun 2011

KLM

Boeing 737-800

Óleo de fritura usado

KLM efetuou o primeiro voo comercial usando biocombustível, em um avião com 171 passageiros, entre Amsterdam e Paris

Jul 2011

Lufthansa

Airbus A321

Jatrofa, camelina e gordura animal

Este foi o primeiro voo de uma série com duração de 6 meses, na rota entre Hamburgo e Frankfurt, com um ou dois motores usando biocombustível. A série se encerrou em 12/jan/2012, com um voo entre Frankfurt e Washington

Jul 2011

Finnair

Airbus A319

Óleo de fritura usado

Voo de 1.500 km entre Amsterdam e Helsinki realizado com mistura de 50% de biocombustível. A Finnair realiza ao menos três voos semanais nesta rota, utilizando biocombustível.

Jul 2011

Interjet

Airbus A320

Jatrofa

Voo com a aeronave utilizando 27% de óleo de Jatrofa entre aCidade do Mexico e Tuxtla Gutierrez.

Ago 2011

Aeromexico

Boeing 777-200

Jatrofa

Aeromexico voou entre a Cidade do México e Madrid com os motores usando 30% de óleo de Jatrofa, transportando 250 passageiros.

Out 2011

Thomson Airways

Boeing 757-200

Óleo de fritura usado

Voo partindo do aeroporto de Birmingham para Lanzarote, com 232 passageiros e um motor da aeronave operando com biocombustível desenvolvido pela SkyNRG

Nov 2011

Continental Airlines

Boeing 737-800

Algas

United / Continental voou de Washington a Chicago com biocombustível de algas, fornecido pela Solazyme.

 

Conclusão 

Apesar dos portentosos desafios que se antepõem, não resta à aviação outro caminho, ao menos nas próximas quatro décadas, que não seja ampliar gradativamente o uso de biocombustíveis, para reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. Trata-se de uma oportunidade espetacular para a indústria de biocombustíveis, que pode ganhar escala, reduzindo custos e ampliando a oferta, ao capturar o fabuloso mercado de aviação.  

Para tanto será necessário investir fortemente em Pesquisa e Desenvolvimento ao longo da cadeia, em especial na produção sustentável de matérias primas de alta densidade energética e nas rotas de produção de biocombustíveis, para obter produtos que atendam as rigorosas especificações da indústria aeronáutica, produzidos em larga escala e a baixo custo.


[1]http://www.ipcc.ch/ipccreports/sres/aviation/126.htm

[2]http://www.ipcc.ch/ipccreports/sres/aviation/126.htm

[3]http://www.unwto.org/media/news/en/pdf/LowCarbonTravelTourism.pdf

[4]http://www.webcitation.org/5nCeyEYJ)

[5]http://www.iea.org/weo/2008.asp

[6]IPCC, 2007: Summary for Policymakers. In: Climate Change 2007: Mitigation. Contribution of Working Group III to the Fourth Assessment. Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [B. Metz, O.R. Davidson, P.R. Bosch, R. Dave, L.A. Meyer (eds)], Cambridge, University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA. (http://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar4/wg3/ar4-wg3-spm.pdf)

[7]J.E.Penner, D.H.Lister, D.J.Griggs, D.J.Dokken, M.McFarland (Eds.), Aviation and the Global Atmosphere - http://www.ipcc.ch/ipccreports/sres/aviation/index.php?idp=10

[8]O vapor d´água também é um dos fatores que agravam o efeito estufa, como os GEE.

[9]http://www.iata.org/pressroom/facts_figures/fact_sheets/Pages/alt-fuels.aspx

[10]http://www.eia.gov/dnav/pet/pet_cons_prim_dcu_nus_a.htm

[11]http://www.iata.org/pressroom/facts_figures/fact_sheets/Pages/alt-fuels.aspx

[12]http://www.iata.org/whatwedo/environment/Documents/IATA%202011%20Report%20on%20 Alternative%20Fuels.pdf

[13]http://www.biodieselbr.com/colunistas/gazzoni/alimento-biocombustiveis-analise-completa-28-04-08.htm

[14] www.faostat.org

[15]http://www.fapesp.br/6648; http://www.fapesp.br/6650

[16]http://www.iata.org/pressroom/facts_figures/fact_sheets/Pages/alt-fuels.aspx

[17]http://www.astmnewsroom.org/default.aspx?pageid=2524

 

Células de Combustível Microbianas

Décio Luiz Gazzoni 

Conforme aumenta a pressão global por sustentabilidade da matriz energética, novas fontes e processos de obtenção de energia renovável vem à tona continuamente. Os processos tradicionais, que envolvem o aproveitamento direto de ventos (energia eólica), aquecimento solar ou geração de eletricidade por placas fotovoltaicas, energia geotérmica ou aproveitamento de biomassa através de fermentação, combustão ou gaseificação aprimoram-se e ganham mais eficiência. Porém, face à amplitude da demanda, a pressão por formas inovadoras de obtenção de energia, especialmente a partir de substratos e matérias primas não convencionais, tem levado à pesquisa e ao desenvolvimento de novos processos, que poderão converter-se em novos empreendimentos comerciais, no médio prazo, aumentando o suprimento de energia renovável.  

Assim, as células de combustível, em que produtos orgânicos são usados para gerar energia em forma contínua, através de reações químicas, ganham espaço na agenda do desenvolvimento tecnológico dos países centrais. Uma derivada deste conceito, as células de combustível microbianas, começam a despertar atenção, pela potencialidade de utilizar bactérias para produção de energia elétrica, usando biomassa como substrato. O conceito se baseia no fenômeno de que todo o ser vivo produz energia elétrica. Por que, então, não utilizar esta propriedade para gerar energia elétrica de forma limpa? Utilizando biomassa produzida pela agricultura, resíduos agrícolas ou lixo orgânico? Ou, no nosso caso, por que não biodiesel como combustível das células?

 

           A célula

  Quando um organismo atua sobre um substrato (açúcar, por exemplo), na presença de oxigênio, ele decompõe a substância de forma seqüencial, até a formação de água e gás carbônico (os “tijolos” iniciais da fotossíntese). No entanto, quando o oxigênio não está presente, a reação é incompleta, com produção de gás carbônico, de prótons e de elétrons, conforme a reação a seguir:


C12H22O11 + 13H2O --> 12CO2 + 48H+ + 48e

 

  

As células de combustível microbianas, que se baseiam nesta lógica, compõem-se de duas câmaras, uma biológica e outra química. Na câmara biológica, existe um substrato (biomassa – que pode ser o biodiesel), uma cultura de um microrganismo apropriado e um mediador elétrico (por exemplo, azul de metileno). Neste compartimento há ausência total de oxigênio livre, o que força o microrganismo a usar a via respiratória anaeróbica, consumindo apenas parcialmente a energia da biomassa.   O mediador transporta os elétrons do interior do microrganismo até um eletrodo negativo (ânodo) mergulhado no meio de cultura. Após transferir o elétron ao ânodo, o mediador torna a ingressar na célula, buscando mais elétrons - um vai e vem que só acaba quando os microrganismos cessarem as reações químicas. Em teoria, numa célula de combustível, as reações nunca cessam, portanto este movimento é um moto contínuo, desde que as condições ambientais e de alimento sejam as ideais

 

A tecnologia

O processo em si é essencialmente biotecnológico. Os elementos fundamentais são a biomassa e uma cultura de um microrganismo para metabolizar a biomassa. O segredo é o ambiente anaeróbico que obriga a seqüência de reações químicas a acontecerem em câmaras separadas, permitindo o fluxo de prótons e elétrons, que gera a energia elétrica.   Esta não é uma tecnologia acabada, embora disponha um futuro muito promissor e compõe o conteúdo programático que propusemos para a futura Embrapa Agroenergia. O conceito é utilizar matéria orgänica para produzir energia e os empregos, a renda e o desenvolvimento decorrentes. Entretanto, não é qualquer microrganismo que pode ser utilizado em células microbianas. É necessário identificar quais características são desejáveis, em quais organismos elas se encontram, efetuando o mapeamento cromossômico e identificando os genes associados, para construir um microrganismo ideal para células de combustível, através da biologia molecular.   Parece ficção científica, mas é o futuro chegando às portas das nações que investirem em novos processos biotecnológicos para produção de energia, ajudando a resolver os problemas climáticos, sociais e energéticos. Ao menos para aquelas nações onde não prevalece o obscurantismo científico de bloquear toda a inovação baseada em métodos biotecnológicos.

 

    

Biomassa, catalisadores e biocombustíveis

Décio Luiz Gazzoni

 

Vivemos em uma sociedade baseada no petróleo. O petróleo que utilizamos é proveniente de biomassa que foi enterrada há milhares de anos e que, sob o efeito de alta pressão e temperatura gerou o líquido viscoso que responde por 33,6 % da energia do mundo (Figura 1).

Este valor varia entre o mímimo de 31% (Europa) a um máximo de 51,4% (Oriente Médio), conforme mostrado na Figura 2. Entre os países ricos da OCDE[1] o petróleo participa com 38% da matriz energética, sendo este valor de 30% para os países menos ricos do mundo.

 

Figura 1. Matriz energética mundial em 2010.

 

 

Figura 2. Matriz energética de regiões do mundo.[2]

 

Conforme fica mais clara a finitude do petróleo (Figura 3) e se tornam evidentes os impactos ambientais e as dificuldades de processamento do xisto betuminoso, o cidadão comum sempre pergunta: existe uma forma mais ecológica para prover energia para as futuras gerações?

 

 

Figura 3. . Número de anos para esgotamento das reservas provadas considerando o consumo em 2010, para as fontes fósseis de energia

   

A resposta sempre passa por energia renovável. Entretanto, para fazer frente ao quase monopólio das fontes fósseis, políticas públicas e inovações tecnológicas sempre são necessárias para alavancar o esforço de aumento da participação das energias renováveis na matriz energética, restrita a 1,3% no levantamento efetuado para o ano de 2010 (Figura 1). Esta participação das energias renováveis na matriz se deve, em grande parte, aos produtos da biomassa, como bioetanol, biodiesel e bioeletricidade.

 

  

Inovações nesta área são sempre bem vindas, em especial quando não há confronto com a atual infraestrutura de transporte, estocagem, distribuição e de postos de serviço dos combustíveis fósseis (gasolina e óleo diesel) e com os motores dos automóveis, ônibus, caminhões, navios, locomotivas, e das turbinas dos aviões.

  Por este motivo achei muito interessante algumas pesquisas nessa área, que estão sendo desenvolvidas no National Renewable Energy Laboratory (NREL), para o aproveitamento energético da biomassa. Uma das pesquisas, que interessa diretamente ao setor de biocombustíveis no Brasil, é o tratamento termoquimico da biomassa, com o objetivo de obter um produto final semelhante ao petróleo – algo como fazer em algumas horas o que a Natureza demorou 200 milhões de anos para fazê-lo.

 

Na gaseificação a biomassa é aquecida com vapor e ar para produzir gás de síntese, ou singas (syngas, em inglês). O singas é uma mistura de hidrogênio (H2) e monóxido de carbono (CO). Estas duas substâncias estão para os combustíveis como os tijolos e a argamassa estão para a construção civil pois, por meio através de arranjos moleculares, é possível obter qualquer combustível similar aos usados atualmente, uma vez que o Hidrogênio, o Carbono e o Oxigênio estão presentes em uma forma muito simples e facilmente reativa. Entretanto, para que isto seja possível, são necessários catalisadores, responsáveis por ordenar esses átomos em moléculas que podem ser usadas como combustível.  

Mas copiar a Natureza raramente é tarefa fácil. Durante o processo de obtenção do singas, alcatrão e outros compostos  indesejáveis , considerados contaminantes, também são produzidos . Estes contaminantes podem “sujar” tornando  o processo de refino mais longo e oneroso. Portanto, devem ser removidos do gás de síntese antes do início do  processo de síntese dos biocombustíveis. Recentemente, o NREL patenteou um catalisador fluidizável para atuar na modificação  do singas, que também degrada o alcatrão.

 

Conversando com a Dra. Kim Magrini (v. Figura 4), pesquisadora  do NREL que atua neste projeto, ela explicita o objetivo final, que é produzir sucedâneos de combustíveis fósseis, como gasolina e diesel, porém que sejam derivados de biomassa. O benefício ambiental é óbvio, pois as emissões de gás carbônico ao longo do ciclo de vida e, especialmente, aquelas resultantes da queima do biocombustível, são reabsorvidas no ciclo seguinte da biomassa, em mais de 90%, ao contrário do que ocorre com a queima da gasolina derivada de petróleo. Entretanto, o benefício “oculto” é a possibilidade de se utilizar  exatamente a mesma infraestrutura dos combustíveis fósseis, podendo o biocombustível ser utilizado  puro ou em mistura com o combustível fóssil. É o que os americanos chamam de “drop-in fuel”, conceito que já é utilizado com bioetanol e biodiesel.

 

                 

 

Figura 4. Pesquisadores Whitney Jablonski, Kim Magrini e Yves Parent na planta piloto, próximos aos barris contendo o catalisador desenvolvido no NREL (Foto D. Schroeder).

  Ainda assim, restam algumas questões a considerar, em especial a adequação dos processos industriais e a sua competitividade financeira com os combustíveis fósseis, que já estão estabelecidos no mercado há mais de um século. A aposta dos pesquisadores do NREL está na flexibilidade de processos termoquímicos, tais como a gaseificação e a pirólise, que podem oferecer opções rentáveis para a fabricação de etanol de celulose e biocombustíveis avançados, incluindo sucedâneos do diesel – espaço hoje ocupado pelo biodiesel.

                 

Hidrogênio e Pirólise
 

Os trabalhos sobre o catalisador fluidizável para modificação  do alcatrão começou no Programa de Hidrogênio, que também pertence ao NREL, onde os pesquisadores  desenvolveram tecnologias para produzir hidrogênio a partir das frações aquosas de hidrocarbonetos, obtidas a partir de óleo resultante da  pirólise, obtidos por processos termoquímicos a partir de biomassa. A pirólise é o processo de aquecimento da biomassa, na ausência de oxigênio, em temperaturas menores do que  aquelas utilizadas para gaseificação.   Com a decomposição da biomassa obtém-se um líquido denominado óleo de pirólise, o qual, por meio  de processos apropriados, pode ser refinado, produzindo biocombustíveis. No período 2006 a 2009 a Embrapa Soja estudou o processo de pirólise de óleos vegetais para obtenção de sucedâneos de combustíveis fósseis, concluindo pela necessidade de utilização de catalisadores específicos para viabilizar a produção comercial de biocombustíveis. Por meio da modificação da fase aquosa do óleo de pirólise, é possível obter hidrogênio. Neste caso, há necessidade de um catalisador específico, para decompor as moléculas orgânicas até formar os “tijolos” básicos, que são o hidrogênio e o monóxido de carbono.   O problema enfrentado pelos pesquisadores do NREL eram os catalisadores comerciais, que ficavam bloqueados no decorrer do processo, por haverem sido desenvolvidos para reatores que utilizavam leito fixo (ver box). Os pesquisadores investiram na busca de um catalisador para operar em um reator de leito fluidizado, que proporciona um contato maior  entre o líquido reacional e o catalisador.

 

 

A equipe do Programa de Hidrogênio do NREL foi bem-sucedida no desenvolvimento de um catalisador que operasse com alta eficiência em leito fluidizado, permitindo decompor a fase aquosa do óleo de pirólise até seus componentes básicos (hidrogênio e monóxido de carbono). O passo seguinte foi testar esse catalisador, projetado para obter o hidrogênio, para modificar  o alcatrão resultante da gaseificação da biomassa.   O teste foi bem sucedido quanto à decomposição do alcatrão em hidrogênio e monóxido de carbono. Entretanto, apenas um dos problemas de contaminantes, o do alcatrão, estava resolvido. Compostos de enxofre, que se formam a partir de proteínas, também são produzidos na gaseificação da biomassa. Estes compostos deterioram o catalisador, que é um composto de níquel e alumínio, e o níquel é altamente reativo com compostos de enxofre.   A fórmula encontrada pelos pesquisadores do NREL foi colocar o catalisador em um suporte mais apropriado. Os materiais disponíveis no mercado não atendiam as especificações desejadas e se desafaziam no leito do reator. Na busca de soluções, o NREL montou um projeto em parceria com a CoorsTek (http://www.coorstek.com/), uma empresa especializada em desenvolver soluções para problemas similares. O projeto objetivou desenvolver materiais com composição química e granulometria adequadas, que permitissem a máxima superfície de contato com o material reacional e que minimizasse o desagaste do leito.

  

Catalisador e suporte

O suporte de catalisador resultante do projeto é obtido com diferentes matérias-primas, as quais são trituradas em água, para formar uma solução com partículas de, aproximadamente, um micron de diâmetro. A solução é seca pelo sistema de spray drier, atomizando-se o líquido em contracorrente com ar muito quente, que seca as gotículas formando pequenos grânulos de cerâmica. Em seguida, o material é aquecido a altas temperaturas o que confere resistência ao suporte, porém a superfície porosa da cerâmica é preservada, de modo que o catalisador possa ser colocado no interior do suporte.

 

Uma vez projetada, identificada e construída a estrutura de suporte, o catalisador também foi aprimorado, e passou a constituir-se de uma mistura de sais de níquel e magnésio. A solução do catalisador é adicionada ao suporte e quando o conjunto é aquecido, ocorre uma reação química, fazendo com que os componentes do catalisador fiquem aderidos firmemente à superfície do suporte.

     

 

Figura 5. Catalisador sobre suporte para limpeza do singas. (Foto: D. Schroeder)

 

 

Desta forma, os pesquisadores do NREL viabilizaram tecnicamente o processo de limpeza do singas, o que permitiu prosseguir com o desenvolvimento do processo de produção de biocombustíveis. O conjunto foi objeto de uma patente, registrada nos EUA, que constituiu-se em uma inovação em âmbito mundial.   A patente foi licenciada para a empresa Rentech (http://www.rentechinc.com/ultraCleanFuels.php), que é especializada na produção de biocombustíveis, e que foi criada por pesquisadores egressos do próprio NREL. Um reator de leito fluidizado, específico para uso com o novo catalisador, já foi desenvolvido pelos engenheiros da Rentech. Entretanto, a cessão da patente não é exclusiva e está disponível para empresários brasileiros que venham a se interessar por este novo e promissor ramo de negócios em energia limpa.

 

[1] Países membros da OCDE: Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido, Austrália, Canadá, Chile, Israel, Japão, México, Nova Zelândia, Coréia do Sul e Estados Unidos da América.

[2] LAC = América Latina e Caribe

 

Biodiesel no Brasil: desafios das políticas públicas para a dinamização da produção

 Décio Luiz Gazzoni

 

O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) é uma fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, que tem como missão "Produzir, articular e disseminar conhecimento para aperfeiçoar as políticas públicas e contribuir para o planejamento do desenvolvimento brasileiro". Além de ser um organismo respeitado, reconhecido interna corporis no Governo e fora dele, é sempre importante lembrar que o IPEA historicamente está associado à formulação e análise de políticas públicas. Pela sua vinculação com a Presidência da República, seu poder de influência nas decisões governamentais é sempre relevante.   O IPEA alerta que seus Comunicados têm por objetivo antecipar estudos e pesquisas mais amplas, com uma comunicação sintética e objetiva e sem a pretensão de encerrar o debate sobre os temas que aborda, mas sim de motivá-lo. Em geral, os Comunicados são sucedidos por notas técnicas, textos para discussão, livros e demais publicações. Especificamente, o Comunicado em epígrafe objetiva contribuir para debater a produção e o uso de biodiesel no Brasil, destacando as etapas da produção e os fatores nos quais as mudanças no marco legal do setor de biodiesel podem alterar a estrutura produtiva, com vistas a torná-la mais dinâmica, no médio prazo. Os técnicos do IPEA envolvidos na elaboração deste comunicado foram Gesmar Rosa dos Santos, Murilo Pires, Luciana Acioly e André Calixtre.

 

 

Liminarmente, os autores salientam que os estímulos do Estado ao biodiesel são de grande importância, por três motivos centrais:

  • a.   O apoio que deve ser despendido a uma cadeia produtiva iniciante;

  • b.   A atenção para o equilíbrio da produção e da concorrência, com qualidade e regularidade; e

  • c.   O incentivo à criação de postos de trabalho na agricultura.

 

  

Também pontuam que as discussões acerca de mudanças do marco legal do biodiesel iniciaram-se em 2010, tendo ocorrido alterações importantes em 2011, devendo aprofundar-se em 2012, dado o número de demandas que chegam aos poderes Executivo e Legislativo. O aspecto central que pauta as discussões é a possível elevação dos atuais 5% para 7%, 10%, até 20% de adição do biodiesel ao diesel, de forma paulatina, ao longo dos próximos anos. A Conferência Biodiesel BR de 2011 foi palco de discussões sobre o tema e a deste ano seguramente se constituirá em uma caixa de ressonância ainda mais potente na repercussão destas discussões.   Com respeito às matérias primas usadas para a produção de biodiesel, é ressaltada a alta concentração no dueto óleo de soja e sebo bovino (com pequeno tempero de óleo de algodão!). Por outro lado, a viabilidade econômica da produção de biodiesel com mamona, pinhão manso, crambe, girassol, canola, dentre outras oleaginosas, depende essencialmente de pesquisas e avanços tecnológicos. O óleo de dendê tem sido a maior aposta, para o médio prazo, inclusive por ser intensivo em mão de obra; porém, levará ainda alguns anos para atingir larga escala. A produção a partir de algas, apesar de gerar grande expectativa, ainda tem alto custo e um longo caminho a percorrer.   Neste ponto gostaria de adendar os meus comentários. Embora concordando que a soja possui baixo teor de óleo (19%) e produz 570 kg/ha de óleo (3.000 kg/ha de grãos x 19%), ela apresenta características favoráveis que a alçaram à liderança na oferta de matéria prima, e de onde será difícil deslocá-la nos próximos anos, quais sejam:

       

 
  • a.   Sistema de produção altamente sofisticado e de ampla adoção, com incorporação constante de inovações;

  • b.   Produção estabelecida na maior parte do território nacional, inclusive próximo às regiões de maior consumo de biodiesel;

  • c.   Alta liquidez e rápido retorno: sempre existe comprador para o grão de soja ou seus derivados;

  • d.   Diversidade de países produtores e de mercados compradores;

  • e.   Cadeia altamente organizada, com grande capacidade de resposta à curto prazo às oportunidades de mercado;

  • f.    Produto agrícola mais comercializado no mundo, com absoluta transparência na formação de preços e previsibilidade de comportamento;

  • g.   Aproveitamento integral do grão, com múltiplas alternativas de agregação de valor;

  • h.   Como o driver de mercado da soja é o seu farelo, cria-se a oportunidade de ampliar o portfólio de mercado do óleo por meio de novos usos (como o uso energético).

 

       

 

Adicionalmente, é importante ter em mente dois aspectos:

  • a.    A “janela de oportunidade para biocombustíveis”, que se abriu na década passada e que deverá durar mais duas ou três décadas. Entende-se que a evolução nos transportes significará o uso cada vez mais intenso de eletricidade, exceção feita ao transporte aéreo;

  • b.   A evolução tecnológica, com o uso de microrganismos geneticamente modificados, gaseificação ou pirólise, que permitirá obter biocombustíveis avançados a partir de biomassa lignocelulósica, restringindo o uso de oleaginosas.

         Portanto, será necessário circunscrever a discussão sobre as matérias primas produtoras de óleo àquelas que realmente possam efetuar a transição (exemplo, dendê) ou que rompam paradigmas de volume de produção (exemplo, algas), com reais possibilidades de serem efetivamente incorporadas ao circuito comercial, em tempo hábil para aproveitar a janela de oportunidades e o estado da arte tecnológica, também permitindo o pay back dos investimentos industriais.

 

 

O papel das políticas públicas. 

Como é de amplo conhecimento, para viabilizar a produção do biodiesel, o governo reduziu as alíquotas de tributos (Cide, IPI, Pis/Pasep, Cofins) e ofertou crédito com menor custo financeiro aos produtores, além de subsídios que cobrem o custo mais alto do biocombustível em relação ao diesel. Os autores do Comunicado salientam os três aspectos que justificam tais incentivos, de acordo com o Plano Nacional de Agroenergia (PNA), documento que orienta as ações do governo nesta área:  
  • a.   Energia renovável como alternativa ao petróleo;

  • b.   Contribuição à redução da emissão de gases de efeito estufa e de poluentes atmosféricos nas cidades;

  • c.   Perspectiva de geração de emprego, renda e inserção produtiva no campo.

       

 

 

        Em sua análise, os autores destacam que algumas características do biodiesel no Brasil dependem, naturalmente, da ação estatal e devem ser destacadas, tais como:

  • a.   O crescimento do mercado ocorre somente como resultado de atos discricionários do governo federal, pois o biodiesel ainda não é competitivo em custos com o óleo diesel;

  • b.   Há uma defasagem entre as diretrizes do biodiesel (PNA e PNPB) e os resultados alcançados (baixa inserção social, fracasso dos objetivos e metas para o Norte e Nordeste, falta de alternativa à soja, baixo impacto no desenvolvimento regional);

  • c.   Há uma inversão parcial do papel do Selo Combustível Social, pois seus benefícios servem mais às indústrias do que aos agricultores familiares;

  • d.   As regras de atribuição de cotas de produção por porte e por região, via leilões da ANP, têm possibilitado que empresas pequenas e médias sobrevivam no mercado;

  • e.   Consolidou-se a dinâmica da larga escala de produção, com aumento do capital estrangeiro, do porte das indústrias do biodiesel e da capacidade excedente de produção;

  • f.    A regulação (Executivo, Conselho Interministerial e ANP), juntamente com a redução/isenção de tributos, taxas de financiamento reduzidas e subsídios são os suportes da cadeia produtiva.

 

Em sua conclusão, os autores apontam que, a opção de autonomia do mercado, na fase inicial, não foi cogitada no modelo brasileiro, o que não diferencia o país do padrão internacional. Porém, para o futuro, há de se prever um horizonte em que o setor tenha maior grau de autonomia e os ganhos econômicos ocorram sem necessidade de interferências do Estado. Esta assertiva é assaz importante, e deve ser levada em consideração nas discussões sobre o avanço do marco regulatório, vez que significaria forte mudança nos rumos do programa.

 

 

Regionalização do programa 

Os estímulos do mercado (interação entre regiões de maior produção de matéria prima e de maior consumo de biodiesel) consolidam a produção das matérias-primas em regiões que apresentam vantagens locacionais com a soja, isto é, no Centro-Oeste e no Sul. De acordo com a Produção Agrícola Municipal do IBGE, os estados do Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso concentram mais de 80% da produção da oleaginosa. Em consequência, e devido também à concentração do mercado consumidor, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e São Paulo respondem por 82,5% do volume acumulado de biodiesel produzido entre 2008 e 2011.   Assim, os autores vislumbram a necessidade de intervenção governamental para reduzir os desequilíbrios regionais, pontuando que as regiões Nordeste e Norte, que apresentam dinâmica econômica diferenciada vis-à-vis as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul necessitam de atenção dos formuladores do programa do biodiesel para combater suas carências econômicas e sociais que estão secularmente enraizadas em suas zonas rurais.

               

Aspectos industriais 

Segundo o MME, no Brasil existem 46 empresas produtoras de biodiesel ativas no segmento de comercialização, embora 58 estejam autorizadas a comercializar biodiesel. Atividades econômicas deste gênero exigem alta regularidade de produção (demanda constante e previsível), escala de produção, recursos volumosos e competência técnica. Portanto, há uma tendência natural à concentração produtiva, apesar de ser desejável um ambiente concorrencial, em que novas empresas ingressem e se mantenham em atividade, como salientam os autores.

  Nesse particular, observa-se uma desconcentração entre os anos de 2008 e 2011, pois as cinco maiores empresas, que representavam 61% da produção em 2008, em 2011 representaram 47%. Entre as 20 maiores, a concentração diminuiu de 99,8% para 95%. No grupo intermediário, entre as dez maiores empresas, que respondiam por 89% da produção em 2008, reduziram sua participação para 74% em 2011.   Como parte das políticas públicas setoriais, o financiamento estatal tem sido um forte instrumento de crescimento do setor. Entre 2005 e 2009, a combinação do crédito de baixo custo disponibilizado pelo BNDES, somado aos recursos excedentes de grupos privados, foram fatores que induziram ao aumento da capacidade de produção das indústrias, mesmo sem demanda correspondente, observaram os autores do Comunicado. Para os anos de 2010 e 2011 a expectativa do BNDES foi de permanência do volume de desembolso e, consequentemente, aumentaram os custos fixos com essa ociosidade, que oscilou entre 50% e 75%.

 

 

Os autores apontam a consolidação entre empresas do setor. O principal movimento ocorreu com as grandes esmagadoras de soja (Cargil, ADM, Bunge, Louis Dreyfus), além da intensificação de aquisições, fusões e incorporações de pequenas indústrias que ainda não se consolidaram na área de biodiesel ou que preveem fortes barreiras de entrada e ou permanência no mercado.  

Já os casos de insucessos entre as indústrias de biodiesel ocorrem entre aquelas empresas que não esmagam grãos, ou seja, que têm de comprar óleo vegetal para produzir o biocombustível, pois essas empresas não alcançam o mesmo nível de sinergia que aquelas cujo processo ocorre em etapa integrada. Apesar disso não ser alarmante, nem mesmo pelo fato de serem as mesmas as empresas que compõem o grupo das 10 com maior produção, desde o início do Programa Nacional de Produção e uso do Biodiesel (PNPB), os indicadores sugerem que há definição de players antes mesmo da dinamização do setor, sugerem os autores. De acordo com a ANP, a taxa de sucesso foi de 79% entre 2008 e 2011, tendo duplicado o número de empresas no mesmo período.

  A conclusão dos autores é que a regulação estatal é altamente relevante para equilibrar a produção que viabilize pequenas e médias empresas, sem o que elas não teriam condições de sobrevivência frente às grandes empresas, principalmente aquelas de maior verticalização da produção. Para o consumidor, os resultados da concentração são, neste momento, neutros e, no futuro, incertos. Para os agricultores é sempre desejável que haja um número elevado de compradores, pois são maiores as possibilidades de transação.

 

Selo Combustível Social 

Ao se adotar com referencial o PNA, nota-se que os ganhos diretos são reconhecidamente frágeis para a agricultura familiar, considerando-se a expectativa inicial de 245 mil famílias, com destaque para o Nordeste vis a vis a inserção de 109 mil famílias no Programa Biodiesel pela produção de soja, essencialmente no Centro-Sul.   Assim, a análise dos autores é terminativa, ao afirmar que o principal efeito tem sido permitir às indústrias de biodiesel a isenção de tributos e menores taxas de juros na concessão de créditos para financiamento. O Selo aumentou em R$ 0,30 a margem operacional das indústrias. Com isso, na intenção de aquisição da soja da agricultura familiar, há uma “disputa”, inclusive, de agricultores de estados diferentes daquele onde se encontra a planta industrial. Isto faz com que o Selo incentive ainda mais o cultivo da oleaginosa em pequenas propriedades, vez que a produção coberta pelo Selo atinge entre 75 e 85% do total comercializado.

 

 

Apesar do exposto, os autores salientam que, para os agricultores familiares que fornecem matéria-prima para o processamento do biodiesel, há um aumento do poder de organização, de acesso a mercados, de adesão a uma cadeia produtiva sólida (soja) com maturidade e capacidade de indução tecnológica. A integração e o ganho de conhecimento técnico, nos casos em que os agricultores estavam mais fragilizados, é também um fator positivo. Observe-se, porém, que parte deles eram produtores, inclusive de soja, independentemente do PNPB.  

Igualmente, em função da política do Selo, ocorreu um aumento no número de cooperativas integradas (de 13 para 42, entre 2007 e 2009); maior volume de matéria prima entregue via cooperativas, principalmente na Região Sul (57% do total de produtores, 76% das cooperativas); ganhos para os agricultores (receita estimada de R$ 1,2 bilhão proveniente da aquisição de matéria-prima, em 2010, segundo o MDA).

 

Um ganho indireto para os produtores é a aproximação indústria-agricultor, principalmente em se tratando de cooperativas e indústrias de pequeno e médio porte, interessadas em manter parcerias sólidas, com desenvolvimento técnico, e viabilização de melhores preços aos agricultores.

       

Aspectos institucionais 

Os autores efetuam um balanço das políticas de apoio, nos diferentes níveis de governo, ao desenvolvimento da cadeia do biodiesel, concluindo pela importância maior das políticas emanadas do governo federal, se comparadas às ações de estados e municípios. Estes apenas competem pela localização das indústrias, oferecendo incentivos fiscais, tributários e de outras ordens, porém não contribuem para os demais aspectos do programa.   Salientam que a dificuldade central das ações de planejamento e de regulação tem sido a de posicionar-se de modo a que haja um equilíbrio entre os fornecedores, garantido a qualidade e a regularidade nas entregas do biodiesel. O estabelecimento de cotas de vendas (cada empresa pode vender apenas um percentual da sua capacidade total), os leilões de aquisição da ANP e os releilões para a distribuição, da Petrobras, bem como a introdução do Fator de Ajuste Logístico (FAL), pelo MME/ANP, são exemplos de medidas de regulação nesse sentido.   Neste particular, salientam que o FAL tem seus méritos e, no primeiro momento, não se torna um fator inibidor da dinâmica produtiva do setor sojicultor ou das indústrias já instaladas longe de centros de consumo, conforme reclamaram alguns produtores. Entrementes, observam que a continuidade do FAL deve considerar como natural o deslocamento das empresas esmagadoras de soja para o Centro-Oeste, dado o maior desenvolvimento regional e das cadeias produtivas que possibilitam, inclusive, maior potencial de geração de renda e empregos industriais. O biodiesel seguirá essa rota e, nesse aspecto, mesmo com a soja, pode representar ganho para os estados exportadores de grãos, por agregar valor à cadeia produtiva da soja e por dinamizar serviços e indústrias paralelas.

     

Distribuição 

A distribuição do biodiesel, quando comparada com as etapas de cultivo e produção, é aquela que apresenta menor grau de complexidade e maior concentração em volume movimentado. Existe um razoável quantitativo de agentes econômicos, que somam 124 distribuidores, a maioria operando com parcela diminuta do mercado. O grau de concentração é visível quando se contrasta a participação das duas maiores distribuidoras (Petrobras e Ipiranga), que detém 70% do mercado, as três maiores que respondem por 77%, ou as seis maiores que abarcam 85% do mercado, com as 118 pequenas distribuidoras, responsáveis por menos de 15% do mercado. A margem operacional da distribuição oscila entre R$ 0,18 e R$ 0,28 por litro, conforme o MME, em seu Boletim Mensal dos Combustíveis Renováveis.   Após analisar este segmento, os autores propõem a necessidade de mecanismos para reduzir a margem operacional nesse mercado oligopolístico, com vistas à autonomia econômica do setor como um todo, sem que signifique forçar uma distribuição desse mercado, gerando ineficiência e aumento de preços. Sua proposta é de um novo desenho que reduza deslocamentos, desvincule parte da cadeia do biodiesel à dos derivados do petróleo e oportunize escolhas diferentes para estados e municípios.

 

O aumento da mistura 

O Comunicado sugere um novo modelo de marco legal, em que uma opção consciente para o aumento da mistura de biodiesel ao diesel é continuar com uma parte autorizativa (em que os produtores ofertam por conta própria, sem ajuda do governo) e outra obrigatória (o governo continua com isenção tributária e demais ações de incentivo). Os estímulos do poder público à cadeia de produção tem como pressuposto que a parte autorizativa ocorra à custa da dinâmica produtiva e da competição, podendo ser até facilitada pelos mesmos mecanismos atuais, com menor isenção e menores subsídios. Já o aumento da parte obrigatória (B7, B10, B15 ou B20) deve observar a evolução das práticas atuais, com o mecanismo Selo Combustível Social remodelado, PD&I direcionados por metas e, financiamento facilitado, entre outros, tendo em vista os aspectos social e ambiental de toda a cadeia produtiva.   Os autores alertam para a necessidade de um novo marco regulatório levar em consideração a análise do ciclo de vida e os ganhos ambientais e sociais ao longo da cadeia. Também é importante considerar a necessidade de o país dominar o ciclo tecnológico completo do biodiesel. Nesse caminho é correto o apoio maior a PD&I, incluindo a dinamização e o fortalecimento de redes de pesquisas, como a Rede Brasileira de Pesquisa de Biodiesel, além da grande contribuição que tem sido dada pela Embrapa, por institutos de pesquisa públicos e privados e pelas próprias empresas produtoras. O passo seguinte é promover a inovação a partir da base implantada e do conhecimento acumulado nessas e em outras redes de pesquisa.

     

Agricultura + 20

Decio Luiz Gazzoni

 

A ECO-92 ambicionou um porvir vinculando o desenvolvimento econômico à proteção do ambiente. Nesses 20 anos, pouca coisa vi mudar nas cidades. Elas poluem mais que antes, se a régua for a emissão de gases de efeito estufa. Já na agricultura brasileira, em 1992, tínhamos 1,3 milhões de hectares com plantio direto (4% da área de grãos). Em 2012, passamos de 32 milhões de hectares (75% da área). Um crescimento tão expressivo, que o Globo Rural escolheu a tecnologia como ícone da modernização da agricultura. Nelson Araújo, o repórter do GR, destacou o enorme crescimento da produtividade. Aos números: do fim da ECO-92 até hoje aumentamos a produtividade em 44% para o arroz, 72% para o milho, 48% para soja e 64% em trigo. Mais alimentos na mesma área, bilhões de árvores não derrubadas.   Aumentamos o plantio direto e reduzimos em 66% o gasto de diesel. Em 2011, a área de plantio direto economizou 1,34 bilhões de litros de diesel, deixando de emitir 3,59 bilhões de kg de CO2. Um ganho quase igual ao programa de biodiesel, outra contribuição da agricultura pós ECO-92. Falando em energia, ao tempo da ECO-92, 1 litro de diesel produzia 25 kg de grãos. Hoje, o mesmo litro produz 105 - 175 kg de grãos. Tomemos a soja como exemplo: eram 70 litros para produzir uma tonelada. E hoje: meros 9 litros!

 

Do diesel para a água. O consumo de água para produção de 1 kg de arroz irrigado caiu de 4.000 para 1.300 litros em 20 anos. Estamos perto do limite teórico, pois 1 kg de grãos necessita 1.000 litros de água de chuva ou de irrigação. Já temos até usinas de cana em que a água circula em circuito fechado – consumo zero!   Até a ECO-92, 20 toneladas de terra fértil eram lavadas de cada hectare com plantio convencional, a cada ano. Na RIO+20, o plantio direto reduziu em 96% a perda. Santa Eficiência!  

Ou seja, o agricultor teve um currículo de bom comportamento para mostrar na RIO+20. Pode-se dizer o mesmo de quem vive na urbe? Das fábricas? Do transporte? Isto que no Brasil usamos muito etanol e biodiesel, que dizer de quem vive de petróleo e carvão. Lembre-se disso quando vier à tona mais uma discussão sobre quem prejudica e quem preserva o ambiente no Brasil.

 

O futuro da soja e do programa de biodiesel

Decio Luiz Gazzoni

 

 

Em junho de 2012 foi realizado, em Cuiabá, o VIII Congresso Brasileiro de Soja, congregando mais de 2.000 participantes. Durante os três dias do evento, foram discutidos temas agronômicos, nutricionais, ambientais, sociais, empresariais e econômicos. A temática técnica seguramente será amplamente discutida por outros colegas, portanto vou ater-me às questões estratégicas. Este foi um dos pontos altos do Congresso, ou seja, vislumbrar as possíveis rotas que a soja deve trilhar nos próximos 40 anos.

 

 

 Tese central

  Durante uma apresentação que fizemos no Fórum de Máxima Produtividade da Soja, um evento do Congresso, chamamos a atenção para um aspecto que nos parece crucial quando perscrutamos o futuro. Trata-se dos fatores que modulam a demanda de produtos agrícolas, em particular da soja. Consideramos que os principais fatores são os demográficos (população, expectativa de vida e estrutura etária), os econômicos (crescimento do PIB, da renda per capita e inflação), os sociais (inclusão social e mudança de hábitos) e os tecnológicos (inovações de produtos concorrentes ou que viabilizam novos usos da soja, produtividade, redução de custos de produção). Em nossa tese, esse conjunto de fatores tem importância capital até a década de 2050, e alguns deles até decrescem de importância a partir daquela data.  

 

        Fundamentamos a afirmativa nos seguintes aspectos:

 

a.   De acordo com os principais institutos que se dedicam a prospectar o comportamento da curva populacional do planeta (Banco Mundial, FMI, ONU, FAO, US Bureau of Census), até 2050 ainda teremos crescimento positivo da população, embora com incrementos decrescentes a cada ano. Na década de 2050 a população tende a estabilizar-se, para diminuir progressivamente rumo ao fim do século. Paradoxalmente, nas próximas gerações o controle da natalidade será substituído pelo incentivo à natalidade, dada a dimensão dos problemas que serão criados com o crescimento populacional negativo;  

b.   b. A expectativa para os próximos anos é a sequência de ciclos típicos do capitalismo, com períodos longos de crescimento econômico sustentável, com expansão do PIB global a altas taxas, entremeados por interstícios de baixo crescimento. Crises profundas, como a que vivenciamos no momento, são eventos raros, que não devem tornar a ocorrer antes de 2050;

 

 

   
c.   A legião de pessoas com insegurança alimentar é estimada pela FAO em um bilhão de pessoas, na atualidade. A expectativa de redução do crescimento populacional, com os ganhos de produtividade agrícola e o incremento da renda per capita, permite estabelecer uma premissa de que, em 2050, o contingente de famélicos será meramente friccional e conjuntural, deixando de ter a importância estrutural que possui hoje;  

d.  d. Após 2050 a economia da maioria dos países estará amadurecida, com pouco espaço para crescimento adicional de consumo de produtos agrícolas, relacionadas ao aumento da renda per capita.

 

  Aceitas as premissas, a tese que queremos demonstrar é que atingiremos o pico da demanda agregada de produtos agrícolas na década de 2050. Portanto, o farol da inteligência estratégica precisa iluminar o caminho até aquela década pois, a partir dela, muda a importância relativa entre os fatores de competitividade, afetando a relação de equilíbrio entre os players do mercado.  

 Corolário

  Os países que estabelecerem uma agropecuária sólida, sustentável, bem fundamentada, e que se tornarem atores chaves no comércio internacional de produtos agrícolas até 2050, estarão em melhores condições de competir a partir daquela data por um mercado que se estreitará em quantidade, mas que se tornará cada vez mais exigente em qualidade. A disputa do mercado internacional de produtos agrícolas, pós 2050, se dará exclusivamente entre os países que liderarem o mercado até aquela década, os demais dificilmente ingressarão em um mercado que se contrairá de forma inexorável.  

Entretanto, cabem três considerações importantes sobre o exposto acima:

 

a. Cada país, individualmente, buscará capturar a maior parcela possível do mercado interno para sua própria produção. Em parte por razões econômicas, e em parte por razões sociais, mas principalmente por questões ligadas à soberania e segurança alimentar, mesmo que não disponham de competitividade para tanto;

  b.   Na condição exposta anteriormente, quando o esforço para a África tornar-se um grande continente produtor agrícola estiver amadurecendo – o que demandará, no mínimo, 30 anos – a produção agrícola mundial tenderá a estabilizar-se, fechando o espaço para novos atores de grande escala. Nesta condição, a produção agrícola da África estará mais voltada para seu mercado doméstico que para atender as demandas globais, e competir no mercado internacional;   c.   Nunca devemos menosprezar os break-throughs tecnológicos. A Ciência tem sido pródiga em derrubar paradigmas produtivos, revolucionando o mercado com novas tecnologias, o que realinha, de uma forma não imaginada até então, a paridade competitiva entre os produtores.

 

 

Consequências

 

O item (c) acima é o mais polêmico e o que merece maior atenção. Para ilustrá-lo, vamos utilizar exemplos de outras áreas que não o agronegócio, mas que são muito atuais. Comecemos com a indústria relojoeira: alguém imaginaria, há meros 50 anos, que os relógios suíços seriam destronados pelos japoneses? Que tal a referencia à Kodak, uma das maiores empresas globais, que viu seu império quase monopolístico de filmes fotográficos esvair-se na esteira das câmeras digitais, em menos de uma década? Ou, que tal a telefonia? Em meia década saltamos dos telefones à corda para os automáticos, da ligação por telefonista para o DDI, dos fixos para os celulares e, a partir de agora, dos celulares para as grandes redes de Wi-Fi e os sistemas de comunicação como Skype ou similares. Cada onda de inovação enterra o paradigma anterior. Ou, como colocamos durante o Congresso de Soja “Quando muda o paradigma tecnológico não interessa quão competitivo alguém era no paradigma anterior, pois tudo volta à estaca zero e o jogo recomeça”.

 

       

 

O que isto tem a ver com agricultura? Especulemos com dois temas. O primeiro trata do adensamento produtivo e energético, do qual o cultivo de microalgas é o melhor exemplo. Resolvidos os problemas de sistemas de produção (que podem demorar 10-15 anos), as algas poderiam, paulatinamente, deslocar a produção de amidos, óleos e proteínas, com enormes vantagens, pois um hectare de algas, ao longo de um ano, pode substituir até uma centena de hectares de cultivos agrícolas tradicionais. Essa modificação traria enorme impacto na competitividade relativa entre os países produtores de commodities.   O segundo tema sobre o qual especulamos no Congresso é a fotossíntese artificial. Cientistas são insaciáveis por natureza, sempre buscam romper a fronteira do conhecimento. Um dos temas muito investigados hoje em dia é a substituição das plantas (a fotossíntese) por engenhocas químicas, que permitiriam aproveitar a radiação solar como fonte de energia para sintetizar inúmeros produtos. Pense apenas nos países que hoje possuem uma janela curta, de 4 ou 5 meses de cultivo, e que poderiam estendê-la para 12 meses, com luz artificial ou natural, uma vez que aquelas engenhocas químicas são quase insensíveis às baixas temperaturas e a fotoperíodo.

                Portanto, vale uma vez mais o alerta sempre presente: a competitividade futura de um país está na razão direta do investimento em Pesquisa de Desenvolvimento da atualidade.

 

O impacto sobre a demanda de grãos

 

Observe-se na Figura 1 o comportamento mais aceito pelos estudiosos do tema, em relação à forma da curva populacional até o final do século XXI. Ela mostra claramente a estabilização da população em 2050, e o decréscimo populacional após esta data. Para explicar o que ocorre, a Figura 2 mostra o acréscimo populacional líquido (nascimentos menos óbitos) por década.

Figura 1. Curva de crescimento populacional entre 1950 e 2050.

Figura 2. Acréscimo populacional líquido, por década.

       

Desde 1970 o acréscimo por década se mantém fixo (cerca de 0,8 bilhão de pessoas), porém o seu percentual é menor a cada década. A partir da presente década (2010), mesmo os incrementos líquidos passam a ser cada vez menores, e a tendência é invertida em 2050, quando os óbitos passam a ser maiores que os nascimentos.   No período anterior a 2050, o menor incremento populacional será compensado pela inclusão social e pelo aumento da renda per capita disponível para consumo das famílias, o que torna o consumo mais exigente e sofisticado, especialmente no que tange a proteínas vegetais. Como tal, a produção global de grãos permanece ascendente até a metade deste século, pois, para cada quilograma de carne produzido, são necessários até sete quilos de grãos, no caso de bovinos. A Figura 3 apresenta uma estimativa aproximada da evolução da produção de grãos no mundo.

 

Figura 3. Produção mundial de grãos de 1960 a 2011 e estimativa de demanda de 2012 a 2050

 

Nos 50 anos decorridos entre 1960 e 2010, a produção mundial de grãos cresceu à taxa geométrica anual de 2,67%. Daqui até 2050, a estimativa é de um crescimento anual de, aproximadamente, 1,33%, totalizando um crescimento esperado de 80% entre 2010 e 2050. Entretanto, este valor agregado precisa ser esmiuçado para cada um dos grãos que o compõe, pois alguns crescerão menos (arroz, centeio, feijão) e outros crescerão mais, como o caso da soja. Os exercícios que efetuamos com esta cultura, considerando os mercados de óleos vegetais, proteína para arraçoamento, biocombustíveis e química fina, indicam que a soja ainda manterá leve incremento de demanda, mesmo após a década de 2050 – embora não por muito tempo.

       

A Figura 4 expõe um comparativo entre a demanda provável para a soja e para os demais grãos. Enquanto a soja deve estabilizar-se na década de 2060, o conjunto de grãos já atingiu seu ápice na década de 2050.  

Figura 4. Demanda estimada para o conjunto de grãos e para a soja, entre 2010 e 2060.

   A soja

    

Assim, a soja se destacaria entre os grãos sendo, provavelmente, aquele de maior demanda até meados do século. Neste caso, cabe analisar alguns aspectos interessantes, sendo o principal deles quem suprirá esta demanda.

 

 

A primeira conclusão que ressalta na análise é que, enquanto quase todos os países do mundo produzem alguma quantidade dos cereais que consomem (arroz, trigo, milho, etc.), poucos países produzem soja, sendo raros os autossuficientes. Este é um dos principais motivos pelos quais a soja, desde 2003, é o grão mais comercializado no mundo.

 

Entre os países grandes produtores de soja, os EUA, atual primeiro produtor, não possui área de expansão, devendo limitar o crescimento da produção à sua capacidade de aumento da produtividade que, dificilmente, será superior a 1,5% ao ano. A Argentina deve atingir nesta década o limite da Pampa Úmida, que lhe confere enorme competitividade (terra fértil e com boa logística). Paraguai e Uruguai possuem pouca área para expansão, o mesmo ocorrendo com a Bolívia. Pouco ou nada se pode esperar do restante da América Latina, assim como não haverá produção de soja na Europa. A Ásia não aumenta sua produção há muitos anos, e pouco contribuirá nos anos vindouros. E a África é uma excelente promessa... após 2040.

      

O Brasil fecha a conta

Outra tese que defendemos é que o Brasil será o país responsável por “fechar a conta” para permitir o casamento da oferta e da demanda de soja nos próximos anos. Obviamente que a demanda não será exatamente como aquela exposta na Figura 4, sofrendo pressões conjunturais, especialmente de eventos macroeconômicos, tornando a curva serrilhada. Portanto, alguma oscilação de preços será sentida, mas, quando analisado na forma de médias quinquenais, o Brasil deverá apresentar o maior incremento em volume físico de produção e, na maioria dos períodos, o maior incremento percentual. Diversos cenários são possíveis de serem traçados, e um deles, que consideramos factível, é apresentado na Figura 5.

 

Figura 5. Produção de soja nos principais países produtores do mundo, entre 2010 e 2060.

           A Figura é congruente com suas premissas, quais sejam:

 

a.   Os EUA estão perdendo o dinamismo na produção de soja, e crescerão marginalmente, praticamente estabilizando sua produção a partir da década de 2040;   b.   A Argentina perde market share a partir de meados da década de 2030, apesar de superar os EUA por conta de ainda dispor de alguma área para expansão da cultura;  

c.   Os demais produtores, especialmente na África, mantém um dinamismo semelhante ao do Brasil, que “fechará a conta”, em virtude de sua capacidade competitiva atual frente aos países que ingressam no cenário da produção a partir desta década. Nesta condição, o Brasil adquire o status de maior produtor de soja a partir do final desta década, ou início da próxima.

 

  Consequentemente, cresce em muito a responsabilidade do Brasil, que pode expandir sua área, ocupando terras degradadas, ou investindo em sistemas de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, otimizando a ocupação territorial. Porém, o grande diferencial competitivo do Brasil deverá situar-se no crescimento sustentável da produtividade. Esta deve ser a meta principal a ser perseguida, o que é perfeitamente factível.  

  

 Investindo em aumento da produtividade sustentável

        Para tanto, basta analisar com atenção os números apresentados pelos participantes do Desafio de Máxima Produtividade de Soja, conduzidos desde o final da década passada pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB). O quadro a seguir mostra a evolução a partir da linha base (safra 2008/09), e considerando os três últimos desafios.

 

Tabela 1. Produtividade (em sacos de soja por hectare) dos vencedores do Desafio de Máxima Produtividade do CESB, comparados à produtividade média brasileira.

 

 

 

Ano Médio

Ano Bom

Ano Ruim

Colocação

2008/09

2009/10

2010/11

2011/12

1

82,8

108,4

100,6

108,7

2

81,6

92,1

100,5

103,1

3

81,3

88,5

99,6

102,6

4

80,8

87,3

99,0

98,8

5

80,6

85,9

98,7

92,7

6

76,5

84,7

95,2

90,6

7

75,6

83,8

93,3

90,0

8

74,5

83,4

90,9

90,0

9

72,9

83,3

89,0

89,3

10

71,0

83,2

87,5

88,9

Média (Cesb)

77,8

88,1

95,4

95,5

Média (Brasil)

43,8

48,8

51,9

44,1

% CESB/Brasil

78

80

84

117

Participantes

140

800

1.185

1.314

 

Observa-se que a média de produtividade dos 10 produtores mais bem colocados no Desafio cresceu 23% entre 2008 e 2012, o que indica um rápido aprendizado na utilização de sistemas de produção de alto rendimento. Entre 2009 e 2012, o recorde de produtividade saltou de 82,8 para 108,7 sacos /ha. Este recorde é 146% superior à média brasileira do mesmo ano (2012).

  Dois fatos importantes se sobressaem na análise dos resultados do Desafio. O primeiro é que nos anos de clima adverso, como ocorreu em 2011/12, a média dos 10 produtores mais bem colocados se mantém alta, sendo praticamente igual àquela obtida em um ano ótimo (safra 2010/11). Já a média brasileira caiu 15% na última safra, por conta do clima ruim da safra 2011/12. Desta forma, enquanto em um ano ótimo os dez melhores produtores obtiveram um acréscimo de 84% sobre a média brasileira, em um ano ruim este incremento foi de 117%.

         

       

 

    O segundo fato é que, em todas as regiões brasileiras abrangidas pelo Desafio, os primeiros colocados sempre obtiveram rentabilidade superior à média da lavoura, nas áreas de Máxima Produtividade. Em 2012, o melhor resultado foi obtido pelo vencedor da Região Sul, Ely Azambuja, que obteve uma renda de R$1.209,00 a mais, por hectare, quando contrastada a área de máxima produtividade (renda líquida de R$ 3.216,00 / ha) com o restante da lavoura (renda líquida de R$ 2.007,00 / ha).   Portanto, os resultados indicam que vale a pena investir em alta produtividade, com sustentabilidade, e que os resultados comparativos são melhores em anos ruins que em anos bons. Este diferencial é o maior trunfo competitivo de que dispõe o Brasil, aliado à possibilidade de cultivar, na mesma área, 2-3 cultivos anuais, além de usar a mesma área como pastagem de inverno para a engorda do gado. Assim, o risco climático, cambial e financeiro fica distribuído e torna o produtor mais competitivo no conjunto da sua produção e não em um produto isolado.

    

Biodiesel

  

Feita esta análise da cultura, resta prospectar o que poderia ocorrer com a oferta de matéria prima para o programa de biodiesel. No mesmo Congresso de Soja apresentamos cálculos estimativos do consumo de biodiesel, em um cenário em que a mistura obrigatória aumentaria para 7% em 2013, chegando a 10% em 2020. A Figura 6 apresenta a evolução da demanda de biodiesel total, comparada com a produção específica de biodiesel de soja, para o período 2012-2025.   Afora uma excepcional expansão da lavoura de dendê (palma de óleo), nenhuma outra oleaginosa poderia suprir parcela ponderável da demanda de matéria prima do programa, nos próximos 10-15 anos. Ao contrário, a conjugação do crescimento da demanda de óleo diesel, variável entre 2-3% ao ano, com o aumento da mistura obrigatória, resultaria em demanda ainda maior de óleo de soja, para que as metas do programa fossem cumpridas. Esta visão transparece na Figura 6, e consolida a ideia de que cada país vai lastrear sua produção de bioenergia nas matérias primas que são produzidas em maior quantidade e que fornecem uma garantia de oferta, no longo prazo. Até que ocorra alguma revolução no campo, a matéria prima dominante que, no Brasil, será a soja.

     

 

Figura 6. Demanda de biodiesel total e produção de biodiesel de soja, decorrentes da mudança do marco regulatório do programa de biodiesel.

  Cabe, então, verificar a validade do exposto acima, projetando a demanda de grãos de soja para esmagamento e obtenção do óleo, e sua relação com a projeção de aumento da produção brasileira. Isto permite mensurar o impacto do programa sobre a cultura, e a capacidade de atendimento da demanda de óleo vegetal, o que é apresentado na Figura 7.  

Figura 7. Produção de soja no Brasil e demanda de soja para produção de biodiesel, com a mudança do marco regulatório.

       

A Figura 8 demonstra como a produção de soja no Brasil cresce a um ritmo mais forte que a demanda de esmagamento para biodiesel. Logo, o percentual da colheita destinado ao programa de biodiesel decresce ao longo do tempo, uma garantia adicional de abastecimento de matéria prima.

 

Em nossa opinião, os números são convincentes e demonstram que o impacto do programa de biodiesel sobre a produção de soja é limitado, demandando entre 12 e 16% da soja produzida no Brasil, sendo a demanda menor ao longo do tempo.

 

Figura 8. Percentual da soja produzida no Brasil que seria esmagada para obter óleo vegetal destinado ao programa de biodiesel, com a mudança do marco regulatório.

 

       

Uma externalidade positiva muito importante do programa de biodiesel seria o esmagamento forçado de soja no Brasil, gerando maior quantidade de farelo. Este farelo, se não for consumido integralmente pela indústria de rações animais e de outros usos alimentares ou não alimentares, será exportado, o que não será difícil de realizar, em virtude de um mercado francamente comprador, com poucos países ofertantes.   Consideramos fundamental que o nosso país, a par de se tornar o maior produtor de soja do mundo, também seja o maior processador, para agregar valor internamente, valendo-se justamente de sua liderança para impor esta condição ao mercado, tornando-o mais justo e equilibrado.    Em conclusão, o Brasil deverá tornar-se o maior produtor mundial de soja, em um lapso de tempo não superior a 10 anos. O incremento da demanda de soja para os próximos 50 anos será o maior entre os principais grãos cultivados no mundo, e sua produção deverá crescer acima de 150%, até 2050. A soja necessária para produzir óleo vegetal destinado ao programa de biodiesel decrescerá em porcentagem do total da produção, embora o volume total de biodiesel venha a experimentar um forte aumento, caso o marco regulatório seja modificado.

 

    

Novas fronteiras

Decio Luiz Gazzoni

 

Há enorme probabilidade de o leitor nunca ter ouvido falar de Edmar Correa, um mineiro que trocou a pequena propriedade de 30 hectares e migrou para o Tocantins há 17 anos, em busca de vida melhor. Ele é adepto da integração lavoura e pecuária e, em 1100 hectares, consegue uma produção de gado quatro vezes maior que a média nacional. Os ganhos de produtividade obtidos por produtores como Correa contribuíram para que a agropecuária brasileira registrasse uma expansão de 3,9% em 2011 (IBGE).   Edmar é um dos desbravadores do Matopiba, a nova fronteira agrícola, envolvendo Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. Segundo o Ministério da Agricultura, a produção do Matopiba deve crescer 50% nos próximos dez anos, contra a média brasileira de 21%. A razão é que, nas áreas novas como o Matopiba, a tecnologia é mais avançada que nas tradicionais.

 

O Edmar, em Pedro Afonso (TO), planta soja em 75% da propriedade e deixa os 25% restantes para pastagens. Após a colheita, os pastos são deslocados para as áreas de soja, que receberam fertilizantes. Desse modo, o capim é mais produtivo e Correa consegue obter até 1.800 kg de ganho de peso por hectare, por ano, contra 400 kg da pecuária tradicional. Os ganhos de rendimento e produtividade não poderiam ser obtidos apenas com a adubação do capim, que é muito caro. Já capim após a soja, permite alto ganho de produtividade e menor custo.   Esta é uma tendência que está se tornando realidade em todo o Brasil. Com a integração, o produtor consegue manter o solo ocupado e coberto quase o ano todo, obtendo maior renda com menor custo, dispensando a incorporação de novas áreas à agricultura. Há melhor aproveitamento da água e do adubo.   Os resultados são entusiasmantes. Enquanto em 2011 a média brasileira de produção de soja foi de 52 sacas por hectares, no Oeste da Bahia foi de 56. Em municípios como Luiz Eduardo ou Barreiras (BA), os resultados são ainda melhores, de 66 sacas por hectare. O uso de tecnologia adequada e sustentável é o caminho mais curto para juntar alta produtividade com alto retorno financeiro, não apenas eliminando o avanço da fronteira agrícola, como diminuindo a área ocupada pela agropecuária, embora com produção sempre crescente.

    

Flávio Moscardi

Décio Luiz Gazzoni

 

Conheci o Dr. Flávio em meados de 1979, quando a Embrapa ainda ocupava parte das instalações do IAPAR. Convivemos na Equipe de Entomologia da Embrapa Soja por muitos anos, entremeados por algumas pescarias que fizemos juntos. Insetos e peixes eram a obsessão do Flávio.   Há quase 40 anos, a presença de lagartas mortas, em estado liquefeito, sobre as plantas de soja chamou a atenção de pesquisadores. As lagartas foram coletadas, maceradas e reaplicadas em áreas de lavoura de soja, redundando na mortalidade total das lagartas presentes na lavoura. As lagartas mortas foram coletadas e examinadas ao microscópio eletrônico, concluindo-se pela presença de um vírus atacando a lagarta. À época, Flávio cursava seu doutorado na Universidade da Flórida e interessou-se pelo assunto. Este interesse tornou-se o fulcro de sua atuação profissional.

       

Estudos foram conduzidos para demonstrar a viabilidade do uso do vírus recém descoberto, no controle da lagarta da soja, macerando-se as lagartas infectadas, coletadas a campo ou criadas para esta finalidade. A ideia era encontrar uma forma de controle biológico, que dispensasse o uso de inseticidas químicos para controlar a praga.   Enquanto a tecnologia de produção em larga escala era estudada, os agricultores foram estimulados a usar o controle biológico da lagarta, com o apoio de entes públicos e privados de assistência técnica. A novidade atraiu também cooperativas e investidores privados para produzir o vírus em escala comercial. A adesão foi crescente na década de 90, atingindo um pico de adoção entre 1999 e 2002, quando a cobertura estimada foi de 2 milhões de hectares de soja, em todo o Brasil. Após esta data houve um declínio no seu uso, devido a múltiplas razões. Atualmente existe uma indústria privada que produz o inseticida biológico, com capacidade de produção suficiente para controlar a lagarta da soja em 200 mil hectares.   Em 2009 Flávio aposentou-se da Embrapa, passando a colaborar com a UEL. Para tristeza dos amigos, no domingo, 15/7/12, Flavio partiu. Mas a marca do que foi considerado um dos maiores programas de controle biológico do mundo está indelevelmente registrada na História. Flavio, que Deus o tenha e guarde.

       

    

Alimentos Seguros
Decio Luiz Gazzoni

 

Hoje, quem acordou cedo e assistiu o “Bom Dia Campo”, acompanhou a discussão sobre a segurança dos alimentos e suas implicações. Nele, alertamos que o Brasil desperta sentimentos antípodas de amor e ódio no comércio internacional. Amor, porque podemos garantir o abastecimento global de produtos agrícolas; ódio, porque nossa competitividade é de tal ordem que deslocamos outros competidores. Uma das razões pelas quais as regras de segurança dos alimentos no comércio internacional são cada vez mais restritivas é a proteção do mercado doméstico.   Um alimento é considerado seguro se os contaminantes físicos, químicos ou biológicos situam-se abaixo dos limites legais. Um limite pode ser a ausência total, se assim o determinar a legislação. O agronegócio brasileiro adapta-se com rapidez ao novo ambiente mercadológico, porque essa não é só uma exigência dos países importadores, ela também está presente no nosso mercado doméstico.

 

Existem diversas ações destinadas a monitorar a segurança dos alimentos no Brasil. Em dezembro de 2011, a ANVISA divulgou o resultado das análises de resíduos de agrotóxicos de 2.488 amostras de frutas e hortaliças, como parte do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). Do total, 1,6% das amostras apresentavam limites de resíduos acima do permitido pelas normas brasileiras, um valor razoável no contexto mundial. Mas, melhorar sempre deve ser a meta!   Sem excluir outros, os três principais parâmetros da Ciência da Toxicologia para inocuidade química dos alimentos são: 1) Dose Letal 50 (DL50) – dose que mata 50% das cobaias em testes científicos; 2) Limite máximo de resíduos (LMR) - quantidade máxima de agrotóxico legalmente aceita no alimento; 3) Ingestão Diária Aceitável (IDA) – quantidade máxima do agrotóxico que, ingerida diariamente, durante toda a vida, não oferece risco à saúde, à luz dos conhecimentos científicos atuais. Uma amostra enquadra-se ou não nas disposições legais do país se obedecer os parâmetros acima. A situação não é diferente em outros países, portanto alimentos que não sejam considerados seguros não terão mercado.

Quem o desejar, pode assistir o vídeo do programa em http://blogs.ruralbr.com.br/bomdiacampo/

    

Cultivos Bt
Decio Luiz Gazzoni

 

O Bacillus thuringiensis é uma bactéria conhecida há muito tempo pelos cientistas e por agricultores. Ela ocorre naturalmente nas lavouras, causando doenças que levam à morte diversos insetos pragas. Em 2011, mais de 66 milhões de hectares foram cultivados com variedades que receberam um gene do B. thuringiensis (variedades Bt), para produzir uma toxina letal para alguns insetos, mas inofensiva para os seres humanos.   Plantas como soja, milho ou algodão, modificadas para resistir a pragas, usam menos agrotóxicos, permitindo o incremento do controle biológico natural, que se espalha até para lavouras não GMs. Esta é a conclusão de um estudo que durou duas décadas e abrangeu 150 milhões de hectares, publicado na revista Nature (http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/pdf/nature11153.pdf).   O pesquisador Yanhui Lu, da Academia Chinesa de Ciências, analisou 36 locais, em seis províncias produtoras de algodão no norte da China, onde 2,6 milhões de hectares de algodão e 33 milhões de outras culturas (milho, amendoim e soja) são cultivadas a cada ano, por mais de 10 milhões de pequenos agricultores.

 

O algodão Bt ocupa 95% das lavouras da China. Desde a sua introdução, em 1997, o uso de inseticidas caiu pela metade, e o estudo mostrou uma duplicação de insetos predadores naturais, como joaninhas, crisopídeos e aranhas. Com isto, mesmo pragas não atingidas pelo algodão Bt, presentes em lavouras com variedades convencionais de soja, milho e de amendoim, também são controladas, desde que não seja utilizado excesso de inseticidas de largo espectro, nestas últimas lavouras.   O algodão Bt foi criado especificamente para matar diversas lagartas, que são pragas do algodão. Mas os pulgões, que também são pragas do algodão e outras culturas, não são controlados diretamente pela planta. No entanto, os pesquisadores descobriram que, apesar da grande redução no uso de inseticidas, o ataque de pulgões caiu 65% após a introdução do algodão Bt. Isto foi devido a uma duplicação de predadores naturais, que se alimentam de grande número de pragas. Com a chegada de variedades Bt, é grande a expectativa de avanço para uma agricultura de impacto ainda menor no ambiente.

 

    

Brasil, maior produtor de soja?
Decio Luiz Gazzoni

 

Há dois meses, no VI Congresso Brasileiro de Soja, tracei um cenário que, naquele momento, era otimista: até 2015 o Brasil seria o maior produtor de soja do mundo. À época, a soja americana, plantada há cerca de 30 dias, media um palmo de altura. Nada indicava que, como quase nunca antes na História daquele país, uma seca arrasaria o Meio Oeste americano, dizimando lavouras de milho e soja.   Amanhã, 10 de agosto, o USDA divulga a estimativa da safra americana. Arrisco antecipar o anúncio: a safra de milho seria reduzida entre 20 e 25% e a de soja em 10-18%. A produção americana de milho perderia 80–100 milhões de toneladas (Mt), o dobro da exportação anual dos EUA.   Alguém precisará abastecer o mundo. Poderia ser o Brasil, se tivéssemos investido tanto em infraestrutura de transporte e armazenagem, quanto o fizemos em tecnologia. Hoje a produção de milho cresce a cada ano, mas o custo de transporte na fronteira agrícola é tão alto que, apenas nos anos de crise (preço alto), compensa enviar o milho ao porto.

 

Já na soja, aventuro-me a dizer que a safra americana, pelas condições desta semana, deve se situar próximo a 75 Mt – os pessimistas falam em até 70 Mt. Perscruto os sites de previsão de clima de longo prazo, e a melhor aposta de momento é o retorno do El Niño para o próximo verão brasileiro, garantindo chuva farta para as regiões produtoras de grãos. A intenção de plantio de soja para este ano varia entre 27 e 28 Mha, os otimistas vão a 30 Mt. Com produtividade de 3.150 kg/ha, chegaríamos a 88 Mt de soja. Se Deus ajudar o produtor, pela primeira vez na História deste país, seremos o maior produtor mundial de soja!   É bom para o ego nacional, andávamos sorumbáticos com o pibinho, a marolinha e outras mazelas. O agricultor está fazendo sua parte. Mas, este fato não obnubila a nossa responsabilidade com o mundo: produzir sempre mais e melhor. Entrementes, não basta produzir: é preciso colocar o produto da colheita na mesa do consumidor. O Governo precisa fazer a sua parte, investindo em uma infraestrutura de armazenamento e transportes consentânea com nossa realidade. O maior produtor de soja do mundo não pode armazena-la em caminhões à beira da estrada, na fila do porto!

    

Modelo genômico
Decio Luiz Gazzoni

 

Um modelo é uma maneira de traduzir fatos, eventos e comportamentos em equações matemáticas. Um modelo matemático muito conhecido é o da previsão climática. Agora, abrimos a era dos modelos de organismos vivos. A bactéria Mycoplasma genitalium, a menor bactéria viva do mundo, foi modelada por cientistas da Universidade de Stanford e do J. Craig Venter Institute. O professor de bioengenharia Markus Covert liderou a equipe que vasculhou 900 artigos científicos para reproduzir no computador cada interação molecular da bactéria. O estudo completo está em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867412007763.

 

  E qual a utilidade disso? O modelo da bactéria serve apenas para testar o conceito e verificar se, conhecendo o DNA da bactéria, é possível prever sua aparência e comportamento, incluindo sua fisiologia e seu metabolismo, como seria na vida real. No início, o modelo permitirá levantar novas hipóteses sobre essas duas áreas da Ciência, ensejando sua comprovação. Mas, baseado nesta experiência, em 7 ou 8 anos, teremos modelos de soja, milho, arroz, feijão, coelho e gado bovino.
Então, tente imaginar como aumentará a velocidade das inovações tecnológicas se, ao invés de esperar anos e trabalhar com centenas, milhares de indivíduos, toda a triagem inicial ocorrer no computador. Somente iriam para os testes de campo aqueles indivíduos cujo DNA modelado indicasse alta probabilidade de exibir as características desejadas.


 

  Exemplos práticos: queremos uma cultivar de soja resistente a uma doença. Os genes que conferem resistência são introduzidos em algumas poucas sementes, que depois precisam ser cruzadas para transferir outros caracteres como produtividade, precocidade, e outras dezenas de características que interessam ao agricultor. Usando o modelo, ao invés de lidar com milhares de plantas, que precisariam ser cultivadas e analisadas individualmente, um cientista se concentra em algumas dezenas delas, com maior probabilidade de conter todas as características. O mesmo raciocínio vale para melhorar uma raça bovina ou criar cruzamentos industriais. Depois de ler o artigo, fiquei com aquela sensação de que nasci muito cedo: agora a Agronomia vai ficar ainda melhor!  


    

Biodiesel na Europa
Decio Luiz Gazzoni

 

Enquanto em 2010 a produção de biodiesel da União Europeia (EU) registrou um aumento de 5,5% em relação ao ano anterior, atingindo o patamar de 9,57 milhões de toneladas, em 2011 houve uma redução em relação a 2010. Até mesmo o aumento verificado em 2010 (6,3%) foi baixo, quando comparado com as taxas de crescimento registradas em 2009 (17%) e 2008 (35%). Os números da produção de biodiesel da UE estão consolidados na Figura 1, na qual o valor para 2011 ainda é extra-oficial, e, obviamente, o valor para 2012 é uma estimativa, ambos indicando retração na produção de biodiesel no continente – uma inversão da tendência de uma década.  

Figura 1. Produção de biodiesel na União Europeia. Fonte: EBB, 2011

 

 

Em 2010, a Espanha confirmou sua posição de terceiro produtor de biodiesel europeu, à frente da Itália, embora disponha da segunda maior capacidade instalada de produção, somente inferior à Alemanha, a qual juntamente com a França, lidera a produção europeia desde o inicio da série estatística. Embora, nos(anos 90 a maior produção de biodiesel ocorresse na França, a partir do presente século a Alemanha se estabeleceu como o maior produtor europeu e mundial de biodiesel. A produção de biodiesel, discriminada para os quatro maiores produtores, se encontra na Figura 2, com a mesma ressalva de os valores para 2011 serem extra-oficiais e os referidos para 2012 constituírem-se em estimativas. A Tabela 1 discrimina a produção por país da UE, para os anos de 2009 e 2010, que são os últimos para os quais existem estatísticas oficiais definitivas.  

Figura 2. Produção de biodiesel por país da Europa. Fonte: EBB

 

Lá como cá

A indústria de biodiesel na UE exibe o mesmo fenômeno verificado no Brasil, que é a elevada capacidade ociosa. A utilização da capacidade de produção de biodiesel da UE foi de 44% nos dois primeiros trimestres de 2011, e deve ter encolhido no segundo semestre daquele ano, acompanhando a queda da produção de biodiesel. A Tabela 2 apresenta a capacidade instalada de produção de biodiesel na Europa, por país, para os anos de 2010 e 2011.  

Em 2011, a capacidade instalada de produção de biodiesel na Europa cresceu marginalmente (cerca de 1%), ultrapassando 22 milhões de toneladas, e interrompendo um ciclo de euforia iniciado em 2000. Esta base industrial é o resultado de investimentos na produção de biodiesel planejada antes de 2007, quando predominavam objetivos ambiciosos para os biocombustíveis decorrentes das diretivas e dos posicionamentos das autoridades da UE.

  De acordo com o European Biodiesel Board (EBB) ocorreu um aumento das importações provenientes de terceiros países, em especial da Argentina e Indonésia, além de importação de biodiesel produzido nos EUA, que chega (ou chegava) à Europa após passar por outros países. O aumento da importação pode ter sido causa da redução da oferta interna. Ou, examinando por outro ângulo, consequência da retração e da elevação de custos, que abriu oportunidades para os importadores suprirem a menor oferta doméstica.

 

Tabela 1. Produção de biodiesel na União Europeia (milhões de toneladas). Fonte: EBB

 

País

2009

2010

Luxemburgo

0

0

Malta

1

0

Chipre

9

6

Eslovênia

9

22

Irlanda

17

28

Estônia

24

3

Bulgária

25

30

România

29

70

Latvia

44

43

Grécia

77

33

Lituânia

98

85

Eslováquia

101

88

Hungria

133

149

Reino Unido

137

145

República Checa

164

181

Finlândia

220

288

Dinamarca / Suécia

233

246

Portugal

250

289

Áustria

310

289

Holanda

323

368

Polônia

332

370

Bélgica

416

435

Itália

737

706

Espanha

859

925

França

1.959

1.910

Alemanha

2.539

2.861

TOTAL

9.046

9.570

 

 

A importante contribuição esperada do biodiesel para atingir o objetivo da diretiva de participação de energia renovável da EU para o setor de transporte, em 2020, foi inequivocamente reconhecido pelos Estados-Membros, nos seus planos de ação nacionais, elaborados ao abrigo da Diretiva Energias Renováveis (RED) 2009/28. De acordo com as previsões dos Estados-Membros, o biodiesel deverá cumprir em torno de 66% da meta de 2020, o que exige a oferta de 24 milhões de toneladas de biodiesel naquela data.

 

Tabela 2. Capacidade instalada de produção de biodiesel na União Europeia (milhões de toneladas). Fonte: EBB

País

Ano de 2010

Ano de 2011

Luxemburgo

0

0

Malta

5

5

Chipre

20

20

Irlanda

76

76

Eslovênia

105

113

Estônia

135

135

Lituânia

147

147

Eslováquia

156

156

Latvia

156

156

Hungria

158

158

Dinamarca

250

250

România

307

277

Suécia

277

277

Finlândia

340

340

Bulgária

425

348

Reino Unido 

609

404

República Checa

427

427

Portugal

468

468

Áustria

560

560

Bélgica

670

710

Grécia

662

802

Polônia

710

864

Holanda

1.328

1.452

Itália

2.375

2.265

France

2.505

2.505

Espanha

4.100

4.410

Alemanha

4.933

4.933

Total

21.904

22.118

 

Reclamos da indústria

A queixa generalizada da indústria de biodiesel europeia é relacionada à importação de biodiesel, além de queixas difusas quanto a vários percalços regulatórios que, segundo a indústria, não apenas poderiam reforçar a tendência de queda da produção, como apresentam um impacto sistêmico sobre a economia do bloco.   Segundo o setor, os objetivos de 2020 não podem ser inviabilizados por decisões políticas precipitadas. Como um exemplo, o EBB argumenta que os esforços para implementar a Diretiva de Energias Renováveis de 2020 não podem ser prejudicados pelo debate atualmente em curso, sobre produção de matéria prima para biocombustíveis e eventuais impactos na mudança indireta do Uso do Solo (ILUC).   A EBB engrossa a corrente mundial que aponta a falta de robustez econométrica dos modelos que predizem a ILUC. Segundo o Board Europeu, a implementação dos denominados "fatores ILUC" sem uma forte fundamentação científica, que vá além de qualquer dúvida razoável, implicaria em penalizar o setor de produção de biocombustíveis, sem trazer qualquer benefício de sustentabilidade em seu lugar. Particularmente, os produtores europeus estão preocupados com a “barreira ILUC” quando se trata de processar óleo vegetal importado de outros países, posto que o ILUC não prevê criar qualquer incentivo para melhorar as práticas agrícolas nos países produtores, e os industriais europeus não tem controle direto sobre as políticas de uso da terra implementados em países situados fora da UE.

 

 

O EBB conclui que não é razoável a UE abrir mão de seus objetivos de emissões para 2020, de mitigação das mudanças climáticas e de segurança energética, considerando o conceito evasivo e questionável do ILUC, baseado unilateralmente em previsões decorrentes de exercícios de modelagem, sem qualquer validação na prática agrícola.   Outro argumento brandido pelos industriais é que o debate sobre o ILUC ignora completamente o fato de que o RED 2009/28 representa um conjunto completo e rigoroso de critérios de sustentabilidade, aplicados à produção de biocombustíveis. Realmente, da forma como o RED foi elaborado, é uma garantia de que só os biocombustíveis com um perfil de alta sustentabilidade possam ser comercializados na UE, o que é uma portentosa barreira aos biocombustíveis que não se enquadrarem nos seus critérios.   Provavelmente visualizando que parte de seus problemas são gestados e incentivados pelo lobby petrolífero, a indústria de biodiesel passou a pleitear igualdade de condições com os combustíveis fósseis. A reivindicação prática é que a contabilidade de Gases de Efeito Estufa (GEE) precisa ser urgentemente revista, levando em consideração todas as emissões relacionadas com extração, transporte e refino, ou seja, ao longo do ciclo de vida. Também pleiteiam que a mudança do uso da terra é uma questão a ser tratadas em nível global, isto é, olhando para todos os setores que têm um impacto sobre uso da terra, incluindo alimentos, e não restrito a biocombustíveis, como ocorre atualmente.

  

Mais preocupações

A Diretiva de Energias Renováveis 2009/28 constitui o suporte regulatório que alavancou o desenvolvimento da indústria dos biocombustíveis na Europa, a partir da decisão histórica de introduzir a meta compulsória de 10% de energias renováveis no setor de transportes. O investimento na expansão da capacidade produtiva habilita a indústria de biodiesel da UE a atender essa meta. No entanto, os progressos realizados pelos Estados Membros na implementação da RED foram limitados e dispersos, mostrando a necessidade de uma maior harmonização no seio da UE.   Neste particular, a indústria propõe que os esforços sejam intensificados para finalizar a implementação da RED já em 2012, de uma maneira que maximize a operacionalidade do mercado doméstico de biocombustíveis. Nesse sentido, propõem que o reconhecimento mútuo pelas autoridades nacionais dos critérios de sustentabilidade dos biocombustíveis seja a regra única. O reclamo faz sentido, pois a UE já validou sete programas de sustentabilidade voluntários, propostos por diferentes países. O pleito da EBB é que estes programas devem ser os instrumentos para a indústria comprovar a conformidade com o RED.   Outro problema trata da diversidade de interpretações quanto à  implementação da "dupla contagem", que é um mecanismo de incentivo para os biocombustíveis produzidos a partir de resíduos e óleos usados, que envolve muitos meandros burocráticos (ver box). Segundo o EBB, a Diretiva 2009/28 e suas medidas interpretativas não contêm suficiente orientação sobre como a implementação deste mecanismo deve ser efetuada pelos Estados-Membros e como a indústria deve provar ou verificar o cumprimento real de “alta sustentabilidade” por parte desses biocombustíveis.

 

 

O entendimento é que o processo é trabalhoso e burocrático e, se não for aplicado de forma coerente e harmoniosa nas legislações dos Estados-Membros, o mecanismo de dupla contagem pode gerar grandes perturbações do mercado de biocombustíveis da UE, distorcendo os objetivos da RED quanto à sustentabilidade dos biocombustíveis.   A principal preocupação da dupla contagem aponta para o risco dos biocombustíveis importados, produzidos de uma forma não compatível com o espírito e as disposições do RED, possam acessar o mercado da EU, em detrimento de biocombustíveis altamente sustentáveis produzidos na Europa, valendo-se do mecanismo de dupla contagem. De acordo com o EBB, esse risco não é virtual, e já começou a se materializar em certos Estados-Membros da UE, embora não tenha sido possível localizar uma descrição de caso que comprove a afirmativa da EBB.  

A proposta concreta da EBB inclui dois conjuntos de ações, que deveriam ser urgentemente desenvolvidos pela UE e pelas autoridades dos países que a compõe:

a. Definir um monitoramento robusto e um mecanismo de rastreabilidade que permita verificar a validade de pedidos de dupla contagem de biocombustíveis, com cobertura em toda a UE;

b. Esclarecer quais os tipos de biocombustíveis são elegíveis para dupla contagem, em particular, definindo claramente que materiais devem ser considerados como "resíduos".

 

 

Distorções comerciais

Há tempos os industriais europeus reclamam do avanço do biodiesel importado sobre o continente. O caso mais rumoroso foi a exportação a partir dos EUA, aproveitando brechas legais, até ser sustada por medidas anti-dumping da UE. Os norte-americanos se aproveitavam do incentivo de até US$1,00/galão do seu próprio país, e ingressavam na UE sem taxas de importação, válidas até B19. Os EUA continuaram a exportar biodiesel para a Europa, através de outros países, como o Canadá e a Índia, em 2010, mesmo após a correção das brechas legais (Figura 3). A partir de meados de 2011, as medidas da EU parecem haver surtido efeito, pois a importação de biodiesel para a Europa se concentrava na Argentina e na Indonésia. (Figura 4).  

Figura 3. Porcentagem de participação dos países exportadores de biodiesel para a UE, em 2010. Fonte: EBB

 

 

Em 2010, a UE importou 1,9 milhões de toneladas de biodiesel de acordo com dados do EUROSTAT. As importações foram caracterizadas por aumento do volume provenientes da Argentina e Indonésia. Esta evolução foi confirmada durante o primeiro semestre de 2011, quando a Argentina e a Indonésia representaram, respectivamente, 71% e 27% das importações de biodiesel da UE.  

Mas as queixas dos industriais europeus continuam, posto que tanto a Argentina quanto a Indonésia mantem regimes de impostos de exportação diferenciais (DET, na sigla em inglês), que artificialmente incentivam as exportações de biodiesel, ao invés de óleo soja e de palma.  

O DET argentino é fortemente distorcido, pois mantêm um grande diferencial entre o imposto de exportação sobre óleo de soja de 32% e a taxa de exportação do biodiesel limitada a 20% (a taxa efetivamente aplicada é de 14,16%). Este conceito também se aplica ao DET da Indonésia.

 

 

Figura 4. Porcentagem de participação dos países exportadores de biodiesel para a UE, no primeiro semestre de 2011. Fonte: EBB

 

 

Considerações finais

Atendendo o reclamo do setor, a Comissão Europeia está propondo remover a Argentina e a Indonésia da lista de países que se beneficiam do Sistema Generalizado de Preferências (SGP) da UE. Se for adotada pelo Conselho e aprovada pelo Parlamento, esta proposta sujeita o biodiesel argentino e da Indonésia ao imposto de importação não preferencial de 6,5%, em vez do benefício de um acesso isento de impostos quando exportam para a UE.   Não pode ser olvidado que existe um clima de retaliação à Argentina, após a nacionalização da REPSOL, que era controlada por capitais espanhóis, tudo isto sobre um terreno pantanoso de protecionismo, gestado no seio da crise econômica que assola a Europa há quatro anos. Portanto, se por um lado as medidas propostas ou em discussão podem fechar o mercado europeu para a Argentina, Indonésia e EUA, nada garante que outros países, Brasil entre eles, consigam ocupar este mercado, em virtude de outros mecanismos que se constituem em barreiras, como o ILUC, acima referido.

 

Box

 Dupla contagem para biocombustíveis avançados

 

Um agente de mercado de biocombustíveis (por exemplo, um distribuidor) pode contar em dobro o volume de alguns biocombustíveis, para cumprir a obrigação de mistura legal. Assim, para que uma empresa tivesse cumprido sua meta legal para 2011, poderia ter operado com mistura média de 2,125 % de biocombustíveis ao invés do padrão estabelecido de 4,25%. O incentivo legal se aplica aos biocombustíveis produzidos a partir de resíduos, óleos usados e materiais lignocelulósicos. Apenas são elegíveis para dupla contagem as matérias-primas que não podem ser utilizadas para:

a.   uma aplicação de maior valor agregado;

b.   que não seja para a geração de eletricidade ou de calor;

c.   para compostagem;

d.   usando a parte ligno-celulósica como forragem para animais.

 

 

  

Caso determinada matéria prima tenha uma das aplicações alternativas acima, deve ser protocolado um pedido de uso alternativo. Face ao pedido, uma análise de mercado é efetuada para provar que há um excesso desse material no mercado, para que ele possa ser considerado elegível para a dupla contagem. 

A fim de demonstrar que utilizou biocombustíveis elegíveis para a dupla contagem, as empresas devem submeter relatórios anuais anexos ao relatório sobre a quota obrigatória de biocombustíveis. As informações dos fornecedores de biocombustíveis devem ser acompanhadas por uma “declaração de verificação”, demonstrando haver cumprido as etapas descritas acima.

 

Os organismos de fiscalização são responsáveis por emitir esta declaração de verificação, que é utilizada para chancelar a dupla contagem de biocombustíveis avançados. Este protocolo inclui regras básicas, procedimentos e diretrizes para a verificação da dupla contagem de biocombustíveis.  

O processo de verificação consiste em duas fases. Na primeira fase - de preparação - o auditor reúne todas as informações necessárias do produtor (e, se necessário, de fornecedores) e visita o local de produção. Com base nessas informações, o auditor realiza uma análise de risco e elabora um plano de verificação. A segunda fase consiste na auditoria real e controles aleatórios, com relatórios das tarefas executadas e suas conclusões finais. Se todos os critérios foram cumpridos, o órgão de controle emite uma declaração de verificação, no final do processo.

 

    

Recorde de produtividade de milho
Décio Luiz Gazzoni

 

Não é pouca coisa produzir 27.027 kg/ha de milho, mesmo irrigado. Essa altissima produtividade foi obtida por David Hula, nos EUA. David e outros 8.430 produtores participaram da edição 2011 do Concurso Anual de Produtividade de Milho, da Associação Nacional dos Plantadores de Milho (NCGA). Se este número parece elevado, não se surpreenda caso, este ano, um produtor colha 28 t/ha, pois o concurso é considerado um dos principais estimuladores dos ganhos de produtividade.   A história de David nada tem de espetacular: é um agricultor comum, que usa tecnologias disponíveis no mercado. O que o diferencia dos demais é o extremo cuidado e capricho na condução da lavoura. Em uma entrevista, David refere: "Considero que, uma vez que você abre o saco de sementes, o potencial de rendimento pode cair, por conta de diferentes estresses que o milho poderá enfrentar. Portanto, para obter alta produtividade, deve-se tentar minimizar o impacto de qualquer estresse, a partir do momento em que o saco é aberto, até a colheita". Preciosa lição!   A análise do seu sistema de produção demonstra este fato. David se preocupa com o arranjo de plantas, os aspectos fitossanitários e de nutrição do milho, evitando estresses na fase inicial do cultivo. E, sem dúvida, a ajuda divina sempre é bem vinda, como fica claro quando o produtor considera que o clima foi muito favorável ao cultivo, sem restrições hídricas ou choques térmicos.

 

Análise dos resultados

            A Tabela 1 apresenta os participantes do concurso, agrupados em função do uso de irrigação e do sistema de plantio. O vencedor geral, David Hula, utilizou irrigação e plantio direto.

 

Tabela 1. Número de participantes e maior produtividade de cada grupo do concurso

Categoria

Participantes

Maior produtividade

Plantio convencional não irrigado A*

1.129

18.174

Plantio convencional não irrigado B

2.971

20.297

Plantio direto não irrigado A

910

18.496

Plantio direto não irrigado B

712

18.752

Plantio convencional irrigado

1.581

21.483

Plantio direto irrigado

1.038

27.027

A= Todos os estados produtores de milho, menos os constantes em (B)

B= Somente os estados de Illinois, Indiana, Iowa, Minnesotta, Missouri, Ohio e Wisconsin.

 

A Tabela 2 exibe as médias de produtividade dos três primeiros colocados de cada categoria. Observa-se que o efeito da irrigação foi mais intenso que do sistema de plantio. Lavouras de milho irrigado, na média dos três primeiros colocados, produziram 4.158 kg/ha mais que as não irrigadas. Já as lavouras conduzidas em plantio direto produziram 1.187 kg/ha mais que aquelas conduzidas em sistema convencional. Observa-se uma sinergia com o uso conjunto de irrigação e plantio direto, com os produtores elevando sua média de produtividade em 4.746 kg/ha.

 

Tabela 2. Produtividade de milho (kg/ha) dos três primeiros colocados do concurso, em função de irrigação e sistema de plantio.

Irrigação

Plantio

1o. colocado

2o. Colocado

3o. Colocado

Média

Sem

Convencional

19.215

18.459

17.892

18.522

Sem

PD

18.648

17.955

17.892

18.165

Sem

Média

18.932

18.207

17.892

18.344

Com

Convencional

23.310

22.176

19.719

21.735

Com

PD

27.027

22.932

19.845

23.268

Com

Média

25.169

22.554

19.782

22.502

Média

Convencional

21.263

20.318

18.806

20.129

Média

PD

22.838

20.444

18.869

21.315

Média

Média

22.050

20.381

18.837

20.722

 

A Tabela 3 expõe alguns aspectos do sistema de produção, com ênfase para a nutrição de plantas. O destaque é a atenção que os agricultores conferem ao nitrogênio e à forma de sua aplicação. Em média, os vencedores nacionais do concurso (considerando-se irrigação e sistema de plantio) aplicaram 315 kg/ha de nitrogênio. Nesta tabela, quando o número é expresso em porcentagem, significa a porcentagem de agricultores que efetuaram a prática.

 

Tabela 3. Aspectos relevantes do sistema de produção dos participantes do concurso nacional de produtividade de milho.

Fator

Todos os participantes

Vencedores estaduais

Vencedores nacionais

Produtividade

13.581

15.131

19.726

Densidade no plantio

82.770

84.716

91.733

Densidade na colheita

79.616

81.792

88.811

Adubação

Análise de solo

59%

70%

61%

Nitrogênio kg/ha

225

255

302

kg N/ kg milho colhido

16,9

17,5

15,2

Fósforo kg/ha

79

79

109

Potássio kg/ha

114

116

158

Adubação complementar (% de usuários)

Microelementos

29 %

42 %

33 %

Esterco

15 %

23 %

17 %

Momento da adubação (% de usuários)

Outono

24 %

11 %

0 %

Primavera pré-plantio

42 %

46 %

39 %

No plantio

40 %

58 %

56 %

Cobertura

49 %

66 %

61 %

Inicial

55 %

70 %

72 %

Nitrogênio (% de usuários)

Incorporado

72 %

65 %

67 %

Cobertura

42 %

57 %

50 %

Cultivo anterior (% de usuários)

Milho

25 %

35 %

39 %

Soja

61 %

44 %

50 %

Trigo

3 %

3 %

0 %

Alfafa / centeio

1 %

3 %

5 %

Outra

10 %

15 %

6 %

         A importância do aumento da produtividade do milho, da soja, ou de qualquer produto agrícola reside na necessidade de aumentar em mais de 70% a produção de alimentos, até 2050. Para os EUA, produtividade é crucial porque não há mais área a expandir naquele país – todo o aumento de produção virá dos ganhos de produtividade. E, para o Brasil, com muita área para expandir, representa o ganho ambiental de evitar a incorporação de novas áreas ao sistema produtivo. E, para todos, significa a busca de maior rentabilidade, se os ganhos de produtividade forem efetivamente sustentáveis. Neste particular, David Hula afirmou que a rentabilidade, com sua altíssima produtividade, foi superior àquela dos anos anteriores.

    

Energia Renovável

Decio Luiz Gazzoni

 

Ontem proferi palestra no IV Congresso Brasileiro de Planejamento Energético, um fórum que se dedica a lançar luzes sobre os rumos da oferta e demanda de energia no Brasil. Em algumas áreas o futuro é mais previsível, como geração hidroelétrica ou energias fósseis (petróleo, gás e carvão), por serem tecnologias maduras. Neste segmento, a dúvida é sobre a relação reservas/consumo (que estabelece o preço no mercado) e a reação dos consumidores pelos impactos ambientais adversos. Já as energias renováveis ainda tem longo caminho tecnológico a percorrer. Minha apresentação procurou mostrar a evolução tecnológica de energias renováveis no médio prazo.   Até 2030, a demanda de energia no Brasil cresce 130%, logo é imperioso que sejam estudadas fórmulas para uma oferta correspondente. Embora a geração hidroelétrica (amplamente dominante no Brasil) seja renovável, contra ela pesam 1) o esgotamento das grandes reservas; 2) a distância dos centros de consumo; 3) os impactos ambientais. Por esta razão, alternativas são visualizadas no médio e longo prazo. A cogeração de bioeletricidade em usinas de cana já é um fato. A geração eólica está se tornando realidade, pela queda espetacular nos custos de geração, nos últimos anos. E a energia fotovoltaica começa a entrar no circuito, pela associação entre aumento de eficiência e queda de custos, viabilizadas por aumento de escala e inovações tecnológicas.

 

No caso dos transportes, assistiremos a uma mudança radical na energia consumida por caminhões, ônibus, carros e trens. Progressivamente, os motores de combustão interna serão substituídos por motores elétricos. Inicialmente com veículos híbridos, posteriormente com veículos elétricos puros. Logo, diminui a demanda de combustíveis líquidos (fósseis ou renováveis) e aumenta a demanda de eletricidade, mudando, também, toda a cadeia de abastecimento.  

A única exceção que vislumbro, no longo prazo, refere-se aos aviões: não vejo como, nos próximos 50 anos, mover aviões de grande porte, que não seja por combustíveis líquidos. Que é o nicho para onde deve deslocar-se a produção de biocombustíveis. Sai bioetanol e biodiesel e ingressa a bioquerosene, produzida de cana-de-açúcar e outros vegetais altamente eficientes.

 

    

Algas

Decio Luiz Gazzoni

 

Devagarinho, sem bater à porta, como quem não quer nada, o futuro está chegando. São mais de 10.000 espécies de microalgas conhecidas e sabe-se lá quantas desconhecidas. Cada espécie se especializa para produzir lipídios, protídios ou glicídios, hoje obtidos de milho, trigo, arroz, soja ou feijão. As diferenças: a produtividade muito maior das algas; e a demanda muito baixa de área, de adubos e agrotóxicos.   O mês de julho de 2012 marcou o início da parceria entre a See Algae Technology (SAT), empresa austríaca de infraestrutura para produção industrial de algas, e o grupo sucroalcooleiro JB. O resultado: com investimento inicial de 8 milhões de euros, a SAT construirá uma planta de biodiesel na usina de Vitória de Santo Antão, no Recife. É o primeiro projeto global em escala industrial para a fabricação de biodiesel de algas. A expectativa da companhia, sediada em Viena, é iniciar as operações no Brasil já em 2013. A unidade terá capacidade de produção de 1,2 milhão de litros de biodiesel de algas por ano.   Ao invés de terra, as algas se desenvolvem em água. Elas precisam de luz para a fotossíntese; de nutrientes como fósforo e nitrogênio; e de CO2. Até recentemente, o biodiesel de algas era muito caro. Porém, os avanços tecnológicos reduziram o preço para a faixa de R$1,00/litro, de acordo com a SAT, comparado com cerca de R$2,00/litro com a tecnologia convencional.

 

O primeiro avanço foi produzir algas em ciclo fechado, substituindo os tanques abertos O segundo é a iluminação uniforme para toda a colônia de algas, também evitando a saturação de luz. Isto é feito com fibras óticas que distribuem a luz no seio da colônia. Finalmente a sinergia com as usinas de etanol, aproveitando o CO2 da fermentação e da queima de bagaço para adubar a colônia.   Depois de extrair o óleo para biodiesel, ainda sobra 50% de biomassa proteica, para alimentar o gado. Com o custo de produção mais baixo e uso integral das algas, o balanço de energia do cultivo é altamente positivo, o que significa sustentabilidade ambiental. Que, junto com a rentabilidade financeira, cria um ambiente propício ao aproveitamento industrial de algas. É o futuro chegando, devagarinho..., para ficar!

    

 Um ano é um ano...
Décio Luiz Gazzoni

 

...outro ano é outro ano! O fluxo de caixa do agricultor tem que ser quinquenal. Um ano será ótimo, um péssimo, dois médios e um dependerá do humor divino e dos homens. Tomar decisões baseadas só neste ano é uma péssima alternativa. Agricultor tem que estar mais para formiga que para cigarra. Nos momentos de fluxo de caixa positivo, é hora de reforçar a poupança para os anos ruins (que fatalmente virão), pagar as dívidas, fazer a manutenção de máquinas, estradas e benfeitorias que estavam aguardando uma oportunidade, melhorar a tecnologia e investir o que sobrar, seja em máquinas, implementos ou terra.   Seca como esta, que nunca antes aconteceu na História dos EUA, é fato raro. Conjuminada com estoques baixos e demanda alta (lastreada pelos países que buscam um lugar ao sol), configura preços para soja, milho e trigo em tetos recordes. Leio que a consultoria Pro Farmer, que foi a campo ver o rombo com seus próprios técnicos, avalia que a produtividade do milho nos estados que mais sofreram é de 78 sacos/ha, contra 150 sacos/ha de 2011. Em Ohio, um dos big five corn states, a produtividade média caiu 20%, para 116 sacos/ha. Indiana, outro big five, terá a menor colheita desde 1995.


 

Dia 24 de agosto, a FAEP e o SRL nos brindaram com a palestra do londrinense Pedro Dejneka, que vive em Chicago há 15 anos, acompanhando a CBOT. Em sua apresentação ele se mostrou otimista quanto às cotações futuras, imaginando que a soja deva operar raspando o limite de US$18/bushel e o milho surfará entre US$8 e 9/bushel. São preços altíssimos, remuneradores. E que devem se manter pelos próximos 6 meses, a menos que a crise econômica mundial os derrube. Mas, a partir de maio, safra brasileira no porto e americana no chão, a história pode ter outro rumo.   Aí vem outro cuidado importantíssimo: não tente descobrir o pico de preços para vender sua produção. Com as cotações nas nuvens, é bem provável que este seja o limite, 1% para mais ou para menos. Portanto, no mínimo, garanta o seu custo de produção. Depois, venda o restante conforme lhe parecer remunerador. Sem esquecer do conselho do primeiro parágrafo: o camionetão turbinado tem que ser o último item da sua lista de aplicação do dinheiro!

    

Aerocombustíveis

Decio Luiz Gazzoni

 

A busca por combustíveis mais sustentáveis chegou à aviação. A necessidade de reduzir os gases-estufa do setor aéreo, que correspondem a 2% das emissões globais, leva empresas de aviação, fabricantes de aviões e centros de pesquisas a uma corrida tecnológica para desenvolver biocombustíveis que possam substituir, ao menos em parte, o querosene de petróleo.   A Aliança Brasileira para Biocombustíveis de Aviação (Abraba) foi criada para desenvolver biocombustíveis aeronáuticos, envolvendo a Embraer, a Azul, a GE (turbinas) e a Amyris (biocombustíveis). A FAPESP e a Embrapa se encontram na linha de frente das pesquisas. A expectativa é de que, em cinco anos os primeiros biocombustíveis para aviação estejam prontos para produção em escala e, em uma década, você estará voando em aviões “flex”, movido a ...bioquerosene de soja! O problema não é tanto o fim do petróleo, mas produzir um biocombustível capaz de reduzir significativamente as emissões de gases-estufa, e que seja uma alternativa sustentável no longo prazo.

 

 

 A indústria global do transporte aéreo contribui, atualmente, com 2% dos gases de efeito estufa. Se nada fosse feito, poderia chegar, no médio prazo, a 5%. Para evitar a escalada, as metas incluem melhorar em 1,5% a eficiência do uso de combustível até 2020, e reduzir em 50% as emissões da indústria até 2050, tendo como linha de base o ano de 2005.
 
  A pesquisa utiliza cana-de-açúcar e óleos vegetais como matéria-prima para o bioquerosene. A TAM realizou, em novembro de 2011, o primeiro voo experimental com um A320, com capacidade para 174 passageiros, que decolou com 2 comandantes e outras 18 pessoas, entre técnicos e executivos da empresa. A aeronave saiu do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e sobrevoou o Atlântico por 45 minutos, retornando à base, onde a turbina foi rigorosamente inspecionada, e aprovada com louvor.   A conjunção entre a pressão social por menor impacto ambiental, o desenvolvimento tecnológico e o compromisso empresarial, alavanca a produção de matéria prima para biocombustíveis aeronáuticos. Na próxima semana comentaremos como este segmento será protagonista do mercado de biocombustíveis no médio e longo prazo.

 

    

Bioquerosene

Decio Luiz Gazzoni

 

Hoje participo de um seminário sobre biocombustíveis aeronáuticos, em Brasília, promovido pela Embrapa Agroenergia e pela FAPESP. As instituições estão comprometidas com o desenvolvido de biocombustível, que atenda as rigorosas especificações da indústria aeronáutica, a qual exige um combustível de alta qualidade, que opere perfeitamente nas condições rigorosas e adversas da aviação. Em altitude de cruzeiro, um avião comercial enfrenta temperaturas de -50oC e, claro, o combustível precisa atender as especificações para ser queimado na turbina como se estivesse taxiando no aeroporto. Lá em cima, não há acostamento!   Na preleção, salientei que a pesquisa com biocombustível aeronáutico enfrenta dois desafios: a produção sustentável de matéria-prima, em larga escala, e processos para transformar biomassa em bioquerosene, que atendam as especificações. A demanda do combustível aéreo, que foi de 85 bilhões de litros (GL) em 1980, é hoje de 320 GL e estimada em 580 GL, em 2050. Para comparar, todo o biodiesel consumido no mundo, em 2011, custou R$40 bilhões, e o querosene consumido nos aviões R$500 bilhões. Vinte por cento deste mercado vale R$100 bilhões, sendo esta uma boa estimativa de consumo de bioquerosene, no médio prazo.

       

    

O estado da arte tecnológico, o custo industrial e a capacidade de produção de biomassa não permitiriam atender, hoje, essa demanda. Entretanto, dois movimentos concomitantes tornarão este fato possível, em 25 anos. Primeiro, o desenvolvimento tecnológico, tanto da produção de matéria-prima quanto de processos produtivos, utilizando ferramentas biotecnológicas e nanotecnológicas, viabilizarão a produção de bioquerosene, em larga escala, a baixo custo. Segundo, na década de 2030, as vendas de carros, caminhões e ônibus estarão concentradas em veículos elétricos.   Logo, diminuirá a demanda por biocombustíveis para a frota terrestre, aumentando o espaço para produção de bioquerosene. A premissa desta revolução é que, ainda por muitas décadas, os aviões voarão com combustíveis líquidos, ao contrário dos veículos terrestres, que serão movidos a eletricidade. O que muda para o agricultor? As fazendas bioenergéticas produzirão microalgas, ao invés de soja ou milho!

   

    

Agroenergia no Paraná

Decio Luiz Gazzoni

 

 Esta semana o IAPAR realizou o Seminário “Agroenergia no Paraná: Situação Atual e Perspectivas”, um balanço da tecnologia e perspectivas de mercado, objetivando alinhar suas diretrizes e prioridades de pesquisa. A mim coube o tema “Perspectivas da agroenergia no cenário energético brasileiro”, cujos pontos principais compartilho.   O primeiro fato a considerar é a quase impossibilidade de isolar o Paraná do Brasil e este do mundo. As grandes variáveis diretrizes são globais. O mercado de combustíveis fósseis é global. Em breve teremos um grid de eletricidade interligando todos os continentes: a eletricidade gerada no rio Tibagi poderia, em tese, ser consumida na Austrália. E o biodiesel de Rolândia abastecer veículos na Rússia.    O segundo fato é que, até 2050, a demanda global de energia crescerá 80%. Isto não assusta a ninguém, é possível atende-la. A questão é a composição da matriz energética, quanto será a oferta de energia renovável ou de fóssil. A vocação brasileira (e paranaense) é de hidroeletricidade e agroenergia. Mas temos que considerar que energia eólica e fotovoltaica ocuparão espaços crescentes no futuro próximo, por conta de custos altamente competitivos de geração de eletricidade por estas fontes. É o efeito China que, ao investir nelas, confere escala e derruba o custo do investimento em todo o mundo.

              

Os transportes terrestres (automóvel, caminhão, trem) serão, progressivamente, movidos a eletricidade, que será dominante na década de 2030. Portanto, a janela de produção de biocombustíveis deve se estreitar a partir de 2040. O que a manterá aberta serão os biocombustíveis aeronáuticos pois, até onde minha vista alcança, os aviões continuarão voando com combustíveis líquidos (fósseis ou renováveis).   O que fará a diferença - mais ou menos energia renovável na matriz energética - será o dueto inovação tecnológica e políticas públicas. Os impactos ambientais negativos das fontes fósseis pressionarão os Governos a incentivar o uso de energia renovável, o que inclui impulso à geração de tecnologia apropriada. É exatamente nesta equação que se encaixa o IAPAR, como a instituição mór de geração de tecnologia agroenergética no Paraná.

              

    

Apagão logístico

Decio Luiz Gazzoni

 

Conforme as empresas de consultoria privada e os órgãos de governo fazem o ajuste fino da intenção de plantio da próxima safra de grãos, plasma-se a certeza de que, como nunca antes na História deste país, colheremos uma safra recorde. Além dos estoques baixos e demanda em alta, dois fatores conspiram a favor. O primeiro é o fator São Pedro, que promete ajudar com chuva suficiente, vez que as previsões meteorológicas de médio prazo indicam a predominância de El Niño moderado. O segundo fator é o agricultor brasileiro, cada vez mais eficiente, quebrando recordes de produtividade sempre que o clima ajuda.   Mas – y siempre hay um pero! – algo conspira contra. É o custo Brasil (ou nó Brasil, como o alcunhou a presidente Dilma), um conjunto de bigornas que impedem que o Brasil do agronegócio alce voo rumo ao seu verdadeiro potencial. O nó inclui alta tributação, crédito insuficiente, juros que já foram mais altos, câmbio que já foi mais desfavorável e o inferno representado pela infraestrutura de armazenagem e transporte de grãos do Brasil. Vergonha das vergonhas, os portos brasileiros, operando a full, conseguem exportar, no máximo, 4 milhões de toneladas de grãos por mês, 48 Mt por ano. Se produzirmos as 85 Mt de soja esperadas, como vamos exportar mais de 50 Mt que o mundo nos implora? E o milho, cujas exportações se abrem para nosso país?

 

O porto é apenas o fim da linha, é preciso chegar até ele. As hidrovias inexistem, ferrovias são tímidas e precárias, as estradas insuficientes, esburacadas e saturadas. Mas antes de por o grão na estrada, é preciso armazená-lo. A capacidade estática de armazenagem estacionou lá nos idos dos anos 1990. Portanto, outra vergonha nacional será ver o milho armazenado nas ruas, a céu aberto, e a soja em caminhões.   Prepare-se para a manchete dos jornais em fevereiro próximo: primeiro caminhão de soja no porto de Paranaguá, último caminhão da fila no contorno de Curitiba. Tudo isto acontecendo após uma década de queixas, pleitos, alertas, projetos, o PAC 1, o PAC 2 e o que mais o leitor possa imaginar. Parece que vivemos na Frâmbia: Agronegócio melhor que o da França, mas quando o produto sai da porteira, enfrentamos a infraestrutura da Zâmbia.

    

Criações mais eficientes

Decio Luiz Gazzoni

 

Aumentar a produtividade da agricultura confere competitividade e reduz o impacto ambiental e o mesmo pode ser dito sobre os índices zootécnicos. Uma pesquisa recente relacionou o ganho de peso e o consumo de alimentos, utilizando um parâmetro pouco explorado no Brasil, o consumo alimentar residual (CAR). Os resultados da pesquisa podem aumentar a margem do agricultor e diminuir o impacto ambiental.   O CAR é a diferença entre o que o animal efetivamente consumiu e o que deveria comer, calculado por uma equação que relaciona o ganho médio diário, o peso metabólico do animal e a necessidade teórica de alimento para obter aquele ganho de peso. Caso consuma além do esperado, o bovino terá um CAR positivo, significando que ingeriu mais do que precisava para o ganho de peso observado – logo, é menos eficiente. Um CAR negativo indica que o bovino consumiu menos que o esperado, demonstrando eficiência na conversão alimentar.   O CAR pode ser um critério de seleção de reprodutores, gerando um novo padrão de eficiência na criação bovina. Atualmente, os programas de melhoramento genético no Brasil privilegiam os animais maiores, sem levar em consideração a eficiência da relação entre consumo efetivo e ganho de peso. A dúvida é: animal maior é mais eficiente?

 

 

Para responder a questão, os pesquisadores estabularam os bovinos em baias individuais, para medir a quantidade de alimento fornecido e as sobras, em um procedimento diário e contínuo. Entre os resultados obtidos estão diferenças nos extremos de consumo. O animal menos eficiente consumiu, diariamente, cerca de 1,6 quilo de matéria seca a mais que o animal de melhor desempenho, para obter ganho de peso similar. Imagine o ganho na boiada toda, do nascimento ao abate! Imagine o impacto no rebanho brasileiro!   E tem bônus: pesquisas realizadas nos EUA, Canadá e Austrália, concluíram que animais com CAR negativo produzem menor quantidade de metano, um dos principais gases de efeito estufa. A melhoria dos índices zootécnicos, além de tornar a pecuária mais eficiente, também permite liberar áreas de pastagem para a agricultura, reduzindo a expansão da fronteira agrícola e o consequente impacto ambiental negativo.

    

Biodiesel de algas

Décio Luiz Gazzoni

 

A garantia de oferta de matéria-prima de alta qualidade, barata e abundante, é um dos desafios que necessitam ser superados para capturar as oportunidades de crescimento do mercado de biodiesel, no médio prazo. Por esta razão, a cadeia de biodiesel discute constantemente as alternativas de novas matérias-primas que permitam superar, com vantagens, a dependência que hoje o Brasil tem da soja e do sebo bovino, os EUA da soja e a Europa da canola.   Sempre que esta discussão se instala, as microalgas são consideradas como uma das mais promissoras matérias-primas para produção de biocombustíveis, pelo seu potencial de produzir matéria graxa em grande quantidade em pequenas áreas. Além do mais, as microalgas não necessitam de solo fértil, ao contrário, podem utilizar terras marginais ou semiáridas, desde que se disponha de uma fonte de água (subterrânea, por exemplo), que esteja próxima.

       

A produtividade destes microorganismos fotossintéticos para converter dióxido de carbono em lipídios – matéria-prima do biodiesel - excede em muito o de oleaginosas agrícolas, sem competir por terra agricultável. Em cálculos teóricos, as projeções indicam a possibilidade de substituir milhares de hectares de soja, por um único hectare de microalgas, com a mesma produção anual de óleo. Com base nesse potencial e nessa perspectiva, diversos programas de pesquisa estão em andamento em diferentes países, com objetivos similares.   Busca-se identificar as espécies mais produtivas e de mais fácil cultivo, desenvolver a tecnologia de produção para larga escala, identificar e desenvolver um processo eficiente e barato para colheita e extração do óleo das microalgas, assim como aproveitar integralmente da biomassa das algas, rica em produtos de valor nutricional, como ácidos graxos ômega-3.   A escala de tempo para que se possa pensar em produção efetiva de larga escala de biodiesel de microalgas (da ordem de bilhões de litros) é estimada em 10 anos, a qual será impulsionada por ferramentas modernas de biotecnologia, em especial, biologia sintética e nanotecnologia. Com o crescente apelo à sustentabilidade, seguramente teremos no futuro uma nova categoria de agricultores: os algicultores.

 

    

Energia sustentável para todos

Decio Luiz Gazzoni

 

        A Assembléia Geral da ONU declarou 2012 como o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, que visa mobilizar a sociedade global em torno de três objetivos interligados, a serem alcançados até 2030:

a.   garantir acesso universal a serviços energéticos modernos;

b.    duplicar a taxa de melhoria da eficiência energética; e

c.   duplicar a participação da energias renovável na matriz energética global.

 

Uma iniciativa dessa ordem é de sumo interesse para a cadeia produtiva do biodiesel, tanto pelo incentivo ao uso interno do produto, quanto pelas possibilidades que podem surgir no mercado internacional. Porém, a iniciativa ocorre no bojo de movimentos firmes, tanto no aspecto mercadológico – por exemplo, o crescente interesse por biocombustíveis aéreos – quanto tecnológicos – implantação de indústrias de biocombustíveis avançados, como etanol celulósico ou etanol e biodiesel de algas.   O setor precisa estar permanentemente atento a essas mudanças, ampliando sua agenda de atuação, para não perder excelentes oportunidades que estão surgindo. Dialogar com o Governo para que o Brasil apoie entusiasticamente a proposta da ONU é uma das iniciativas meritórias. O incentivo à pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis avançados, em especial aqueles obtidos usando algas como matéria prima, ou valendo-se de microrganismos modificados para produzir sucedâneos a partir de cana-de-açúcar ou outras fontes de biomassa, são prioritários para que o Brasil não perca o trem da História.

 

      

 

Debate na RIO +20

 

Durante a RIO+20, foi organizada, no âmbito do Fórum de Sustentabilidade Empresarial, uma discussão sobre este tema. A sessão reuniu especialistas dos setores público e privado, e o foco da discussão estava assestado no que é necessário para duplicar o market share da energia renovável, atualmente situado em 17% da energia consumida globalmente, conforme o Global Status Report (GSR)[1] de 2012.   O painel concluiu sobre a viabilidade da duplicação da quota de energias renováveis na matriz energética, até 2030, ao mesmo tempo em que é possível aumentar a eficiência energética e garantir o acesso à energia para todos. No entanto, também houve consenso de que o atingimento da meta dependerá, em grande parte, de ações positivas do Governo de cada país.   Mais que isso, os participantes do painel entenderam que o atingimento do objetivo não só contribui para a segurança energética, proteção ambiental e inclusão social, como dinamizará a economia e irá criar prosperidade econômica – auxiliando na reversão da atual crise. Em 2011, US$ 257 bilhões foram investidos em energia renovável no mundo. Este valor é seis vezes maior que o investimento efetuado em 2004 e 94% superior ao investimento em energia renovável em 2007. Em 2011, o setor das energias renováveis empregou mais de 5 milhões de pessoas, em todo o mundo, auxiliando na manutenção de um colchão para atenuar os efeitos da crise.

         

Energia renovável no mundo

 

Paulatinamente, os Governos estão implementando ações de apoio à produção e uso de energia renovável. Em 2011, mais de 118 países haviam exarado políticas públicas e metas de energias renováveis, sendo mais da metade representada por países em desenvolvimento. No bojo da crise que assola o mundo, dois exemplos antagônicos podem ser destacados. Na Espanha, houve o corte retroativo de tarifas feed-in, em 2011, o que é um retrocesso. Por outro lado, desde que a China colocou em prática sua Lei de Energia Renovável (2005), o país tornou-se o líder global em investimento em energia renovável (US$52 bilhões, em 2011) tendo criado algumas das principais empresas de energia renovável do mundo.   Fontes renováveis de energia precisam de igualdade de condições para competir com os combustíveis convencionais. De acordo com o painel realizado na RIO+20, um passo nessa direção seria a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis que distorcem os mercados de energia. Conforme a Agência Internacional de Energia, atualmente cerca de US$630 bilhões são gastos, anualmente, em subsídios aos combustíveis fósseis, comparativamente a US$65 bilhões para suporte à energia renovável. A proposta concreta é a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, e a inclusão das externalidades negativas (como as altas emissões de gases de efeito estufa no ciclo de vida) no preço pago pelo consumidor. Igualmente, foram criticados os países que, como o Brasil, não atualizam os preços dos combustíveis fósseis no varejo, que deveria ocorrer devido à alteração do patamar de preços internacionais da matéria prima (petróleo ou gás).

 

Os números de 2011.

        Em 2011, as fontes fósseis de energia mantiveram seu protagonismo, com participação superior a 80% na oferta final de energia. As fontes renováveis responderam por 16,7%, sendo 8,5% de fontes tradicionais, especialmente lenha. Do total da energia consumida, os biocombustíveis responderam por 0,7% (Tabela 1).

 

Tabela 1. Porcentagem de participação das fontes no consumo global de energia

Fontes

Percentual

Fósseis

80,6

 

Nuclear

2,7

 

Renováveis tradicionais (lenha)

8,5

 

Renováveis modernas

8,2

 

     Aquecimento

 

3,3

     Hidroelétrica

 

3,3

     Eletricidade - Fotovoltaica, eólica e geotérmica

 

0,9

     Biocombustíveis

 

0,7

Fonte: GSR/REN21

 

        De acordo com o Global Status Report, elaborado pelo REN21, em 2011 houve investimentos globais de US$257 bilhões em energia renovável (Tabela 2).

 

Tabela 2. Principais aspectos relativos à Energia Renovável (ER) em 2011, comparativamente a 2009 e 2010.

Especificação

Unidade

2009

2010

2011

Investimento na produção de ER

US$ bilhões

161

 220

 257

Capacidade total instalada (sem Hidroelétrica)

GW

250

 315

 390

Capacidade total instalada (com Hidroelétrica)

GW

1.170

 1.260

 1.360

Capacidade instalada de Hidroelétrica

GW

915

 945

 970

Capacidade instalada de Fotovoltaica

GW

23

 40

 70

Capacidade instalada de Concentrada solar térmica

GW

0,7

 1,3

 1,8

Capacidade instalada de Eólica

GW

159

 198

 238

Capacidade instalada de aquecimento de água

GWt

153

 182

 232

Produção de etanol

GL

73,1

 86,5

 86,1

Produção de biodiesel

GL

17,8

 18,5

 21,4

Países com metas de políticas

número

89

 109

 118

Estados / países / províncias com políticas feed-in

número

82

 86

 92

Estados / países / províncias com políticas RPS/quotas

número

66

 69

 71

Estados / países / províncias com mandatos de biocombustíveis

número

57

 71

 72

    

O segmento de biocombustíveis cresceu 18,3% entre 2009 e 2011. Entretanto, o comportamento foi diferente para etanol, que cresceu 18,4% em 2010 e encolheu 0,4% em 2011, ao passo que o biodiesel cresceu menos em 2009 (3,9%) que em 2011 (15,7%). A produção de biocombustíveis cresceu 50% do incremento verificado para os investimentos globais na produção de energia renovável. O destaque do período é o vertiginoso aumento de 200% na produção de energia elétrica fotovoltaica, com crescimento anual de 75% sobre o ano anterior.   Os países que mais investiram na ampliação da capacidade de produção de energia renovável, em 2011, foram China, EUA, Alemanha, Itália e Índia, pela ordem do volume total de investimentos (Tabela 3). No caso da China, a primeira colocação se deve à liderança absoluta na expansão da geração hidroelétrica e eólica e no aquecimento solar, além da terceira colocação na geração fotovoltaica e na produção de etanol.  

 O Brasil apenas se destacou como terceiro colocado na ampliação da geração hidroelétrica, segundo no aumento da capacidade de produção de bioetanol e quarto em biodiesel. O país que mais investiu na ampliação da capacidade instalada de biodiesel foi os EUA, seguido por Alemanha, Argentina, Brasil e França.

   

 

       

Em termos de capacidade total instalada de geração de energia a partir de fontes renováveis, a China assumiu a liderança em 2011, seguida pelos EUA, Brasil, Canadá e Alemanha (Tabela 4). O peso relativo da energia hidroelétrica é muito alto, razão pela qual os institutos especializados agregam os dados com e sem o cômputo desta fonte, de maneira a destacar os avanços nas fontes de desenvolvimento mais recente. Neste caso, o Brasil é alijado do grupo de cinco países com maior capacidade instalada, sendo substituído pela Itália.   Quando a população do país é considerada, estabelecendo-se um quociente de geração per cápita de energia renovável, o destaque é a Alemanha, com um portfólio diversificado, e a Espanha, com grandes investimentos em geração de energia eólica e fotovoltaica. Seguem, por ordem, a Itália, os EUA e o Japão (Tabela 3).   A geração de grandes quantidades de eletricidade a partir de geração eólica e fotovoltaica é um fenômeno recente, em especial dos últimos cinco anos. O grande desenvolvimento tecnológico conduziu ao aumento do investimento em alguns grandes países. Com isto, criou-se uma escala industrial para os equipamentos de geração, barateando seu custo, que passou a ser competitivo com a geração hidroelétrica.

  

Tabela 3. Países que mais aumentaram o investimento e a capacidade instalada em Energia Renovável, em 2011.

Ordem

Investimento na ampliação

Capacidade Hidroelétrica

Capacidade Fotovoltaica

Capacidade Eólica

Capacidade aquecimento solar

Produção de biodiesel

Produção de etanol

1

China

China

Itália

China

China

EUA

EUA

2

EUA

Vietnam

Alemanha

EUA

Turquia

Alemanha

Brasil

3

Alemanha

Brasil

China

Índia

Alemanha

Argentina

China

4

Itália

Índia

EUA

Alemanha

Índia

Brasil

Canadá

5

Índia

Canadá

França

U.K./Canadá

Itália

França

França

Fonte: GSR 2012 – Ren21

 

Tabela 4. Maiores capacidades instaladas no final de 2011, por fonte de energia renovável.

Ordem

Total, com hidroelétrica

Total, sem hidroelétrica

Total per capita, sem hidroelétrica

Termoelétricas a biomassa

Termoelétrica geotérmica

Hidroelétrica

1

China

China

Alemanha

EUA

EUA

China

2

EUA

EUA

Espanha

Brasil

Filipinas

Brasil

3

Brasil

Alemanha

Itália

Alemanha

Indonésia

EUA

4

Canadá

Espanha

EUA

China

México

Canadá

5

Alemanha

Itália

Japão

Suécia

Itália

Rússia

 

Continuação Tabela 4.

Ordem

Fotovoltaica

Fotovoltaica per capita

Eólica

Aquecimento solar

Aquecimento solar per capita

Aquecimento geotérmico

Uso direto de geotérmica

1

Alemanha

Alemanha

China

China

Chipre

EUA

China

2

Itália

Itália

EUA

Turquia

Israel

China

EUA

3

Japão

Rep. Checa

Alemanha

Alemanha

Áustria

Suécia

Suécia

4

Espanha

Bélgica

Espanha

Japão

Barbados

Alemanha

Turquia

5

EUA

Espanha

India

Brasil

Grécia

Japão

Japão

  


 
Os países que, em 2011, possuíam a maior capacidade instalada de energia eólica eram China, EUA, Alemanha, Espanha e Índia (Tabela 4). As maiores capacidades instaladas de geração fotovoltaica, em 2011, estavam localizadas na Alemanha, Itália, Japão, Espanha e EUA.   Examinando os valores agregados expostos na Tabela 5, verifica-se que o maior impulso de expansão da capacidade instalada mundial ocorreu com energia fotovoltaica, seguida por energia solar concentrada. Entre 2006 e 2011, a indústria do biodiesel expandiu-se, no âmbito mundial, a taxas médias de 27%. A capacidade instalada de etanol retraiu-se em 2011, constituindo-se em fenômeno inédito nos últimos anos.

       

Tabela 5. Taxas médias de crescimento global da capacidade instalada no ano de 2011 e média anual entre 2006 e 2011

Período

PV

Eo

ESC

Geo

Hid

Aqu

Eta

Bio

2011

74

20

35

1

3

27

-0,5

16

2006 a 2011

58

26

37

2

3

17

17

27

PV= Fotovoltaica; Eo= Eólica; ESC= Energia solar concentrada; Geo= Geotérmica; Hid= Hidroelétrica; Aqu= Aquecimento de água e ambientes; Eta= Etanol; Bio= Biodiesel.

 

Empregos

 

        A energia renovável é sempre reconhecida pelos seus impactos ambientais favoráveis. Pouco é comentado sobre sua capacidade de gerar empregos e pequenos negócios. Por sua desconcentração e geração distribuída, o número de empregos por unidade de energia gerada é reconhecidamente superior àquelas verificadas nas cadeias de energia fóssil. Estima-se que cinco milhões de empregos foram ocupados nas diferentes cadeias de energia renovável, em todo o mundo, em 2011, conforme mostrado na Tabela 6.

 

Tabela 6. Empregos na indústria de energia renovável, em escala global.

Fonte

Global

China

Índia

Brasil

EUA

UE

Alemanha

Espanha

Outros

Biomassa

750

266

58

-

152

273

51

14

2

Biocombustíveis

1,500

-

-

889

160

151

23

2

194

Biogás

230

90

85

-

-

53

51

1.4

-

Geotérmica

90

-

-

-

10

53

14

0.6

-

PCH

40

-

12

-

8

16

7

1.6

1

Fotovoltaica

8204

3005

112

-

82

268

111

28

600

Solar concentrada

40

-

-

-

9

-

2

24

-

Aquecimento

900

800

41

-

9

50

12

10

1

Eólica

6704

150

42

14

75

253

101

55

33

Total

5,000

1,606

350

889

505

1,117

372

137

291

Fonte: REN21. OBs.: Os dados relativos à UE incluem Alemanha e Espanha, apesar de esses países também serem apresentados destacadamente.

 

Etanol

 

A produção mundial de etanol combustível decresceu ligeiramente em 2011, pela primeira vez desde 2000, atingindo estimados 86,1 bilhões de litros. Mais de 90% da produção mundial de etanol concentra-se nos Estados Unidos e no Brasil, os quais, em 2011, foram responsáveis por 63% e 24% da produção mundial de etanol, respectivamente, em comparação com 60% e 30% em 2010.   Apesar da redução da produção global, a produção de etanol de milho nos Estados Unidos atingiu um novo recorde, superando 54 bilhões de litros. Este país, que foi um importador líquido de biocombustíveis até 2010, viu suas exportações triplicarem entre 2010 e 2011, quando vendeu ao exterior 4,5 bilhões de litros. Os Estados Unidos aumentaram sua participação no mercado internacional em detrimento da posição do Brasil, que foi líder da exportação mundial de etanol, por muitos anos. Ironicamente, cerca de um terço das exportações norte-americanas fluiu para o Brasil, devido à queda de 18% na produção de etanol entre 2010 e 2011 (de 25,5 para 21 bilhões de litros), apesar do aumento crescente da demanda.

      

       

O declínio dos investimentos em novas plantas, equipamentos e plantações de cana, que permanece desde a crise de 2008, combinado com más colheitas de cana devido à condições climáticas desfavoráveis, emoldurado pelos preços elevados de açúcar no mundo, são as explicações para a perda de ímpeto da produção de etanol combustível no Brasil.   A China firmou-se como terceiro maior produtor mundial de etanol em 2011, com 2,1 bilhões de litros. Em seguida situam-se o Canadá (1,8 bilhões de litros), França (1,1 bilhões), e Alemanha (0,8 bilhões). A África pouco representa na produção mundial, mas aumentou levemente sua produção em 2011, em comparação com 2010.

        

 Biodiesel

 

Em contraste com o etanol, a produção mundial de biodiesel continuou a se expandir, aumentando em quase 16% em 2011, atingindo 21,4 bilhões de litros, em comparação com 18,5 bilhões de litros em 2010. Os Estados Unidos tiveram um ano recorde, com aumento de 159% na produção de biodiesel, chegando a 3,2 bilhões de litros. Como resultado, os EUA ultrapassaram os líderes de 2010 (Alemanha, Brasil, Argentina e França), para se tornar o maior produtor do mundo. O aumento dramático na produção de biodiesel nos Estados Unidos foi devido a um mandato governamental, emitido em meados de 2010, gerando uma demanda total de 3,1 bilhões de litros de biodiesel.   A UE continua a ser o maior produtor regional de biodiesel, mas a sua produção total diminuiu 6%. Em decorrência, sua participação no total mundial caiu de 53% (2010) para 43% (2011). A Alemanha caiu da primeira para a segunda posição no ranking mundial, apesar de aumentar sua produção em 18%, atingindo 3,2 bilhões de litros de biodiesel, similar à produção americana. Na sequência as maiores produções foram da Argentina (2,8 bilhões de litros), que registrou um aumento de 34% sobre 2010; e do Brasil (2,7 bilhões de litros), um aumento de 12%. Já a produção na França caiu de 1,9 bilhões de litros em2010 para 1,6 bilhões de litros em 2011.

       

Biogás

         A utilização de biometano (biogás purificado) vem ganhando espaço no setor de transportes dos países europeus, onde é injetado na rede de gás natural. No final de 2010, de 70.000 ônibus de transporte público movidos a gás natural em operação na Europa, 9.000 (13%) utilizaram biometano. Em 2011, aproximadamente 39.000 veículos a gás na Suécia estavam operando com misturas de biogás e gás natural (teor médio de 60% de biogás).

 

Bioquerosene

 

Companhias aéreas ao redor do mundo têm mostrado interesse crescente em biocombustíveis de aviação, como parte de seu esforço para reduzir os custos de combustível e as emissões de gases de efeito estufa. Em 2011, várias companhias aéreas, incluindo Aeromexico, Finnair, KLM, Lufthansa, Thai Airways, United Airlines e Alaska Airlines começaram a operar voos comerciais usando diferentes proporções de biocombustível no querosene de aviação. Embora a produção comercial de biocombustíveis classificados como avançados tenha sido baixa em 2011, o interesse nesses biocombustíveis está aumentando.   Além do setor aéreo, em dezembro de 2011, a Marinha dos EUA assinou contratos para comprar cerca de 1,7 milhões de litros de biocombustíveis avançados, e planeja substituir 50% de sua demanda de combustíveis fósseis com combustíveis alternativos até 2020, totalizando 2,3 bilhões de litros de biocombustíveis, anualmente.

       

Dinâmica da produção

 

A produção de biocombustíveis continua centrada, principalmente, nos Estados Unidos, Brasil e Europa. Em 2012, os fabricantes de etanol de milho americano estarão operando 209 plantas, com uma capacidade nominal anual de mais de 56 bilhões de litros. Isso representa um aumento de 9%, ou 5,3 bilhões de litros em relação a janeiro de 2011.   No Brasil, em 2011, havia 440 usinas de etanol, com capacidade de 37 bilhões de litros. A capacidade de moagem de cana é de cerca de 620 milhões de toneladas, porém apenas 492 milhões de toneladas foram produzidos em 2011. Diversas empresas vinculadas aos setores de petróleo e gás mostram crescente interesse no setor de biocombustíveis. Por exemplo, a BP, que já tinha uma participação de 50% da Tropical Bioenergia do Brasil (Goiás), adquiriu as ações remanescentes da companhia em 2011. Shell e Cosan, o terceiro maior produtor de etanol no Brasil, fundaram a Raizen, tornando-se a segunda maior distribuidora e varejista após a BR Distribuidora (da Petrobras).

       

 

A capacidade de produção de biodiesel também está se expandindo rapidamente nos Estados Unidos, onde havia 190 plantas de biodiesel, com uma capacidade de produção anual de 11 bilhões de litros, em 2011. Quatorze novas plantas, com uma capacidade de produção de 1,5 bilhão de litros, estão em construção e podem operar a partir de 2012.   Na Europa, a capacidade anual de produção de biodiesel aumentou ligeiramente em 2011, para 25,1 bilhões de litros (ante 24,9 bilhões de litros em 2010). Cerca de 22% da capacidade total localiza-se na Alemanha e 20% na Espanha. A capacidade de produção na Argentina, em 2011, é estimada em 3,8 bilhões de litros, quase 36% de incremento sobre 2010 (2,8 bilhões de litros). Embora tenha produzido menos do que a Argentina, o Brasil apresentava maior capacidade instalada de produção de biodiesel no final de 2011 (70 plantas com 6,5 bilhões de litros).

         

Biocombustíveis avançados

 

A produção comercial de biocombustíveis avançados foi marginal em 2011, com exceção de hidro-tratamento de óleo vegetal (SAV). A indústria de biocombustíveis avançados vivenciou alguns altos e baixos em 2011 e no início de 2012. Por exemplo, a empresa Range Fuels, que tinha recebido financiamento do governo dos EUA, foi incapaz de superar obstáculos técnicos e de negócios para produção de etanol a partir de madeira, e fechou a planta, localizada no estado da Georgia[2]. Também a Choren Industries GmbH (Alemanha) teve a insolvência declarada pela justiça, e a tecnologia que desenvolveu para produzir biocombustíveis utilizando a rota biomassa para líquido (BTL) foi adquirida pela Linde Engenharia de Dresden, uma subsidiária do Linde Group[3].   No lado positivo, as ações da Solazyme Inc. começaram a ser negociadas com sucesso na Nasdaq, e a empresa concluiu um acordo com a Dow Chemical para produzir 200 milhões de litros anuais de óleo obtido de algas, a ser usado em transformadores elétricos[4]. Plantas de etanol celulósico, com capacidade total de 120 milhões de litros, tiveram a construção iniciada no final de 2011, na Itália (50 GL) e nos Estados Unidos (70 GL)[5]. Especulações de mercado indicam que a Shell estaria construindo uma planta piloto para produzir etanol avançado no Texas[6].   Outro empreendimento envolve nove parceiros de seis países europeus e de Israel, que fundaram a The BIOfuel From Algae Technologies (BIOFAT), financiado em grande parte pela Comissão Europeia (CE), com o objetivo de produzir etanol e biodiesel a partir de algas, já em 2013[7]. Finalmente, uma ação conjunta de companhias aéreas e indústrias de biocombustíveis, com o apoio da União Europeia, lançou a iniciativa "European Advanced Biofuels Flightpath", objetivando acelerar a produção e comercialização de biocombustíveis para aviação.

       

Conclusões 

        A iniciativa da ONU, declarando 2012 como o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, de per se não representa um impacto direto no aumento da produção e no uso de energias renováveis no mundo, incluindo biocombustíveis. Para que ocorram repercussões práticas, é necessário que cada país contribua com ações positivas, especialmente políticas públicas de fomento e incentivo ao uso de energia renovável. Também é assaz importante o investimento no desenvolvimento de inovações, posto que o mercado, progressivamente, se dirige para segmentos como biocombustíveis avançados e bioquerosene, com potencial de demanda muito superior ao atual, em virtude das políticas públicas e da pressão social.

 

        As oportunidades estão se plasmando em velocidade, e a atuação conjunta do setor e de órgãos governamentais serão essenciais para que

 

[1] www.ren21.net

[2] http://news.cnet.com/8301-11128_3-57336540-54/

[3] http://www.renewablesinternational.net/linde-buys-chorens-carbo-v-technology/150/453/33097/

[4] http://solazyme.com/media/2011-03-09

[5] http://www.biofuelstp.eu/cell_ethanol.html#crescentino;

 http://hayandforage.com/biofuels/abengoa-cellulosic-ethanol-plant-0921

[6] http://www.biofuelsdigest.com/bdigest/2012/02/28/shell-busts-a-move-builds-drop-in-biofuels-pilot-plant-in-texas/

[7] http://www.biofuelsdigest.com/bdigest/2011/05/25/the-biofuel-from-algae-technologies-project-launches-in-eu/

    

Os rumos da produção global de grãos

Decio Luiz Gazzoni

 

 

Em apresentação efetuada no VIII Congresso Brasileiro de Soja, que congregou mais de 2.000 participantes em Cuiabá, alertamos para um aspecto que se nos afigura crucial quando perscrutamos o futuro do agronegócio. Trata-se dos fatores que modulam a demanda de produtos agrícolas, sendo os principais os demográficos (população, esperança de vida e estrutura etária), os econômicos (crescimento do PIB, da renda per capita e inflação), os sociais (inclusão social e mudança de hábitos) e os tecnológicos (inovações de produtos concorrentes ou que viabilizam novos usos, produtividade e redução de custos de produção). Em nossa tese, esse conjunto de fatores tem importância capital até a década de 2050, e alguns deles até decrescem de importância a partir daquela data.

         Fundamentamos a afirmativa nos seguintes aspectos:

 

 

a.   Conforme os institutos que prospectam o comportamento da curva populacional do planeta, até 2050 teremos crescimento positivo da população, embora com incrementos decrescentes a cada ano. Na década de 2050 a população tende a estabilizar-se, para diminuir progressivamente rumo ao fim do século;   b.   A expectativa para os próximos anos é a sequência de ciclos típicos do capitalismo, com períodos longos de crescimento econômico sustentável, com expansão do PIB global a altas taxas, entremeados por interstícios de baixo crescimento. Crises profundas, como a que vivenciamos no momento, são eventos raros, que não devem tornar a ocorrer antes de 2050;  

c.   c. A legião de pessoas com insegurança alimentar é estimada pela FAO em um bilhão de pessoas. A redução do crescimento populacional, associada aos ganhos de produtividade agrícola e ao incremento da renda per capita, permite inferir que, em 2050, o contingente de famélicos será friccional e conjuntural, deixando de ter a importância estrutural que possui hoje;

  d.   Após 2050 a economia da maioria dos países estará amadurecida, com pouco espaço para crescimento adicional de consumo de produtos agrícolas, relacionadas ao aumento da renda per capita.

 

 

 

 

 

Aceitas as premissas, a tese que queremos demonstrar é que o pico da demanda agregada de produtos agrícolas ocorrerá na década de 2050. Portanto, o farol da inteligência estratégica precisa iluminar o caminho até aquela década. A partir dela, muda a importância relativa entre os fatores de competitividade, afetando a relação de equilíbrio entre os players do mercado.

 

 

 

Corolário

  Os países que estabelecerem uma agropecuária sólida, sustentável, bem fundamentada, e que se tornarem atores chaves no comércio internacional de produtos agrícolas até 2050, estarão em melhores condições de competir por um mercado que se estreitará em quantidade, mas que se tornará cada vez mais exigente em qualidade. A disputa do mercado internacional de produtos agrícolas, pós 2050, se dará entre os países que liderarem o mercado até aquela década, os demais dificilmente ingressarão em um mercado que se contrairá de forma inexorável.

Entrementes, cabem três considerações importantes sobre o exposto acima:

 

 

 

a. Cada país buscará capturar a maior parcela possível do mercado interno para sua própria produção, por razões econômicas e sociais, mas principalmente por questões de soberania e segurança alimentar;

 

b.  Quando o esforço para a África tornar-se um grande continente produtor agrícola estiver amadurecendo – o que demandará, no mínimo, 30 anos – a produção agrícola mundial tenderá a estabilizar-se, fechando o espaço para novos atores de grande escala. Nesta condição, a produção agrícola da África estará mais voltada para seu mercado doméstico que para atender as demandas globais, e competir no mercado internacional – a menos que seus custos sejam muito inferiores aos dos competidores;

 

c. Nunca devemos menosprezar os break-throughs tecnológicos. A Ciência tem sido pródiga em derrubar paradigmas produtivos, revolucionando o mercado com novas tecnologias, o que realinha, de uma forma não imaginada até então, a paridade competitiva entre os produtores.

 

Inovação tecnológica  

O item (c) acima é o mais polêmico, porém basta lembrar como os antigos relógios suíços foram destroçados pelos digitais; a indústria de filmes fotográficos foi engolfada pelas câmeras digitais; e a telefonia fixa sucumbiu aos celulares e as redes de Wi-Fi sepultarão os celulares. Durante o Congresso de Soja assim sintetizamos a questão “Quando muda o paradigma tecnológico não interessa quão competitivo alguém era no paradigma anterior, pois tudo volta à estaca zero e o jogo recomeça”.   O que isto tem a ver com agricultura? Especulemos com dois temas. O primeiro trata do adensamento produtivo e energético, do qual o cultivo de microalgas é o melhor exemplo. Equacionados os entraves dos sistemas de produção (o que pode demorar 10-15 anos), as algas poderiam, paulatinamente, deslocar a produção de amidos, óleos e proteínas, com enormes vantagens, pois um hectare de algas, ao longo de um ano, pode substituir até uma centena de hectares de cultivos agrícolas tradicionais. Essa modificação traria enorme impacto na competitividade relativa entre os países produtores de commodities.   O segundo tema sobre o qual especulamos no Congresso é a fotossíntese artificial. Cientistas são insaciáveis por natureza, sempre buscam romper a fronteira do conhecimento. Um tema muito investigado atualmente é a substituição das plantas (a fotossíntese) por engenhocas químicas, que permitiriam aproveitar a radiação solar como fonte de energia para sintetizar inúmeros produtos. Países que hoje possuem uma janela de cultivo curta (4 a 5 meses), poderiam estendê-la para 12 meses, com luz artificial ou natural, conquanto aquelas engenhocas são quase insensíveis às baixas temperaturas e ao fotoperíodo. Escusado justificar como uma inovação desta ordem é uma ameaça a qualquer grande ator do mercado internacional de produtos agrícolas.

        Portanto, vale uma vez mais o alerta sempre atual: a competitividade futura de um país está na razão direta do investimento em Pesquisa e Desenvolvimento da atualidade.

     

Maior produtor de soja

Decio Luiz Gazzoni

 

Em junho de 2012, no VI Congresso Brasileiro de Soja, tracei um cenário então otimista: até 2015 o Brasil seria o maior produtor de soja do mundo. À época, a soja americana, plantada há cerca de 30 dias, media um palmo de altura. Nada indicava que, como quase nunca antes na História daquele país, uma seca arrasaria o Meio Oeste americano, dizimando lavouras de milho e soja.   De acordo com a projeção de agosto do USDA, a safra de soja americana será 12% menor que o previsto, colhendo 73 milhões de toneladas (Mt). Os rumores de mercado apontam que, no Brasil, poderemos semear 28 milhões de hectares de soja. Como as previsões meteorológicas indicam a ocorrência de El Niño moderado, a oferta hídrica será adequada, permitindo repetir a produtividade da safra 2010/11 (3.115 kg/ha), o que projetaria a produção brasileira para 87 Mt. Se considerarmos ter havido um ganho de produtividade de 2% ao ano, conforme a série histórica anterior, a produção poderia ser ainda maior.   Não se trata de mero evento conjuntural. Por uma frustração de safra brasileira no curto prazo, pode ser que os EUA tornem a liderar a produção mundial. Entretanto, no médio prazo, o Brasil está “condenado” a ser o líder da produção de soja. Esta liderança depende apenas de nós, e se consolidará se resolvermos alguns desafios.

 

Desafios

      

 O primeiro desafio: produzir cada vez melhor, com sustentabilidade. E a melhor maneira é produzir mais na mesma área, como apontam os Desafios CESB de Máxima Produtividade de Soja (www.desafiosoja.com.br), que também demonstram que altas produtividades estão associadas ao maior lucro do produtor. A alta produtividade necessita ser obtida com tecnologia adequada, e respeito às legislações ambiental e trabalhista. Será com produção sustentável que vamos pavimentar o caminho para consolidação do protagonismo brasileiro no agronegócio internacional. Para tanto, investimentos elevados e contínuos em geração e transferência de tecnologias são fundamentais.   O segundo desafio é a agroindustrialização, com políticas públicas de incentivo, incluindo o desenvolvimento tecnológico. A agregação de valor é perseguida por qualquer país, produtor ou consumidor. O Brasil precisará valorizar sua condição de maior produtor mundial para impor, gradativamente, percentuais maiores de exportações com alto valor agregado.

 

 

O terceiro e maior desafio é resolver o custo Brasil.        Corremos o risco de um apagão logístico, na colheita da presente safra, com milho armazenado ao relento e a soja em caminhões, em filas de dezenas de quilômetros nos portos. A logística de armazenamento e a infraestrutura de transporte brasileiras são arcaicas e anacrônicas, divorciadas de nosso agronegócio pujante. O transporte é caro e ineficiente e os portos são desaparelhados e subdimensionados. Praticamente não existem hidrovias, a malha ferroviária é tão limitada que sequer chega a competir com o transporte rodoviário. Em decorrência, nas regiões de topografia, solo e clima mais promissores, os produtores perdem parcela ponderável de sua competitividade pelo subdimensionamento da armazenagem e a ineficiência do transporte.

  Embora tardiamente, a Presidente Dilma lançou, em agosto, um pacote de investimentos privados para adequar a infraestrutura às necessidades do país, desatando o que qualificou como “nó Brasil”, outrora denominado “custo Brasil”. Serão 50.000 km de rodovias, 12.000 km de ferrovias, portos e aeroportos que serão construídos e geridos pela iniciativa privada, para equacionar parte do problema logístico ainda nesta década. Falta atacar a sanha tributária, o câmbio adequado a segurança jurídica dos contratos e a integridade patrimonial. O resto o produtor sabe fazer.

         

    

Considerações sobre a próxima safra

Decio Luiz Gazzoni

 

       

A próxima safra marcará uma inflexão na inserção do Brasil no mercado agrícola internacional, especialmente no setor de grãos. O Brasil passa a ser o maior produtor e exportador mundial de soja, e se alinha entre os maiores consumidores e exportadores de milho.   As últimas cinco safras mundiais não foram particularmente boas, no sentido de atender a demanda e de manter estoques de passagem seguros. Particularmente os estoques de grãos estavam baixos, e os altos preços das comodities agrícolas indicavam um descompasso entre oferta e demanda de produtos agrícolas. Este quadro pouco alvissareiro foi emoldurado primeiro por uma seca que atingiu o sul do Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Argentina; e, mais recentemente, por uma seca nunca antes registrada na História dos EUA, que devastou o dueto milho e soja.

Mercado favorável

   

 

A conjunção entre demanda não atendida, estoques baixos e limitações de outros países produtores, configura um momento ímpar para o Brasil ampliar seu espaço no mercado internacional de alimentos, com desdobramento para outros produtos agrícolas, como fibras, agroenergia, frutas e hortaliças, carnes, flores e plantas ornamentais, e produtos florestais.

 A Tabela 1 mostra a previsão para produção, consumo exportação e estoques de passagem de soja, para a safra 2012/13. A Tabela 2 apresenta as previsões para o milho, na mesma safra.

 

    

 

Tabela 1. Soja no Brasil e no mundo (em Mt)

País

Produção

Consumo

Exportação

Estoques

Brasil

88

40

48

16

EUA

73

44

30

3

Argentina

56

40

14

20

China

13

75

-62

12

Mundo

268

257

99

53

Fontes: USDA e análises próprias.

 

Tabela 2. Milho no Brasil e no mundo (em Mt)

País

Produção

Consumo

Exportação

Estoques

Brasil

74

56

14

17

EUA

274

252

33

17

China

200

201

-

60

União Europeia

65

66

-

4

Mundo

857

858

93

123

Fontes: USDA e análises próprias.

 

Atores globais

       

 Os principais players, no tocante à produção, consumo, exportação e estoques da soja, são Brasil, EUA, Argentina e China. No caso do milho as maiores produções estarão nos EUA, China, Brasil e EU, onde também se localizam os maiores consumos. Entretanto, a Ucrânia assume o posto de quarto maior exportador mundial, praticamente igualando a exportação de todos os demais países, abaixo da quinta posição, com exportações de 13 Mt.   Os estoques de milho estarão 9% mais baixos ao final da safra 2012/13, em relação aos atuais, devido à frustração da safra norte-americana. No caso de soja é prevista uma elevação de apenas 1% nos estoques de passagem. Esse aumento se baseia na expectativa de uma produção recorde do Mercosul, e nos altos preços da soja, que inibem a expansão da demanda. Este quadro mantém firmes os preços para as duas próximas safras, embora abaixo do presente patamar. Entretanto, intercorrências climáticas, especialmente nova seca na América Latina ou nos EUA elevarão os preços acima dos patamares previstos, e estenderão o período de preços altos. Outro fator que pode elevar os preços é a retomada do crescimento mundial, especialmente na Europa, aquecendo a demanda de produtos agrícolas.

Sustentabilidade

       

 

A inflexão na produção de grãos no Brasil nos coloca sob os holofotes mundiais. Como nunca antes na Historia deste país, mais do que ser sustentável, nossa produção agrícola precisará demonstrar a sua sustentabilidade, para evitar a imposição de barreiras técnicas no mercado internacional. Produção sustentável se lastreia em aumento da produtividade para reduzir a expansão da área agrícola. Entrementes, essa expansão deverá ocorrer com o uso de tecnologia adequada, com remuneração compatível, e respeito à legislação ambiental e trabalhista. Precisamos ter em mente que não se trata, simplesmente, de uma atitude oportunista, de aproveitar uma conjuntura favorável do mercado, mas de conferir um impulso permanente de ocupação de espaços no mercado internacional de produtos agrícolas.

 

 

    

Canola e biodiesel

Decio Luiz Gazzoni

 

1.       Sumário executivo 

O aumento da demanda de biodiesel no mundo tem impulsionado a expansão da produção de óleos vegetais, sendo beneficiados os cultivos com mais vantagens comparativas em cada país ou continente. Uma das vantagens da canola é o fato de tratar-se de excelente cultura para rotação, que proporciona benefícios tanto econômicos como ambientais para o conjunto dos sistemas de produção agrícola.   A expansão do cultivo de canola permite a otimização do uso dos fatores de produção (terra, máquinas, mão-de-obra, etc.) nos sistema de produção de grãos, e melhorias no desempenho da produção de trigo ou outras culturas de inverno, e não a sua substituição, mesmo porque o cultivo continuado de canola, na mesma área, também não é desejável.   É relevante salientar que a cultura da canola, mesmo que o seu cultivo apresente forte incremento, não acarretará necessidade de expansão da área agrícola no Brasil, pela existência de áreas já agricultáveis que permanecem ociosas nestas regiões durante parte do ano. Como exemplo, cita-se o Rio Grande do Sul, onde as culturas de soja e milho juntas ocupam, aproximadamente, 5 milhões de hectares no verão; já no inverno são cultivados somente 1,8 milhão de hectares, entre trigo e outros cereais. Esta área subaproveitada poderia ser utilizada para produzir canola, seja para a produção de alimentos ou para bioenergia, sem a necessidade de abertura de novas áreas de exploração agrícola e seu consequente impacto no meio-ambiente.

       

 

 

Embora seja de uso corrente no Hemisfério Norte, cultivares transgênicas tolerantes a herbicidas não foram introduzidas na América do Sul. Assim, a canola produzida no Brasil e países vizinhos poderá desfrutar de benefícios em mercados, como o europeu que possui determinadas restrições a OGMs.   As perspectivas para os próximos 10-15 anos, considerando o presente cenário de negócios e de avanços tecnológicos, indicam oportunidades e desafios para a expansão da produção mundial de canola. A percepção internacional, no cenário convencional, é que a expansão da produção de canola será limitada pelo consumo elevado de água, emissão de N2O e pelo custo dos insumos. Entretanto, as experiências no Brasil demonstram que a canola, principalmente por seu sistema radicular mais profundo que outros cultivos de safrinha, consegue produzir em regiões onde outros cultivos se mostraram inviáveis, sem incorrer nas limitações acima mencionadas.   No cenário de avanço tecnológico, a tecnologia transgênica (que não se utiliza na América do Sul), vai desempenhar um papel importante na melhoria da resistência da canola a insetos e doenças e no aumento da eficiência de utilização de nutrientes. Um desafio está na tecnologia de biodiesel à base de algas, que poderá ser mais rentável se comparada ao biodiesel de canola. Entretanto, enquanto a tecnologia e os meios para produção de canola são uma realidade atual, a produção de biodiesel de algas depende do desenvolvimento de sistemas de produção técnica e economicamente viáveis.

 

2.       Introdução 

A conscientização acerca do impacto das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis sobre a mudança do clima motivou o aumento da demanda por biocombustíveis, como fonte alternativa de energia na Europa.   Globalmente, a produção e o consumo de biocombustíveis se concentram nos EUA, Brasil e Europa, mas com ênfases diferentes. O etanol produzido de milho (Zea mays L.) é o biocombustível mais importante nos EUA, enquanto o biodiesel de óleo vegetal, principalmente de óleo de canola, é predominante na União Europeia (EU-27). O biodiesel de óleo de soja (Glycine max Merrill) é um produto comum aos EUA e ao Brasil, e aqui nosso bioetanol vem da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum).   O Velho Continente não se caracteriza como uma região de produção agrícola em larga escala. Assim, o surgimento da demanda por biocombustíveis implicou em aumento correspondente da demanda por biomassa, acirrando a disputa pelas parcas áreas agrícolas disponíveis. A Europa se vale de cereais e da beterraba açucareira para produção de etanol. Para obter biodiesel, a grande opção de produção de matéria prima local tem sido “Oilseed Rape”, ou colza, conhecida nas Américas como canola (Brassica napus L.).

 

Figura 1. Campo de Canola

 

Figura 2. Flor de Canola

 

Figura 3. Grãos de canola

 

A experiência de produção de canola no Brasil iniciou em 1974, no Rio Grande do Sul, mas poucos produtores brasileiros possuem tradição de produção extensiva de canola. O Programa de Produção e Uso de Biodiesel constitui uma nova oportunidade para estabelecer o seu cultivo de forma extensiva no país, já existindo várias iniciativas de sucesso no fomento à produção de canola. Esta revisão fornece uma visão abrangente da canola como matéria-prima para produção de biodiesel na Europa e, em alguns casos, com referência ao seu cultivo no Canadá.

 

A canola é uma das principais oleaginosas do mundo com a maior produção na China, Canadá, Austrália e Europa (Friedt & Obermeier, 2011), conforme mostrado na Figura 4. É o principal cultivo do Canadá, gerando mais de CDN$ 15 bilhões em atividade econômica por ano, sendo responsável por 228.000 empregos.

 

 

      Figura 4. Produção de canola no mundo.

 

 

Figura 5. Produção de biodiesel na União Europeia

 

A importância da canola está crescendo mundialmente em relação a outros cultivos devido ao maior teor de óleo (36 a 50%), aos maiores rendimentos, preços favoráveis e margens de lucro atraentes (Wang et al, 2011; Mielke, 2011). Nos últimos 20-30 anos passou de um óleo industrial pouco expressivo e marginal a um produto “premium” altamente valorizado (Kuel & Hart, 2011).  

O óleo de canola tem crescido em importância como insumo para a expansão da produção de biocombustível, absorvendo 7 Mt, quase 70% do consumo de óleo de canola na UE-27, em 2010 (Mielke, 2011). Em função do aumento de demanda interna a UE, além do incremento da produção local (Figuras 5 e 6), deve aumentar a importação de grãos e óleo nos próximos anos. O preço atingiu o recorde de 520/t de grãos, em janeiro de 2011. Na UE, mais de 75% do biodiesel é produzido a partir de óleo de  canola.

 

 

Figura 6. Produção de biodiesel em países da União Europeia.

 

Por mudanças no marco normativo de importação da UE-27, houve uma reconfiguração no elenco de países exportadores de biodiesel entre 2010 e 2011 (Figuras 7 e 8). Devido à sua capacidade de produção de matéria prima e de processamento de biodiesel, o Brasil poderia disputar este mercado, desde que outros problemas não técnicos ligados à exportação, mormente cambiais, tributários e de infraestrutura, sejam devidamente equacionados.  

Figura 7. Importação de biodiesel pela UE-27, em 2010.

Figura 8. Importação de biodiesel pela UE-27, em 2011.

 

       

Figura 9. Produção de biodiesel no mundo, no Brasil e na Argentina.

  Uma análise das políticas públicas com mandato compulsório de misturas indica uma demanda de, aproximadamente, 35 Mt/ano, muito superior à produção atual do mundo (Figura 9).

Este é outro argumento poderoso para solucionar os entraves à exportação de biodiesel pelo Brasil, permitindo que o país possa participar de um mercado que se afigura aberto e remunerador, posto que sua produção é similar à Argentina, grande exportador para a UE, apesar da maior demanda do mercado doméstico brasileiro (Figura 10).

 

 

 

Figura 10. Projeção da demanda de biodiesel no Brasil.

 

Conjunturalmente, não pode ser olvidado que as diversas investidas do Governo argentino contra as regras de livre comércio[1], além da desapropriação da REPSOL espanhola, estão gerando represálias às exportações argentinas.

 

É possível perceber que o Brasil se encontra no estado da arte da produtividade mundial de soja (Figura 11), muito acima dela no que tange a algodão, porém abaixo da média mundial de girassol, canola, amendoim e mamona. No caso da canola, a produtividade obtida pelo Brasil, na década passada, equivale a, aproximadamente, 60% da produtividade mundial. Este fato não deixa de ser um alento, pois demonstra que ainda temos, no mínimo, um espaço de crescimento na produtividade de canola de 40%, utilizando tecnologias já desenvolvidas, para atingir o patamar de outros países.

 

 

Figura 11. Percentual da produtividade obtida por uma cultura no Brasil, em relação à média mundial da mesma cultura.

 

Em termos de balanço de oferta e demanda de cada país grande produtor de canola, na China, toda a produção de canola é usada para consumo humano, doméstico ou industrial, no mercado doméstico. Aproximadamente 30% da canola produzida na UE-27 são usados internamente para fins nutricionais, sendo o restante usado para produção de biodiesel, especialmente na Alemanha e na França. No Canadá, as oleaginosas são produzidas visando principalmente o mercado de exportação, contribuindo com CAD$ 15 bilhões anualmente para a economia canadense.   O crescimento da demanda global de óleo vegetal tanto para usos alimentares, quanto energéticos e para a oleoquímica, continuará impulsionando o cultivo de oleaginosas no mundo, entre elas o de canola. A oferta de óleos visa a atender o conjunto da demanda, deixando por conta do mercado a destinação de cada óleo específico (soja, canola, girassol ou palma) para as diferentes finalidades.   A recente disparada da cotação da soja indica, uma vez mais, a necessidade de diversificação da produção de oleaginosas que tenham a dupla vocação de produzir óleo e farelo, caso do girassol e da canola, como sucedâneos da soja. Como tal, resulta necessário discutir alguns aspectos do cultivo de canola, à luz da sustentabilidade do sistema para produção de biodiesel, em especial se considerarmos as oportunidades de exportação.

 

3. Situação atual 

Aparentemente as questões agronômicas não têm muito a ver com a produção de biocombustíveis. Ocorre que, cada vez mais, questões técnicas, ambientais, sociais são esgrimidas para estabelecer o grau de sustentabilidade dos biocombustíveis. Portanto, detalhes do sistema de produção podem fazer muita diferença quando se busca inserir uma matéria prima na cadeia de biocombustíveis.   Por exemplo, os benefícios de incluir a canola em rotação de culturas são reconhecidos, em especial onde alternativas para culturas de rotação são limitadas, como é o caso dos países frios do Hemisfério Norte. Entretanto, aqui, no Brasil este fato também é muito importantes, seja para ocupação da área não utilizada durante o inverno, ou para promover a melhoria do perfil do solo, que beneficia todo o sistema de produção, tanto com ganhos de produtividade, quanto com redução de custos de produção, pela reciclagem de nutrientes.

 

3.1– Canola no sistema de produção 

Como regra geral, o uso de canola como cultura de rotação aumenta o rendimento de todas as demais culturas e reduz a incidência de doenças e de insetos-praga. Um exemplo é a supressão da doença do mal–do-pé do trigo, ocasionada pelo fungo Gaeumannomyces graminis var. tritici, quando a canola é introduzida em rotações dominadas por leguminosas e gramíneas, como no binômio soja e trigo, comuns no sul do Brasil.   No Canadá, com a introdução da canola nos sistemas de produção de grãos, o controle de plantas daninhas foi simplificado, contribuindo na redução da erosão do solo e no aumento do conteúdo de matéria orgânica do solo. Além de melhorar a fertilidade do solo, o aumento da matéria orgânica significa sequestro e imobilização do Carbono no solo, contribuindo para reduzir a sua concentração na atmosfera.

 

 

De acordo com o Dr. Gilberto Tomm, pesquisador da Embrapa Trigo, estudos realizados em propriedades do Sul do Brasil, mostraram que a produção de canola em sistema de plantio direto, em sucessão à cultura da soja, tem efeito positivo na qualidade do solo, na biodiversidade e na recuperação ambiental. O desempenho socioambiental beneficiou-se com a introdução da cultura no sistema, com impactos positivos para praticamente todos os critérios e para a maioria dos indicadores, destacando-se a capacitação dos produtores, a geração de renda e a segurança alimentar. Além disto, evidenciou o adequado manejo dos sistemas produtivos adotados na produção de canola.   Os resíduos do cultivo de canola contém glucosinolatos, que produz isotiocianatos durante a sua degradação no solo, sendo estes compostos letais para muitos organismos patogênicos presentes no solo, e que atacam as culturas. Devido a isso, os resíduos de cultivo de canola são reconhecidamente eficientes para suprimir a sarna preta da batata, causada por Rhizoctonia sp.   Um alerta perpassa as referencias ao uso de canola como uma cultura de rotação: é o controle das plantas voluntárias em lavouras subsequentes, como resultado da germinação de sementes que caem ao solo no momento da colheita. O problema é agravado no caso de canola resistente ao glifosato.

 

         3.2– Canola transgênica 

O cultivo da canola geneticamente modificada, resistente ao glifosato, tem se expandido rapidamente, primeiro no oeste do Canadá e depois pelo resto do mundo, desde que foi introduzida no mercado, em 1995. Globalmente, estima-se que o benefício econômico de cultivo de canola GM alcançou US$93 milhões, entre 1995 e 2005[2]. Uma importante contribuição para esse benefício econômico é a redução de uso de herbicidas, que também é considerado como um grande benefício ambiental. Apesar da rápida adoção de canola GM, existem algumas preocupações ambientais relativas ao cultivo de canola transgênica – de resto comum a outros cultivos com as mesmas características, como soja ou milho. Essas preocupações são as plantas GM voluntárias; o desenvolvimento de plantas invasoras resistentes ao glifosato; o efeito sobre microrganismos do solo; e a eventual interferência na absorção de nutrientes do solo.   O Brasil e outros países da América do Sul não utilizam variedades transgênicas de canola, embora em outros países, sobretudo no Canadá e nos Estados Unidos, os agricultores utilizem variedades e híbridos de canola transgênica na maioria das lavouras. A tecnologia de canola transgênica para resistência a herbicidas não é, e não deverá ser empregada no Brasil, Argentina e Paraguai, principalmente pelo risco de cruzamento com várias espécies de crucíferas nativas ou plantas voluntárias de espécies cultivadas como a nabiça e o nabo forrageiro. Existe potencial risco de cruzamento com a canola, a qual apresenta taxa de fecundação cruzada superior a 20% (Hall et al., 2000).

 

3.3– Canola e plantio direto 

  No Brasil, a canola é cultivada exclusivamente no sistema de plantio direto, o que constitui vantagem competitiva, econômica e ambiental muito importante em relação aos grandes produtores mundiais da cultura, como China, Europa e Índia, os quais, na maioria das áreas, cultivam a canola em sistemas de manejo com revolvimento do solo. A vantagem econômica do SPD se dá no menor uso de combustíveis fósseis, como óleo diesel, devido ao menor trânsito de máquinas na lavoura em função do menor número de operações agrícolas e pela maior largura de operação de pulverizadores, em comparação com arados e grades empregados no preparo de solo; bem como pelo menor impacto ambiental através da menor exposição da lavoura à erosão, maior retenção de água no solo e menor perda de nutrientes que, no longo prazo, reduz a demanda de determinados fertilizantes.  

 

       3.4– Canola e a melhoria do perfil do solo 

Por pertencer à família das crucíferas, a planta de canola possui um caule ereto com raiz pivotante, com grande número de raízes secundárias fasciculadas, que favorecem a descompactação natural das áreas em que é cultivada, por se aprofundar mesmo em solos compactados. A raiz pivotante da canola também favorece a cultura, por explorar maior volume de solo agrícola, e por atingir camadas mais profundas do solo, permitindo a reciclagem de nutrientes que estão abaixo da profundidade explorada por outros cultivos agrícolas.  

Essas características tornam a canola muito mais eficiente no aproveitamento de nutrientes minerais e, sobretudo de água, do que outros cultivos de cereais, como o milho e o trigo. A melhoria do perfil do solo também permite melhoria da sua capacidade de armazenagem de água, reduzindo o impacto de estiagens durante o cultivo da canola ou outras culturas em rotação ou sucessão.

 

Além do benefício direto ao produtor, o menor uso de agrotóxicos contribui para melhorar osíndices de sustentabilidade do sistema, pois acarreta em menor custo, redução do impacto na biodiversidade e diminuição das emissões de gases de efeito estufa devidas à produção de agrotóxicos. 

A canola também pode ser utilizada como uma cultura de cobertura de inverno para reduzir a lixiviação de nutrientes mais solúveis; para mobilizar o fósforo e potássio do solo, que são de mais difícil acesso por outras culturas; para melhor a eficiência global do uso da água do solo onde é esta limitada; e para melhorar a estrutura do solo, incluindo a sua porosidade e agregados do solo.

  

4. Perspectiva de futuro 

A demanda por biodiesel nos EUA, na UE e na Ásia vai continuar a aumentar, ao menos até a década de 2030. O aumento da demanda de biodiesel será impulsionado, principalmente, pela pressão para reduzir as emissões de CO2, pelo aumento de custo do petróleo e pela redução do tamanho de suas reservas.   Para conferir magnitude à análise, em 2005, a UE-27 produziu 1,5 Mt de biodiesel, representando 2% do consumo de combustíveis para transporte; em 2011, a produção foi pouco superior a 7 Mt, situando-se em torno de 3% da oferta de combustível. Considerando a diretiva que impõe a proporção mínima de 10% biocombustíveis no total do combustível de transporte na UE-27, em 2020, um aumento significativo na produção (ou importação) de biodiesel será necessário, pois a estimativa é de uma demanda superior a 24 Mt de biodiesel. Como a especificação do biodiesel para uso na UE claramente privilegia o uso de óleo de canola[3], seria de todo conveniente atentar para este aspecto técnico-regulatório, como forma de facilitar a inserção mercadológica para exportação.   A leitura de análises correntes sobre as perspectivas do cultivo de canola para finalidades energéticas permite agrupá-las em dois grandes cenários: um deles seria o convencional (business as usual) e outro prevendo rupturas, especialmente aquelas baseadas em inovações tecnológicas.

 

4.1- Cenário convencional 

Se forem utilizadas as tecnologias de produção atuais para satisfazer a demanda de biodiesel mundial, será necessário expandir a área cultivada, inclusive de canola. Como o incentivo dos Governos à adoção de biocombustíveis passa por momentos de alta e de baixa, a expansão da área cultivada de canola não será linear e também irá passar por altos e baixos nos próximos 10-15 anos. A área disponível para expansão da canola, considerando seus requerimentos edafoclimáticos e as oportunidades de inserção nos sistemas de produção e nas cadeias produtivas, difere para cada país.   Para a UE-27 cumprir a meta de uso de biodiesel de 10% em 2020, seria necessário utilizar 4,6 Mha de terra, mais que o dobro dos 2,1 Mha cultivados em 2006. Entrementes, segundo a maioria dos analistas, o máximo de área agricultável disponível para a produção de canola para o biodiesel na UE-27 é de 2,9 M ha – logo faltam 1,7 Mha. Devido à proximidade geográfica, e aos interesses comerciais e geopolíticos envolvidos, essa lacuna favorece as exportações da Rússia e da Ucrânia, países onde a área de cultivo de canola está crescendo rapidamente; ou por importação do Canadá, que já é um produtor estabelecido e tradicional no mercado internacional. Apesar da análise desfavorável, cumpre ao Brasil posicionar-se competitivamente, eliminar os seus entraves que autoimpôs à sua exportação, e disputar esse mercado auspicioso.

 

4.1.1 – Expansão do cultivo 

Em uma hipótese teórica, a expansão da canola  nos EUA, provavelmente, teria que contar com uma parcela da área de 14 Mha do Conservation Reserve Program (CRP). Isto porque, há mais de 20 anos, não há aumento da área líquida de cultivo de grãos naquele país, e o aumento da área de uma cultura se dá à custa da diminuição de áreas de outras, em um constante trade off, modulado pelos preços relativos entre elas. Com o concomitante aumento da demanda de milho e soja, não é crível que ocorra um espaço para crescimento ponderável do cultivo de canola.   No Canadá, estima-se que será necessária área adicional para atingir a produção estimada de 15 Mt de canola, em 2015, de acordo com o Canola Council of Canada. Na Austrália, estima-se haver até 3,5 Mha de terra disponível para o crescimento do cultivo de canola. Apesar de a China ser o maior produtor mundial de canola, a importação, especialmente do Canadá, gira em torno de 1 Mt anuais. Não há terra disponível para expansão do cultivo de canola na China, portanto o país deverá pressionar o mercado mundial como um forte demandante, ainda que para fins alimentares.   Neste particular, é sempre importante analisar se a expansão de culturas para produção de biocombustíveis irá competir com a produção de alimentos. Até 2050, a população mundial deverá aumentar para cerca de 9 bilhões de habitantes, um crescimento explosivo (mais de 2 bilhões de pessoas adicionais), que vai coincidir com um aumento na demanda por biocombustível, impulsionado pelas preocupações relacionadas às mudanças climáticas e pelo declínio das reservas de petróleo e gás.

 

 

De acordo com a FAO, a área mundial de produção de biocombustíveis irá aumentar de 1% em 2004 para 4,2% em 2030, relativamente à área total cultivada[4]. Assim, em uma análise preliminar, haveria uma competição pelo uso desta área, que poderia ser destinada para a produção de alimentos. A canola, uma das culturas bioenergéticas, parcialmente contribuiria para essa concorrência, assim como a soja ou o girassol. Entretanto, não pode ser olvidado que, entre 20 e 40% do produto da colheita é destinado para a produção de energia (óleo), enquanto a fração proteica continuará sendo destinada à produção de alimentos.   Entrementes, em países como o Brasil, onde há possibilidade de três safras anuais em sucessão, culturas como a canola, que se inserem vantajosamente em sistemas de produção, além de não pressionar por aumento de área, ocorre o inverso, ou seja, otimização do uso da área já antropizada.

 

4.1.2 – Demanda de água 

Outra discussão será muito importante, no futuro próximo: o uso de água na agricultura. E, uma vez mais, a competição, dentro da produção agrícola, entre a demanda de água para produção de biocombustíveis ou para a alimentação vai desafiar os tomadores de decisão em muitos países, de forma similar ao conflito por área.   Obviamente que o primeiro critério sempre será se existe déficit hídrico, se há necessidade de suplementação, se efetivamente ocorre uma competição por água. Mas, paralelamente, outras discussões serão estabelecidas, como a demanda de água de cada cultivo, em função de seu potencial produtivo.   A eficiência do uso da água (definida como o quociente entre o volume de grãos produzidos e o volume de água utilizado) será crucial para estabelecer a competitividade das culturas, para ocupar o mesmo nicho mercadológico. Portanto, a relação entre a demanda de água de canola, para uma determinada produção de grãos (ou de óleo vegetal), vis a vis culturas concorrentes como soja ou girassol, será um parâmetro importante quando a discussão sobre o consumo competitivo de água se instalar.

 

 

Na análise da demanda de água entre as culturas para produção de biocombustíveis, a canola demanda entre de 67 m3/GJ (Holanda) até 214 m3/GJ (Brasil) e 113 m3/GJ nos EUA (Gerbens-Leenes et al., 2009 a). Comparativamente, os mesmos estudos indicaram demandas para milho a partir de 9 m3/GJ (Holanda), 39 m3/GJ (Brasil) e 18 m3/GJ nos EUA. Em uma perspectiva global, a canola ocupa o segundo lugar em termos de demanda de água, com 383 m3/GJ, similar ao pinhão-manso, que demanda 396 m3/GJ, entre 13 culturas produtoras de matéria prima para biocombustíveis (Gerbens-Leenes, 2009b). Por oportuno, este valor desmistifica a tese propalada de que o pinhão manso seria tolerante ao stress hídrico.   O uso da água para produção de matéria-prima para biocombustíveis varia muito entre os países. Por exemplo, são necessários 1,482 m3 de água para produzir uma tonelada de grãos de canola na Alemanha, em contraste com 9,9 m3/t na Índia. A média global mostra uma demanda de 14.200 litros de água (incluindo a água usada para tratamento de resíduos) para produzir 1 litro de biodiesel a partir de canola, em comparação com 13.676 litros para produzi-lo com soja. Em comparação, apenas 1.388 e 2.570 litros de água são necessárias para a produção de 1 litro de etanol, a partir de beterraba e milho, respectivamente. Esta análise indica claramente que, se a água torna-se um constrangimento para a produção de biocombustíveis, mais área pode ser direcionada para culturas de baixa demanda hídrica.

 

O impacto da restrição de água para produção agrícola varia de acordo com os países. Berndes (2002) e Gerbens-Leenes (2009b) mostraram o impacto da produção de biocombustíveis na demanda de água agrícola, e que a produção de bioenergia pode induzir estresse hídrico em diferentes países. Com base na disponibilidade de água e retirada de água per capita, 42 países que representam 90% da terra arável mundial, foram colocados pelo autor em quatro grupos: escassez absoluta, escassez, estresse e sem estresse. Países como a Nigéria podem atingir o nível de estresse de água com a produção de biocombustíveis, enquanto outros como China, Índia e Turquia, o estresse hídrico seria muito agravado. África do Sul e Polônia experimentariam estresse hídrico severo. Rússia, Canadá, EUA, Indonésia e Brasil estão no grupo de não estresse hídrico, mesmo com a expansão dos cultivos de biocombustíveis.   O artigo de Berndes (2002) dá uma perspectiva baseada na população total do país e na disponibilidade de água. No entanto, dentro de um país, existem grandes diferenças entre regiões. Por exemplo, grande parte da produção no Canadá ocorre na área semiárida do oeste do país, onde a água pode ser um problema, embora o país, como um todo, não apresenta escassez de água.

 

4.1.3 – Demanda de fertilizantes 

Outro tema importante, que remete à sustentabilidade do cultivo de canola, é a demanda de fertilizantes, em especial pelo seu custo elevado. Em um relatório da FAO (2008)[5], duas perspectivas são apresentadas. Em uma delas, Smeets e Faaji estimam um aumento entre 1 e 8% do consumo total mundial de fertilizantes por culturas de biocombustíveis em 2011/2012 e entre 2 e 16% em 2030. Outra estimativa citada no relatório é que as culturas de biocombustíveis responderiam por 27,6% do consumo mundial de fertilizantes, em 2010/2011, o que nos parece claramente superestimado.   De acordo com o Canola Council of Canada, para 1.960 kg/ha de biomassa acima do solo, a canola requer 112-134 kg N, 17-28 kg de P, 67-134 kg K e 22-28 kg S. Outra análise importante é se a expansão do cultivo de canola ocorreria em rotação com outras culturas, ou em solos de primeiro cultivo. No caso de rotação, a demanda de fertilizantes sempre é menor, pelo melhor aproveitamento de cada cultura, dentro do sistema.

 

4.1.4 – Produção orgânica 

Uma grande proporção de área cultivada com canola no mundo deverá ocorrer com canola GM (com exceção da América do Sul), tolerante a glifosato, portanto as preocupações sociais e ambientais sobre o impacto de variedades tolerantes a herbicidas continuarão em discussão. Em especial a polinização cruzada, e a possibilidade de contaminação de produção orgânica, que é ponderável na Europa, Canadá e Austrália, se constituem em preocupação, juntamente com a transferência do gene de resistência ao glifosato para plantas invasoras, que sejam compatíveis para cruzamento com canola GM.   Entretanto, as estatísticas disponíveis (Cóleno et al., 2005) mostram que, tanto no Canadá, quanto nos EUA, não houve redução da área de produção de agricultura orgânica, após a introdução da canola GM, a partir de 1995. Em teoria, a área de canola sob cultivo orgânico teria sido reduzida, caso houvesse contaminação das cultivares convencionais, pela polinização cruzada.

 

4.1.4 – Impacto ambiental 

A temática do impacto ambiental vai necessitar de muito investimento em pesquisa, nos próximos anos, para clarificar os fatos. Por exemplo, o impacto das culturas GM na biomassa microbiana do solo, e de suas funções ecológicas, é um tema muito controverso. Embora o impacto inicial seja constatado, a alta capacidade de recuperação da população eclipsa esse impacto inicial. O escape gênico para os ecossistemas é um tema complexo, que demandará muito estudo nos próximos 10-15 anos.   A análise do ciclo de vida de gases de efeito estufa (GEE) poderia ter um impacto negativo sobre a expansão do cultivo da canola. Na comparação das emissões de GEE de biodiesel com diesel de petróleo, a grande vantagem é a menor emissão de GEE de biodiesel. No entanto, existe uma controvérsia, porque alguns autores não contabilizam integralmente as emissões durante a produção de matéria-prima.

 

Por exemplo, Crutzen et al. (2008) calcularam que, devido às emissões da fabricação e aplicação de fertilizantes, especialmente considerando o óxido nitroso (N2O), o uso de biodiesel produzido com canola resultaria em aumento no total de emissões de GEE, em vez de redução. Já a conclusão oposta também é fornecida pela análise do ciclo de vida efetuada pela Global Renewable Fuels Alliance, que indica que cada litro de biodiesel consumido na UE resulta em 2,13 kg de redução de CO2.   Globalmente, os cereais e oleaginosas contribuem com 80% das emissões totais de N2O do setor agrícola, por sua vez o segundo maior emissor global, com 17% das emissões, perdendo apenas para os 31% do setor de geração de energia elétrica e calor. A menos que haja uma melhoria drástica na eficiência de absorção e uso de N da canola, e consequente redução das emissões de N2O, a canola pode ser prejudicada na comparação com outras matérias primas para produção de biodiesel, no que diz respeito às emissões de GEE.

 

4.2- Cenário de avanço tecnológico 

Este é o cenário mais provável para os próximos anos, indicando avanços tecnológicos. Mc Laren (2005) atribui a sustentabilidade futura da canola às inovações na área de biotecnologia, como as novas variedades de canola resistentes a doenças e insetos, com maior eficiência do uso de água e de nutrientes. Estes avanços irão reduzir os custos de produção e diminuir as emissões de gases de efeito estufa, ajudando na expansão da área cultivada com canola como cultura energética.   No entanto, a melhoria da tecnologia também pode ocorrer em outras áreas, além da biotecnologia. Por exemplo, Hummel et al. (2009) mostrou que a canola consorciada com trigo pode reduzir os danos à raiz da canola, causada por larvas da raiz (Delia spp.). Avanços tecnológicos conjuntos, de biotecnologia e genética clássica, devem ocorrer nos próximos 10-15 anos, em duas áreas principais: melhora na eficiência do uso de N e no desenvolvimento de cultivares resistentes a insetos-praga e a doenças.

 

4.2.1 - Fertilizantes 

Avanços tecnológicos serão fundamentais, em especial em relação ao uso de fertilizantes. Uma das grandes desvantagens da canola, na comparação com a soja como matéria-prima no mercado do biodiesel, é o alto custo do fertilizante nitrogenado. Pimentel et al. (2008) compararam o custo de insumos para produzir 1.000 kg de biodiesel nos EUA, mostrando que a produção a partir de óleo de canola (US$ 1.625,34) custa mais que a soja (US$ 1251,74), sendo o uso de fertilizantes a principal causa. Uma forma de reduzir essa diferença é o uso da canola em sucessão à soja, aproveitando o nitrogênio residual fixado simbionticamente pela leguminosa.   Os resultados de experimentos de campo em Minnesota e Dakota do Norte, utilizando canola GM com utilização mais eficiente do nitrogênio (GMNUE), mostraram que, sem adição de N, o rendimento médio foi 898 kg/ha superior para as variedades de canola GMNUE do que para as variedades convencionais, indicando o potencial de menor aplicação de fertilizantes nitrogenados para a cultura. Estas variedades ainda estão em estudo, porém representam um alento para reduzir o impacto das emissões de GEE pelo cultivo de canola.

 

4.2.2 - Fitossanidade 

Uma inovação que representará um grande avanço tecnológico é o uso de canola GM altamente resistente a insetos e doenças, que são problemas sérios para o cultivo da oleaginosa. Por exemplo, nos EUA e Canadá, as doenças como canela-preta (Leptosphaeria maculans), Esclerotinia (Sclerotinia sclerotiorum), Hérnia das crucíferas (Plasmodiophora brassicae) e insetos, como lagarta (Plutella xylostella L.), besouros (Phyllotreta cruciferae Goeze, Phyllotreta striolata [F.]), lagartas roscas (Euxoa ocbrogaster, Euxoa auxiliares, Mamestra configurata Walker), por exemplo, podem reduzir drasticamente a produção de grãos da canola.   Atualmente, a rotação é uma das técnicas para reduzir a incidência de doenças e insetos; o uso de fungicidas e inseticidas representa a última instância para evitar prejuízos à cultura. No caso do algodão, milho e, mais recentemente, soja, já existem variedades Bt (Bacillus thuringiensis), que conferem resistência a lagartas desfolhadoras. No futuro próximo, a canola também será beneficiada pela tecnologia.

 

4.2.3 – Uso do farelo 

A exploração e expansão da utilização de farelo de canola irão aumentar as receitas com a produção de canola. O farelo de canola já encontra seus usos na alimentação de ruminantes, de aves e de peixes. A utilização do farelo de canola na formulação de ração para animais, bem como para outros usos, trará lucro adicional e terá um impacto positivo na cadeia produtiva da canola, além de reflexos benéficos no sistema de produção como um todo.   Trabalhos de pesquisa publicados nesta área têm indicado que é altamente improvável que genes transgênicos possam estar presentes em produtos alimentares, provenientes de animais alimentados por farelo de canola transgénica. Em última análise, todos os avanços tecnológicos na produção e processos de canoa e de subprodutos ampliarão os usos do farelo de canola, reforçando a canola como uma colheita de bioenergia na competição com outras culturas candidatas.

 

4.2.4 – Tecnologias de processo 

  O avanço tecnológico nos setores relacionados ao biodiesel também vão desafiar a canola como matéria-prima do biodiesel. Recentemente, tecnologias à base de algas para produção de biodiesel estão avançando rapidamente, e o biodiesel de algas tem sido considerado como o mais promissor para substituir o petrodiesel como combustível para transporte. Melhorias na tecnologia, especialmente no uso da engenharia genética e metabólica, além de fotobiorreatores de alta eficiência, podem tornar o biodiesel de algas o mais competitivo no mercado. Igualmente, o desenvolvimento de sucedâneos de petrodiesel que não o biodiesel, por processos biotecnológicos que usem como matéria prima outras fontes de biomassa (por exemplo, diesel vegetal de cana-de-açúcar), também podem afetar negativamente o avanço da cultura, no médio e longo prazo.  

 

Referências:

 

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[1] Japão, EUA e UE-27 iniciaram processos de investigação de violação dos acordos firmados na criação da Organização Mundial do Comércio, junto a este órgão.

1. O valor foi estimado por Fulton, M. & Keyowki, L. 1999. The producer benerfit of herbicide-resistant canola. AgBioForum 2, 85-93; por Monjardino, M.; Pannel, D. J. & Powles, S. B. (2005). The economic value of glyphosate-resistant canola in the management of two widespread crop weeds in a western Australian farming system. Agric. Systems 84, 297-315; e por Brooks, G. & Barfoot, P.  2006. Global impact of biotech crops: socio-economic and environmental effects in the first ten years of commercial use. AgBioForum 9, 139-151.

[3] A grande diferença ocorre na estabilidade oxidative, devido à menor proporção de ácidos graxos polinsaturados no óleo de canola.

2. FAO Factsheet, Climate change, energy and food (FAO 2008, delegates folder High Level Conference). www.fao.org/climatechange/49537/en

3. FAO – Food and Agriculture Organization. 2008. Current world fertilizer trends and outlook to 2011/12. FAO, Rome, Italy.

 

    

Protecionismo, subsídios e fome

Decio Luiz Gazzoni

 

       

Sempre que refletimos sobre subsídios agrícolas, vem à mente uma história contada pelo amigo Alysson Paulinelli. Tendo aceitado o convite para ocupar o Ministério da Agricultura, o futuro presidente, General Ernesto Geisel, lhe repassou uma nota técnica elaborada pelo também Ministro Mario Henrique Simonsen, contendo uma proposta de controle inflacionário. Entre outras medidas, Simonsen propunha eliminar os subsídios agrícolas. Depois de muito refletir, pensar e estudar, Paulinelli retornou com uma pergunta: Quais subsídios? Na visão (acertada) do Engo. Agro. Alysson Paulinelli havia medidas de apoio e incentivo à agropecuária, mas não transferências de renda que caracterizam os subsídios agrícolas. São estes que distorcem o ambiente produtivo e artificializam o comércio internacional, deslocando os eixos de competitividade. Esta discussão durou os cinco anos de Governo, um embate entre a manha do mineiro Paulinelli e os planos do acadêmico Simonsen, sem que este conseguisse demonstrar um subsídio sequer, à agricultura brasileira.   Quem pode pagar subsídios são nações (ou blocos econômicos) ricos. Entre suas externalidades negativas estão o impacto deletério sobre economias que dependem do setor primário, restringindo seu desenvolvimento, fechando-lhe as portas do mercado, aumentando o desemprego e as oportunidades de renda e, no limite, aumentando a fome no mundo. Não dispomos do mesmo brilho intelectual nem a “mineirice” do Dr. Paulinelli, mas costumamos afirmar que, sem subsídios, os produtores europeus iriam à bancarrota, não suportando três anos de competição direta com seus congêneres brasileiros.

 

 

         

Impacto protecionista

 

Passadas quase quatro décadas do mandato ministerial de Paulinelli, o Brasil não utiliza medidas protecionistas, como subsídios. Ao contrário, penaliza seus produtores com baixo volume de crédito e juros incompatíveis com a atividade, alta taxação tributária, câmbio desfavorável e logística não condizente com o potencial do agronegócio, comparativamente a seus concorrentes pela liderança mundial do setor. Entrementes, são recorrentes os exemplos de embargos a produtos brasileiros, mais numerosos no setor de carnes. Porém, registre-se a devolução de carregamentos de soja, por razões fitossanitárias nunca devidamente justificadas. O etanol brasileiro já foi sobretaxado por pressão dos produtores de milho dos EUA, medida não renovada pelo Congresso americano, abrindo o mercado ao etanol brasileiro, a partir de 2012.  

Medidas protecionistas permeiam o mundo há décadas. Na Europa dos anos 70, os subsídios agrícolas representaram 84% do seu orçamento. Em 2011, a Política Agrícola Comum (PAC) representou mais de 40% do orçamento da União Europeia, sendo um dos impulsionadores da adesão de países ex-comunistas à UE, sequiosos por participar do bolo de subsídios. Seu custo, tanto financeiro quanto social, é muito alto, pois aproximadamente 35% do orçamento da UE beneficiam 5% da população, que são os produtores rurais.

 

 

       

Com as mudanças decorrentes da adesão à OMC, os subsídios europeus, existentes anteriormente à criação da OMC, hoje compõem a chamada “caixa verde”, de apoio direto aos agricultores, apesar de serem não-reembolsáveis. Para conferir dimensão numérica, basta recordar que a Comissão Europeia propõe manter os subsídios da PAC, durante a próxima década, superando R$ 1,2 trilhão, em valores atuais (57 milhões de euros anuais). A grande justificativa para os subsídios europeus são, entre outros fatores, o preço da terra e a baixa escala de produção, devida ao tamanho das propriedades, próximo a um hectare por produtor. Em um mercado aberto, sem protecionismo, haveria uma evasão rural em massa na Europa, destroçando a agropecuária continental. A alegação é verdadeira, porém insuficiente para justificar o volume colossal de subsídios, que distorcem o mercado global e prejudicam países que dependem da agropecuária.   Como os subsídios passam a compor a renda dos produtores e encarecem o custo de produção, eles concorrem para o aumento das cotações dos produtos agrícolas. As barreiras à entrada de produtos importados é uma reação à ineficiência produtiva e falta de competitividade. Havendo mais dinheiro à disposição, e estando os subsídios ligados ao volume da produção, o produtor utiliza uma quantidade de insumos que ultrapassa sua eficiência econômica. Maior demanda de insumos, para a mesma produção, significa maior custo unitário e maior dificuldade de aquisição por produtores que não são subsidiados.   Dessa forma, muitos produtos chegam ao varejo com preços mais elevados, dificultando o acesso das pessoas aos alimentos, que, em última instância pagam pela ineficiência subsidiada. Diferentemente do agricultor brasileiro que, por enfrentar um ambiente adverso, emoldurado pelo Custo Brasil, aprendeu a produzir de forma eficiente.

       

 

 

Liberalização do comércio

 

A História do Mundo demonstra que os movimentos de liberalização do comércio coincidem com períodos de grande e generalizado crescimento econômico. A atual crise econômica tem sido justificativa para recidivas protecionistas, em especial nos EUA e na Europa, para proteger o emprego e a renda locais, restringindo o acesso ao mercado doméstico, porém contraditoriamente associadas a políticas agressivas de ocupação dos mercados de outros países. Após quase uma década de negociações, a Rodada Doha de liberalização comercial foi encerrada sem nenhum sucesso. As negociações para um acordo entre Mercosul e União Europeia não avançam. A renovação dos subsídios da PAC e as dificuldades que o Brasil enfrenta para colocar suas carnes na Ásia, Rússia ou mesmo no Mercosul (Argentina) reafirmam a tese.  

A Organização Mundial do Comércio (OMC) se constitui em ferramenta de liberalização do mercado. Um dos casos mais emblemáticos de disputas na OMC é o do algodão brasileiro. Em 2011, o Brasil conseguiu o direito de retaliar os EUA, caso o país mantivesse o subsídio aos seus produtores. Mesmo com custos mais altos, os cotonicultores norte-americanos respondem por 40% das exportações mundiais. O processo brasileiro foi o primeiro da história do órgão internacional, envolvendo a agricultura. A decisão final impõe que os norte-americanos transfiram aos produtores brasileiros, a cada ano, US$ 150 milhões, como compensação aos subsídios aos seus agricultores. O acordo prevê que o pagamento até 2013, a partir de quando os subsídios serão reduzidos até a extinção.

       

 

 

        Concluindo, o mundo seria muito melhor sem subsídios. Mas será este mundo possível?

 

    

Cana-de-açúcar e ambiente

Décio Luiz Gazzoni

 

      

Agricultura e alterações no ambiente são gêmeos siameses, convivendo desde que o Homem de Nerdenthal pela primeira vez plantou uma roça. A cana-de-açúcar apresenta interações positivas e negativas com o ambiente, sendo o consumo de água, o uso de fertilizantes e a participação da cultura na dinâmica dos gases de efeito estufa os principais aspectos. Por ser a matéria prima do etanol, um combustível amigável ao ambiente, a cana gera a expectativa de colaborar com a mitigação do efeito estufa, superando os seus impactos negativos sobre o ambiente.   Com plantações concentradas em áreas com boa distribuição de chuvas, embora apresente alta resposta à irrigação, a técnica é pouco utilizada. Os resultados demonstram que a cana utiliza menos água que outros cultivos, como soja ou café, em relação ao volume de biomassa produzido por unidade de área. A alta resposta da cana à irrigação foi demonstrada pelo pesquisador Marcos Landell (IAC, Ribeirão Preto), que desenvolveu uma variedade com produtividade superior a 300 t/ha, cultivada em condições ideais de suprimento de água e nutrientes. A vantagem desta alta produtividade é reduzir a expansão da área plantada e do volume de água consumido, diminuindo os impactos ambientais.

 

 

       

 

Dentro da usina, o consumo de água se reduziu de 5,6 m3 para 1,8 m3, por tonelada de cana processada, nas duas últimas décadas. Por Lei, as novas plantas industriais que se instalarem em São Paulo podem consumir, no máximo, 1 m3 de água por tonelada de cana processada. Em linha com a Lei, a indústria Dedini dispõe de tecnologia que permite o fluxo de água em circuito fechado, reduzindo a zero a necessidade de água adicional nas usinas!

  A cana-de-açúcar consome apenas 13% do adubo utilizado no Brasil. Os fertilizantes nitrogenados são altamente solúveis, sendo lixiviados para as camadas sub-superficiais do solo. O excesso de fósforo provoca a eutrofização, que é a proliferação de algas na água. Assim mesmo, as avaliações disponíveis indicam que estes problemas são de baixa magnitude no Brasil, comparativamente aos EUA, Europa ou Japão. Subprodutos contaminantes, como a vinhaça, não podem ser jogados em rios e são reaproveitados como fertilizantes, sendo submetidos a limites de aplicação para evitar contaminação do solo.   Em 2008, com produção semelhante de etanol no Brasil e nos EUA, a cana brasileira consumiu 910 mil toneladas de adubo, muito abaixo dos 2,8 milhões de toneladas empregados na produção do milho norte-americano destinado à produção de etanol. Contribuindo para reduzir as emissões, a Embrapa desenvolveu a tecnologia de bactérias simbiônticas, fixadoras de Nitrogênio, que podem diminuir em até 50% o uso de adubos nitrogenados minerais na cana. Os fertilizantes nitrogenados liberam óxido nitroso (N2O), que é 300 vezes mais potente que o CO2 na contribuição para o efeito estufa.

       

 

 

       

O CO2, também compõe a avaliação ambiental da cana, pois há mais carbono na camada superficial do solo do planeta do que na atmosfera. Isso faz com que qualquer atividade de manejo do solo seja uma potencial liberadora de CO2. A estrutura da planta de cana concentra a parte seca e mais rica em carbono na porção inferior e na raiz do vegetal, o que mantém o CO2 sob o solo.   A colheita da cana crua, sem queima, pode aumentar o teor de carbono na terra. A legislação do Estado de São Paulo prevê a extinção da colheita com fogo até 2031. Além de manter a palha no campo, a cana crua não libera o CO2 por queima da palhada residual.

 

 

        Finalmente, os dois principais produtos da cana, a sacarose e o etanol, contêm somente carbono, hidrogênio e oxigênio, ou seja, boa parte dos minerais contidos nos fertilizantes pode ser reciclada, permanecendo no campo, reduzindo a contaminação ambiental.

    

Cana e biotecnologia

Decio Luiz Gazzoni

 

Um estudo do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), publicado no Plant Biotechnology Journal, confirmou que genes associados ao teor de sacarose apresentam alterações de acordo com o potencial de rendimento de biomassa da cana.   O foco do estudo é a “cana energia”, que não precisa ter grande quantidade de açúcar, mas muita biomassa, sinônimo de alta produtividade. A premissa é que, no futuro, cultivaríamos dois tipos de cana: a atual, com alto teor de açúcar; e a cana fibra, destinada a produzir energia, sendo usadas técnicas biotecnológicas para desconstruir carboidratos complexos, como celulose e hemicelulose, até açúcares duplos ou simples. Estes açúcares seriam, então, objeto de fermentação por microrganismos modificados geneticamente, podendo produzir grandes quantidades de qualquer biocombustível (etanol, butanol, bioquerosene, biogasolina, diesel vegetal, etc.).

 

A produtividade da lavoura de cana brasileira situa-se entre 80 e 100 t/ha. O potencial produtivo, demonstrado em talhões experimentais, é de 400 t/ha, se forem eliminados todos os estresses bióticos (pragas) e abióticos (seca, frio, baixa fertilidade). Esta produtividade foi atingida com variedades convencionais, de alto teor de açúcar. Como a eficiência da planta é maior para produção de polímeros (fibras), as atenções se voltam para novos tetos de produtividade da cana.

 

O teto é apenas um sinalizador teórico da produtividade que pode ser obtida nas lavouras comerciais. Com menor demanda de energia da planta, seria possível aumentar a produtividade no campo, se o teor de açúcar do caldo for menor. Este não será um grande problema se, efetivamente, forem desenvolvidos processos para desconstrução das substâncias complexas para outras simples, utilizando microrganismos. Esta linha de pesquisa também apresenta novidades, pois estão sendo “engenheirados” microrganismos que fariam as duas etapas simultaneamente, ou seja, digerir as fibras e transformar os açúcares em combustíveis. Esta inovação representa uma redução de custo de produção, competitividade para a cadeia e menor custo do biocombustível na bomba, favorecendo a substituição de combustíveis fósseis, altamente poluentes.

 

    

Milho doce

Décio Luiz Gazzoni

 

Existe aquele milho do grão seco; o milho verde, aquele do supermercado; o milho pipoca; e o milho doce. Este você não conhece? Não se surpreenda, milho doce, adorado pelos norteamericanos, é pouco conhecido em Pindorama. Eu mesmo só o cultivei uma vez, há 40 anos, quando cursava pós graduação, lá no Rio Grande amado! Mas garanto que é muito mais gostoso que o milho verde.

 

Para quem gosta, para quem vai gostar, e para os produtores de milho, uma ótima notícia: a Embrapa está lançando uma nova cultivar de milho doce, chamada BRS Vivi. A cultivar poderá ser plantada na Região Sudeste e – maravilha! - aqui no Paraná. Ela tem produtividade superior a 2 toneladas por hectare, mas o que importa mesmo é o alto teor de açúcar no grão. Trata-se de uma variedade considerada super doce pelos pesquisadores, com aproximadamente 25% de açúcar no grão – para comparar, a cana-de-açúcar ou a uva chegam a 20%! As outras cultivares de milho doce têm entre 16% e 18% de açúcar. É uma característica importante porque vai fazer com que seja mais apreciada pelo consumidor. Isto deve render um valor de mercado maior para o produtor porque, assim que a descobrir, o consumidor vai pressionar para que seja produzida em grande quantidade.   Conforme a Embrapa, a nova variedade tem um ciclo de 80 dias, um tempo bem curto entre o plantio e a mesa do consumidor. Pode produzir acima de 2.200 quilos por hectare, considerando o grão no ponto de maturação fisiológica, porém, com a umidade corrigida para 13%, que é o padrão para comparar rendimento de grãos. Os cuidados de manejo devem ser os mesmos com os quais o produtor já está acostumado, a única diferença é a densidade de plantio. Nos estudos da Embrapa foram utilizadas 50 mil plantas por hectare, o que é um número um pouco mais baixo do que o plantio para grãos. A BRS Vivi não tem nenhuma característica especial em relação à resistência a doenças ou ataque de pragas. A experiência tem demonstrado que as variedades de milho doce são mais sensíveis do que os materiais comuns, exigindo mais atenção do produtor. Para mais informações sobre a BRS Vivi, os interessados podem entrar em contato com a Embrapa Milho e Sorgo (www.cnpms.embrapa.br).

 

    

Cana e emissões
Décio Luiz Gazzoni

 

Em Ciência, a Verdade é sempre a última verdade: a verdade de hoje pode não sê-la amanhã, mesmo se proferida por um Prêmio Nobel. Pesquisadores de universidades, da Embrapa e outros institutos brasileiros demonstraram que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da cana-de-açúcar, principalmente do óxido nitroso, são menores do que as estimadas no modelo matemático elaborado pelo Dr. Paul Crutzen. Paul foi laureado com o Nobel de Química de 1995, por seu estudo sobre a formação e decomposição do ozônio na atmosfera. É membro da Pontifícia Academia de Ciências e professor do Max-Planck-Institute for Chemistry, da Alemanha.   Em um artigo de 2008, com o taxativo título “Liberação de óxido nitroso na produção de agrobiocombustíveis nega mitigação do aquecimento global pela substituição de combustíveis fósseis” (www.atmos-chem-phys.net/8/389/2008/acp-8-389-2008.pdf), o Dr Crutzen concluiu que a substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis pode não redundar em mitigação do aquecimento global, devido às emissões de óxido nitroso na produção da matéria prima. Para a cana-de-açúcar, o Dr. Crutzen estimou um fator de emissão (kg de CO2 equivalente/megajoules de energia produzida) superior a 3%, para lastrear sua conclusão.


 

   

Os cientistas brasileiros investigaram, no campo, a relação entre as emissões de GEE, a adubação e o acúmulo de palhada no canavial, publicando os resultados na edição de novembro da Revista Global Change Biology (http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1757-1707.2012.01199.x/pdf). Nas medições realizadas em canaviais de Jaú e Piracicaba, os cientistas encontraram fatores de emissão tão baixos quanto 0,68%. Na média final do estudo, o fator calculado foi inferior a 1%, contrastando fortemente com o valor superior a 3%, usado pelo Dr. Crutzen em seu modelo matemático. Os fatores de emissão são fundamentais para o estabelecimento de políticas públicas, como a definição de “biocombustível avançado”, restrito aos biocombustíveis de baixas emissões, conferindo-lhes melhores condições de acesso ao mercado.
 
 

Esse estudo sugere uma nova Verdade sobre produção de bioetanol e emissões de óxido nitroso. Quem sabe ainda rende um Premio Nobel ao Brasil?

 

    

Produtividade agrícola

Décio Luiz Gazzoni

 

  Existem no mundo o equivalente à população de 5 brasis com algum grau de restrição alimentar, de acordo com a FAO, que tenta, desde os anos 80, arrancar compromissos dos países membros para erradicar a fome no mundo. Sem sucesso, pois o número de famélicos vem aumentando. O fulcro do problema está na renda para adquirir alimentos, o que pode ser resolvido aumentando a renda ou diminuindo o preço dos alimentos. Para que o agricultor não tenha que pagar a conta, o preço dos alimentos precisa diminuir por ganhos de produtividade. A produtividade pode aumentar com maior uso de insumos (maior custo) ou por adequação tecnológica, sem usar mais adubos ou agrotóxicos, logo sem aumentar custos.  

 

O Dr. Keith Fuglie, do USDA, estudou a Produtividade Total dos Fatores (PTF) na agricultura mundial, relacionando o crescimento da produção com o uso de terra, trabalho, capital e insumos. Se a produção crescer mais do que o uso destes fatores, a PTF aumenta abrindo espaço para redução de preço dos alimentos. A conclusão do autor é que a PTF entre 1990 e 2010 cresceu 1,6% a.a, enquanto entre 1970 e 1990 a taxa média de crescimento foi inferior a 1%. Nestas duas últimas décadas a produção agrícola mundial cresceu 2% ao ano e a PTF foi responsável por 70% do aumento da produção mundial. Como corolário, os insumos agrícolas tiveram seu uso diminuído e o autor estima a queda em quase 60% nas duas últimas décadas, em relação às duas anteriores.   Mas os resultados não são lineares, variando entre regiões. Por exemplo, na América do Norte e na Europa, houve redução no uso de insumos desde 1980, com uma diminuição na taxa de crescimento da produção. Já na antiga União Soviética, a queda no uso de insumos foi enorme, com o empobrecimento que se seguiu ao fim do comunismo, levando à queda na produção. Finalmente chegamos ao Brasil: foi o melhor desempenho da PTF nos últimos anos. Estamos crescendo acima de 3% a.a., desde 1980, e a PTF explica 83% do aumento da nossa produção. Isto é uma pá de cal na corrente que afirmava, sem resultados científicos, que o aumento da produção brasileira decorria de maior uso de insumos.

 

    

Agricultor familiar

Decio Luiz Gazzoni

 

Excetuando os EUA, a agropecuária dos países ricos se constitui de propriedades inferiores a 5 ha, é praticada em tempo parcial e os agricultores tem idade avançada. Mas conta com subsídios do Governo e máquinas adaptadas a micro propriedades. Nos EUA está em curso uma reforma agrária ao inverso: médios agricultores arrendam milhares de hectares de proprietários que não querem se desfazer da terra. Apesar dos pesados subsídios do governo, ouvi de um ex futuro agricultor: “...nenhuma moça quer casar com jovens agricultores. A vida na fazenda é muito dura e pouco remuneradora. Elas preferem quem investe em carreiras urbanas”.   Por aqui, um telejornal apresentou reportagem sobre Frederico Westphalen, uma região de agricultura familiar, com dificuldades para manter os jovens no campo. O que mais me tocou foi a fala de um pequeno produtor: “-...E, no final do ano, tirava prá comprá o quê: um par de calças e um tênis e mais nada, não sobrava prá nada, né?”.

 

O pequeno produtor tem chance de sobreviver se explorar produtos de alto valor intrínseco (suínos, aves, flores, frutas, hortaliças). Cultivar grãos é quase sinônimo de falência. É um mito afirmar que existe mão de obra disponível na propriedade familiar – ela é tão escassa e cara quanto em qualquer propriedade, e a severa legislação trabalhista elimina postos de trabalho no campo. Não há máquinas e implementos adequados para pequenas propriedades. E, se houvesse, o produtor não disporia de capital para adquiri-las.   Nos anos 60, a minifundização no Rio Grande do Sul promoveu uma diáspora, que levou hordas de gaúchos a desbravarem o Brasil e outros países. Com agudo senso empreendedor e negocial, muita capacidade de trabalho e resistência a frustrações, os gaúchos expulsos das propriedades familiares do Sul, transmutaram-se nos exemplos decantados do sucesso do agronegócio brasileiro, donos de patrimônios que montam a milhares de hectares e milhões de reais. Via-de-regra, os atuais grandes proprietários rurais do Centro Oeste brasileiro, nada mais são do que os pequenos proprietários familiares do século passado, que venceram por seus próprios méritos! Crescer ou desaparecer, seria a sina do pequeno agricultor?

 

    

Código Florestal

Décio Luiz Gazzoni

 

Recentemente assisti uma brilhante análise do novo Código Florestal, proferida pelo Dr. Evaristo Miranda, pesquisador da Embrapa. Particularmente, chamou-me a atenção o seu enorme impacto sobre as médias propriedades rurais. Os pequenos agricultores foram preservados no Código porque, se assim não fosse, o seu desaparecimento do cenário agrícola seria antecipado. Porém, quando a propriedade ultrapassa um hectare além de quatro módulos fiscais – os médios produtores - a dureza da lei se manifesta. Em geral, os médios produtores possuem entre 50 e 400 ha de terra, dependendo do módulo fiscal.

  Ao contrário do rotineiramente veiculado por desinformados, o déficit de reserva legal não está nas grandes propriedades: ele aumenta conforme diminui o tamanho da propriedade, segundo atesta o Censo Agropecuário. Posto não haver uma parcela a deduzir quando muda a classe de agricultor (por exemplo, de pequeno para médio), como ocorre nas faixas de imposto de renda, o custo de adequação dos médios agricultores pode inviabilizá-los.

 

O Dr. Miranda concluiu que, após cumprir as determinações do novo Código, os médios agricultores se tornarão pequenos, pela diminuição da área útil que disporão para exploração. A afirmativa é válida para todos os estados, embora seja mais intensa em alguns. No Norte e Nordeste do Brasil, onde a agricultura é praticada na beira dos rios, o drama social será intenso, na avaliação do pesquisador, pois, sem água, os agricultores terão pouca opção além de vender a terra – que, concentrada em grandes propriedades, poderá atender as exigências legais – e migrar para a cidade.   Quanto mais reflito sobre o tema, mais me convenço que, olhando exclusivamente do ponto de vista dos pequenos agricultores, especialmente familiares, a Europa, o Japão, os EUA e outros países ricos não têm opção: precisam pagar, e pagar caro, para fixar os agricultores na terra, caso contrário dela seriam expulsos por sua inviabilidade econômica. Acontece que os países ricos dispõem de recursos para tanto. E nós, no Brasil, que solução encontraremos para os pequenos agricultores, cuja capacidade competitiva, que lhes permitiria permanecer na atividade, parece diminuir a cada ano?

    

Toxicidade do diesel e do biodiesel 

Decio Luiz Gazzoni

 

Primeiro foram as preocupações ambientais. Agora, a sociedade quer saber os efeitos que os combustíveis apresentam sobre a saúde humana e de outros animais, domésticos ou silvestres. Diversos estudos recentes buscam estabelecer eventuais efeitos tóxicos do petrodiesel e de seu sucedâneo renovável, o biodiesel. Atualmente, está pacificamente estabelecido que o biodiesel é menos poluente do que o diesel de petróleo, especialmente por emitir menor quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera.   Entretanto, este fato não o livra do exame acurado de cientistas, que buscam identificar a toxicidade de combustíveis fósseis ou renováveis sobre espécies animais – incluindo o Homem. Selecionamos dois estudos recentes, envolvendo toxicidade de petrodiesel e biodiesel, sobre populações humanas e sobre peixes, para ilustrar o tema. O primeiro, produzido no Brasil, estuda o impacto de petrodiesel e biodiesel sobre peixes. O segundo, realizado nos Estados Unidos, investiga a relação entre as exaustões da combustão de petrodiesel e câncer de pulmão.

Toxicidade sobre peixes

O biodiesel, apesar de renovável e menos poluente, também pode causar impactos na biota marinha, dependendo da espécie atingida. Isso porque sua formulação possui elementos naturais que poderiam facilitar a absorção de substâncias tóxicas pelos animais. Esta é a conclusão da pesquisa da equipe do professor Eduardo Alves de Almeida no Departamento de Química e Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto (SP). O artigo, denominado “Petrodiesel vs Biodiesel: a comparative study on their toxic effects in nile tilapia and armoured catfishes", foi publicado em junho de 2011 (Chemosphere 85:97–105) e a íntegra do artigo pode ser encontrada em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S004565351100590X.  

 

A pesquisa teve como objetivo a análise comparativa das respostas bioquímicas entre as espécies Oreochromis niloticus (tilápia-do-nilo) e Pterygoplichthys anisitsi (cascudo marrom), após exposição controlada ao diesel de petróleo e ao biodiesel de sebo animal. A tilápia foi selecionada pelos cientistas por ser um modelo em toxicologia e possui hábito nectônico, ou seja, por nadar na coluna d’água ela tem acesso a todos os compartimentos do ambiente aquático. Portanto, caso o curso d’água seja contaminado, em qualquer altura, a tilápia estará exposta ao contaminante.

 

De sua parte, o cascudo, espécie endêmica da América Latina, é bentônico, ou seja, passa a maior parte do tempo no fundo do ambiente aquático, o que lhe permite maior contato com substâncias contaminantes presentes nos sedimentos.

 

Um dos objetivos do estudo foi observar se, pelo hábito dos peixes, as respostas à exposição aos combustíveis testados seriam diferentes. Além das duas diferentes espécies de peixes, os estudos envolveram duas durações de exposição (dois e sete dias), duas formulações de combustível (misturas de petrodiesel e biodiesel, B5 e B20), comparadas com petrodiesel e biodiesel puros (B100). Tanto as misturas, quanto o petrodiesel e o B100, foram testados em duas doses, a 0,01% e 0,05% de diluição em água.   Nas suas conclusões, a equipe refere que o B20, nas condições testadas, apresentou menos efeitos adversos do que o diesel de petróleo e que o B5, o que pode indicar uma alternativa de combustível menos danoso do que o diesel pois, aumentando a concentração do biodiesel, diminui a toxicidade do produto.   Entretanto, mesmo o biodiesel puro pode ativar respostas biomecânicas em peixes, indicando que esse combustível também pode representar um risco para os peixes testados. Embora o efeito não seja direto, substâncias presentes do biodiesel facilitariam a ação de substâncias tóxicas, como aquelas presentes no petrodiesel. Esta afirmativa decorre da observação de que, quando misturados ao biodiesel, alguns metabólitos tóxicos do petrodiesel foram encontrados em concentrações levemente maiores na bile das tilápias do que nas análises dos animais expostos ao diesel de petróleo puro.

 

 

O estudo apontou que o biodiesel não está totalmente isento de toxicidade. Segundo os resultados obtidos pela equipe de pesquisa, ele pode ocasionar, de forma mais agressiva que o diesel de petróleo, a oxidação nas membranas celulares das brânquias dos peixes. A explicação mais provável é que substâncias presentes no biodiesel, especialmente os derivados de ácidos graxos, são facilmente absorvidos pelos peixes. Esta ação, de certa forma, auxilia na absorção pelos peixes de mais substâncias tóxicas do petrodiesel presentes na mistura que, na ausência do biodiesel como ‘facilitador,’ eram mais difíceis de serem absorvidas.   A equipe do professor Eduardo Alves de Almeida prossegue na investigação dos efeitos tóxicos do petrodiesel e biodiesel sobre a biota marinha, buscando entender toda a extensão dos impactos de eventuais contaminhações de cursos de água por combustíveis.

 

Diesel e câncer